Desdobramentos do massacre em escola de São Paulo

Ex-alunos mataram oito pessoas e cometaram suicídio. Crime aconteceu em Suzano, interior paulista

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Um ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil, no município paulista de Suzano, deixou dez pessoas mortas na manhã de ontem (13). Os autores do crime foram identificados como Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, ambos ex-alunos da instituição. Eles entraram na escola encapuzados, mascarados e armados com um revólver calibre 38, um arco-e-flecha, uma besta, garrafas de coquetel molotov e uma espécie de machado. Os jovens carregavam também uma mochila com fios, mas a polícia ainda não confirmou se eram materiais explosivos.

 

Entre os mortos estão os próprios atiradores, duas funcionárias do colégio, cinco estudantes do ensino médio e o dono de uma locadora de veículos, onde os jovens roubaram um automóvel para utilizar no crime. Outras cerca de quinze pessoas precisaram ser atendidas em hospitais da região em decorrência de ferimentos ou de mal-estar após o ataque. Em entrevista coletiva, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, João Camilo Pires de Campo, e o comandante da Polícia Militar, coronel Marcelo Salles, disseram que a motivação do massacre ainda está sendo investigada pela Polícia Civil. Adianta-se que se trata de um crime premeditado.

 

Inicialmente, a suspeita era de que os dois atiradores haviam se suicidado ao perceber a chegada de policiais à escola. Agora, no entanto, com o avanço das investigações, a polícia aponta a possibilidade de que Guilherme tenha primeiro matado Henrique e só então, em seguida, se suicidado. Eles teriam um pacto que determinava o suicídio de ambos após a consumação do crime.
Dinâmica do massacre

 

Até o momento, as informações levantadas pelas equipes de investigação dão conta de que, antes de chegar à escola, os assassinos estiveram em uma locadora de veículos, onde roubaram um automóvel e atiraram contra o proprietário do estabelecimento. A primeira vítima, Jorge Antonio Morais, era tio do atirador Guilherme Taucci Monteiro. Ele foi levado ao Hospital das Clínicas de Suzano e submetido à cirurgia, mas não resistiu.

 

Por volta das 9h30min, Guilherme e Luiz Henrique chegaram ao colégio Raul Brasil. Imagens de câmeras de segurança mostram os jovens em frente à escola, descendo do automóvel roubado, um Onix branco. Mesmo carregando todas as armas e munições, eles entraram com facilidade, já que os portões estavam abertos. Logo na entrada, a dupla disparou contra a coordenadora pedagógica da escola, Marilena Vieira Umezo, e a funcionária, Eliana Regina de Oliveira Xavier. Elas foram as primeiras a vítimas a morrer no local.

 

Em seguida, os atiradores se dirigiram ao interior da escola que, no turno da manhã, recebe somente alunos do ensino médio. Os estudantes estavam em um momento de intervalo entre as aulas quando foram surpreendidos pelo ataque dos criminosos. Cinco estudantes foram atingidos por tiros no pátio da escola e não resistiram. São eles: Pablo Henrique Rodrigues, Cleiton Antônio Ribeiro, Caio Oliveira, Samuel Melquíades Silva de Oliveira e João Vitor Ramos Lemos. Eles tinham idades entre 15 e 17 anos. Há ainda pessoas que foram feridas com a faca e a besta que os jovens portavam. Até o fechamento desta edição, o estado de saúde dos feridos não havia sido informado.

 

No mesmo local que a Escola Estadual Professor Raul Brasil, funciona também um Centro de Línguas. De acordo com o comandante da Polícia Militar de São Paulo, coronel Marcello Sales, após cometer os assassinatos e as tentativas de assassinato no pátio da escola, Guilherme e Luiz Henrique se dirigiram ao centro na intenção de atingir mais alunos, mas não conseguiram entrar no espaço porque estudantes e professoras bloquearam a entrada. Logo após, possivelmente ao perceberem a chegada de policiais, os homicidas teriam cometido suicídio em um dos corredores da instituição. Estuda-se ainda a suspeita de que Guilherme tenha matado o companheiro de crime e só depois se suicidado, para que o pacto entre eles de não serem pegos vivos fosse cumprido. Ao todo, o ataque durou cerca de dez minutos, sendo interrompido com a chegada da Polícia Militar.

 

Após o massacre, o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) verificou o local diante da suspeita da presença de artefatos explosivos. Além da mochila com fios, os atiradores deixaram para trás garrafas de coquetel molotov. Nenhuma delas chegou a ser utilizada.

 

Sobreviventes se esconderam na despensa da escola
A estudante Quelly Mileny, 16 anos, sobreviveu aos atiradores da Escola Estadual Prof. Raul Brasil escondendo-se com outros colegas na despensa do colégio. “A gente estava indo merendar no refeitório, quando ouviu os tiros. No segundo tiro, a gente saiu correndo, e o lugar mais perto era a cozinha. Da cozinha, as tias nos colocaram no armazenamento de alimentos”, contou. Quelly Mileny disse que havia pelo menos 30 alunos no local e que ficaram escondidos por cerca de 15 minutos. Segundo a estudante, o grupo ligou para a polícia e para os pais, tentando avisar o que estava acontecendo na escola. “Ficamos ali esperando até que a porta foi aberta. A gente achou que eram os atiradores, mas era a polícia”, relatou.


Perfil dos atiradores
Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro moravam na mesma vizinhança, no município de Suzano, e eram descritos pelos vizinhos como pessoas calmas. De acordo com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, João Camilo Pires de Campos, Guilherme estudava na Escola Estadual Professor Raul Brasil até o ano de 2017, mas deixou a instituição depois de apresentar problemas, embora o secretário não tenha deixado claro a qual tipo de problemas se referia. Luiz Henrique também foi aluno do colégio onde o massacre ocorreu. Ainda não há informação se eles já tiveram envolvimento com algum crime antes disso.


Nas redes sociais, momentos antes do atentado, Guilherme, que morava com o avô e duas irmãs, publicou fotos em seu perfil no Facebook exibindo uma arma e vestindo as mesmas roupas que usou no tiroteio – camiseta e calça na cor preta, boné e uma máscara de caveira. O perfil do adolescente de 17 anos foi retirado do ar ainda na quarta-feira. Em postagens antigas, Guilherme demonstrava também paixão por armas e por séries como The Walking Dead, obra na qual um dos protagonistas é conhecido por utilizar uma besta, a mesma arma medieval utilizada por Guilherme durante o crime.


Cultura de violência
Para o psiquiatra passo-fundense Carlos Hecktheuer, o comportamento dos dois jovens pode ter sido motivado pela conjuntura violenta que país tem vivido. “Esses jovens são produtos de uma cultura. Eles não nasceram com defeito, com uma enfermidade, um comportamento agressivo ou um patrimônio violento. Eles são produtos do meio onde foram criados e educados. Parece-me que um dos ex-professores fez um comentário muito interessante sobre a escola sempre ter se destacado pelo bullying e o desrespeito entre os alunos e professores. Esse já um sinal de um núcleo de violência”, comenta.


Ainda segundo ele, com base nas vestimentas dos atiradores e nas armas medievais que os portavam, é também possível que a dupla tenha sido influenciada em algum nível por jogos ou séries televisivas que consumia. “A violência gera impulsos igualmente violentos que algumas pessoas conseguem conter, enquanto outras rompem essa violência e extravasam ela em forma de ação, por imitação a outros países, mídias e responsáveis que a estimulam. Um senador até já declarou que se os professores estivessem armados isso não teria ocorrido. Para mim essa fala é um absurdo, como se a vida tivesse se tornado um campo de batalha. O massacre é uma tragédia que muito comove, mas é uma tragédia anunciada, e nada está sendo feito para reduzir a não ser a ideia de difundir o armamento, como se fôssemos nos defender atacando. Todo mundo é vítima, até esses dois jovens. Temos que lamentar a morte de todos”, opina Hecktheuer.

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