Um incêndio registrado no início da tarde desta quinta-feira (30), destruiu parte de um dos imóveis mais simbólicos da história ferroviária de Passo Fundo. A “casa amarela”, da antiga Viação Férrea, situada na Avenida Sete de Setembro, esquina com a Coronel Chicuta, em frente ao Parque da Gare, foi tomada pelas chamas pouco depois do meio-dia, mobilizando equipes do Corpo de Bombeiros.
O fogo foi controlado pouco depois das 13 horas, após intenso trabalho das guarnições, que atuaram com caminhões e efetivo no combate ao incêndio. Apesar da gravidade da ocorrência e do risco elevado durante a operação, agravado pela queda de partes da estrutura, ninguém ficou ferido.
Segundo informações repassadas pelos bombeiros, a suspeita é que as chamas teriam iniciado em um dos cômodos do imóvel e rapidamente se espalharam para o forro, comprometendo a estrutura e provocando o colapso do telhado. O interior da residência estava tomado por colchões, roupas, lixo e outros materiais altamente inflamáveis, o que contribuiu para a rápida propagação das chamas.
Abandonado há anos, o imóvel vinha sendo utilizado como abrigo por pessoas em situação de rua e usuários de drogas. Durante a manhã, horas antes do incêndio, uma ação da Brigada Militar resultou na retirada de pessoas que estavam no local. Ainda conforme a corporação, duas pessoas chegaram a ser presas por envolvimento em um roubo de celular nas proximidades.
A principal suspeita é de que o incêndio tenha sido criminoso. Como a casa não possuía fornecimento de energia elétrica, a hipótese de curto-circuito foi descartada. A Polícia Civil instaurará investigação para apurar as circunstâncias e eventuais responsabilidades pelo ocorrido.
Parte da história da cidade
Construída entre 1910 e 1920, a casa fazia parte do complexo ferroviário implantado no município no final do século XIX. O local servia como residência do engenheiro-chefe responsável pela ferrovia, em um período em que a malha ferroviária impulsionava o crescimento econômico e urbano de Passo Fundo.
A implantação da ferrovia foi determinante para a expansão da cidade, atraindo investimentos e estimulando a construção de silos, hotéis e estabelecimentos comerciais voltados ao atendimento das demandas logísticas e de transporte da época. Apesar de sua relevância histórica, a casa da antiga Viação Férrea encontrava-se em avançado estado de deterioração. Com o passar dos anos, o imóvel foi sendo abandonado, tornando-se vulnerável à ocupação irregular e à ação do tempo, até chegar à condição crítica evidenciada antes do incêndio.
Diferentemente de outros espaços da antiga estação, que foram repassados ao município e revitalizados, o imóvel permanece sob responsabilidade da União Federal.
Nota
Em nota oficial, a Prefeitura de Passo Fundo destacou que o prédio pertence à União e que, portanto, a responsabilidade pela conservação é do Governo Federal. O Executivo municipal informou ainda que, há vários anos, mantém tratativas para receber a área em doação, com o objetivo de viabilizar a recuperação, manutenção e destinação adequada do espaço.
Segundo a Administração Municipal, o diálogo com os órgãos federais segue em andamento, mas ainda não houve avanço concreto que permitisse ao município assumir a gestão do imóvel. A prefeitura também ressaltou que continuará acompanhando a situação, buscando uma solução que atenda ao interesse público e garanta segurança à comunidade.
Alertas ignorados
A destruição do imóvel reacende críticas quanto à falta de ações efetivas para a preservação do patrimônio histórico local. O abandono da casa da antiga Viação Férrea vinha sendo denunciado de forma recorrente pelo jornal O Nacional.
Na edição impressa de quarta-feira (30), o colunista Luiz Carlos Schneider voltou a alertar para o risco iminente envolvendo o imóvel. Em sua coluna “Teclando”, ele foi direto ao apontar a gravidade da situação: “Do jeito que está, logo desaba ou incendeia”.
O tema já havia sido abordado pelo colunista em outras oportunidades, como nas publicações de 17 de dezembro de 2025 e 1º de abril deste ano, reforçando a preocupação com a deterioração de estruturas históricas do município. No mesmo texto, Schneider também chamou atenção para outros símbolos locais em situação semelhante, como a chaminé da antiga Brahma.



