OPINIÃO

Tributo a Jacob Bjerknes

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Naquele quase fim de anos 1950, Jacob Bjerknes não precisava da ajuda do acaso para ter o seu nome consagrado como um dos mais importantes meteorologistas do século XX. Mas, eis que o destino quis que ele se encontrasse no lugar certo e no momento certo para fazer mais uma contribuição definitiva às ciências atmosféricas, no tocante às previsões climáticas.

Jack, como era chamado pelos amigos na UCLA (University of California at Los Angeles), já estava praticamente encerrando sua carreira científica, na ocasião.

Ele era filho de Vilhelm Bjerknes que, em 1918, fundou um Instituto Geofísico em Bergen, na Noruega, cujas contribuições criaram uma verdadeira “escola” em meteorologia. Jacob, jovem na ocasião, trabalhou com Vilhelm e outros importantes cientistas, desenvolvendo trabalhos que revolucionariam a meteorologia praticada na época. Só para exemplificar: a teoria das frentes meteorológicas e os fundamentos da previsão numérica de tempo surgiram nesse grupo. Seguindo a leva dos cientistas europeus que migraram para os Estados Unidos nos anos 1930, os Bjerknes tomaram o mesmo rumo. Foram se radicar na Califórnia, passando a trabalhar na UCLA. Vilhelm Bjerknes morreu em 1951 e Jacob em 1975, consagrados entre os mais importantes nomes da meteorologia moderna.

Aconteceu que Morris Neiburg, colega de Jacob Bjerknes na UCLA, tinha, na ocasião, um contrato de prestação de serviços com a Inter-American Tropical Tuna Commission (Comissão Inter-Americana do Atum Tropical), cujo diretor, Milner Schaefer, acreditava que o aquecimento do oceano, conhecido como El Niño, poderia ter algum tipo de efeito na abundância e distribuição dessa espécie de peixe. Em função de outros compromissos, ou talvez por não acreditar muito, Neiburg passou para Bjerknes a atribuição de investigar as inquietações de Milner Schaefer.

A escolha não poderia ter sido melhor, pois Jacob Bjerknes era um cientista acostumado a pensar os fenômenos atmosféricos em escala global. Ele começou tentando entender o papel dos oceanos na regulação climática.

Naturalmente iniciando pelo Atlântico Norte e depois passando para todos os oceanos tropicais. Também o período entre julho de 1957 e dezembro de 1958, designado como Ano Geofísico Internacional, não por acaso foi um ano de El Niño. E envolveu um grande esforço mundial de observações oceânicas e atmosféricas, que forçou meteorologistas e oceanógrafos a buscarem novas formas de pensamento para uma melhor interpretação dos fenômenos geofísicos.

Na época, também, houve um simpósio, na localidade de Rio Rancho, Califórnia, em junho de 1958, para tratar das mudanças que estavam ocorrendo no Oceano Pacífico em 1957 e 1958. Jacob Bjerknes não compareceu a esse evento, mas estava presente um ex-estudante dele, Jule Charney. Charney foi um dos pioneiros da previsão numérica de tempo, e presidindo uma sessão do evento, num ambiente de excitação e confusão, foi enfático em declarar, entre outras coisas, que oceano e atmosfera deveriam ser considerados como um sistema dinâmico acoplado. O que intrigava os cientistas presentes em Rio Rancho era o fato de que as temperaturas da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial mostravam um aquecimento desde a costa do Peru até as imediações da linha internacional de mudança de data, no centro da bacia do Pacífico.

Jacob Bejerknes buscou interpretar, da melhor forma possível, esse fenômeno. Na revisão de literatura chegou até os trabalhos de Sir Gilberto Walker, publicados nos anos 1920, tratando do fenômeno Oscilação Sul.

As anomalias climáticas observadas em várias partes do mundo durante o grande experimento global chamado de “Ano Geofísico Internacional” (International Geophysical Year, julho de 1957 a dezembro de 1958) intrigavam sobremaneira a comunidade científica. Apesar disso, ninguém, antes de Jacob Bjerknes literalmente se debruçar sobre o problema, conseguiu perceber o elo entre os fenômenos climáticos extremos ocorridos até então.

Jacob Bjerknes publicou o seu primeiro trabalho científico sobre El Niño em 1961. O clássico: “El Niño study based on analyses of ocean surface temperatures 1935-1957”. Nele a observação fundamental de que o controle meteorológico da ocorrência de um evento El Niño estava relacionado com as flutuações dos ventos alísios sobre o Oceano Pacífico. Ou seja: Bjerknes enxergou a ligação do fenômeno El Niño, até então visto como um evento exclusivamente oceânico, com o comportamento dos ventos na faixa equatorial. Em outras palavras: era o enfraquecimento dos ventos alísios que permitia uma acumulação de águas quentes, bem acima do normal, no extremo leste do Oceano Pacífico tropical.

O velho meteorologista norueguês começava assim a montar o quebra-cabeça de El Niño e suas anomalias climáticas. Uma das inquietações de Bjerknes dizia respeito à Ilha Kanton (uma estreita faixa de rochas encrostada de corais no centro do Oceano Pacífico equatorial, que serviu de base para a Força Aérea Aliada na Segunda Guerra Mundial). Essa ilha, um local árido, se caracterizou por um ambiente muito úmido em 1957. Ele ficou intrigado com a coincidência entre os anos de chuvas abundantes em Kanton e os anos de El Niño. A explicação encontrada para esse fato envolvia uma intensificação do processo convectivo, transferindo umidade do oceano aquecido para a atmosfera, com a consequente formação de nuvens de chuva no Pacífico central, uma região geralmente seca.

Visto assim, não foi surpresa que Bjerknes, na busca de literatura sobre o tema, chegasse até os trabalhos de Sir Gilbert Walker, publicados nos anos 1920. Ele foi o pioneiro em reconhecer a genialidade dos escritos de Walker. As relações estatísticas estabelecidas por Sir Gilbert Walker iluminaram um fenômeno extraordinário, que nunca poderia ser explicado adequadamente nem pela meteorologia e nem pela oceanografia isoladamente. Em resumo: era o resultado do acoplamento oceano-atmosfera, que até então não havia sido entendido.

Coube a Jacob Bjerknes completar o quebra-cabeça. Walker havia descoberto as oscilações de pressão de grande escala. Ele relacionou isso com as oscilações anômalas de temperatura da superfície das águas do Oceano Pacífico equatorial (El Niño) envolvendo flutuações dos ventos alísios e os gradientes de pressão atmosférica de grande escala, identificados como Oscilação Sul por Walker. Ligando o oceano à atmosfera, El Niño e Oscilação Sul, surgia uma célula de circulação de ar na faixa zonal (leste-oeste), que Bjerknes chamou de Célula de Circulação de Walker. Ou seja: convecção (subida) e subsidência (descida) de ar, envolvendo evaporação e condensação de vapor d‘água.

Tudo isso ficaria mais claro, quando, com a disponibilização de imagens de satélites meteorológicos, a partir de abril de 1960, pode se observar as variações na cobertura de nuvens na faixa equatorial em anos de El Niño e em anos normais. Era o que permitia explicar as anomalias de precipitação pluvial observadas nos chamados anos de El Niño, em alguns locais do Pacífico. Fora dado o primeiro passo para as descobertas que se seguiram, revolucionado as previsões climáticas no mundo.

Não imaginem que a ideia de Bjerknes foi bem aceita na época. Houve até quem julgasse que ele estava senil e ao ligar seu nome ao de Gilbert Walker acabaria por arruinar a reputação que gozava, entre outras coisas, por ter colaborado com o seu pai (Vilhem Bjerknes) na formulação da teoria das frentes meteorológicas. O tempo, nesse caso, foi o senhor da razão.

(Baseado em colunas originalmente publicadas em 3 e 10 de fevereiro de 2003)

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino- oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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