Paciente da região percorre mais de 500km em busca de leito

Idosa morreu, na terça-feira (2) em Serafina Corrêa, enquanto aguardava por uma vaga na UTI

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Com recursos financeiros enviados aos hospitais de referência, cidades do interior observam explosão de casos e internações. Foto: Lauriane Agnolin/ON Com recursos financeiros enviados aos hospitais de referência, cidades do interior observam explosão de casos e internações. Foto: Lauriane Agnolin/ON 
Com recursos financeiros enviados aos hospitais de referência, cidades do interior observam explosão de casos e internações. Foto: Lauriane Agnolin/ON 
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Durante as 16 horas que antecederam a morte, uma intubação de emergência ainda no leito e um alerta vermelho disparado no sistema de gestão hospitalar cronometraram a aflição no isolamento covid do Hospital Nossa Senhora do Rosário (HNSR), em Serafina Corrêa. Apesar do esforço, ao invés de rumar a uma ambulância que a encaminharia para algum centro de cuidado intensivo, na terça-feira (2), o corpo da paciente de 71 anos foi conduzido ao subsolo para ser lacrado em caixão no necrotério da unidade de saúde. A idosa, com coronavírus, morreu aguardando por uma vaga na UTI.  

Com a escassez de leitos nos hospitais de Passo Fundo, adotados como referência de média e alta complexidade para esses municípios menores da região, médicos e gestores de saúde tentam encaixar as peças desse quebra-cabeça que se tornou a disponibilidade de camas hospitalares para pacientes graves contaminados pela covid-19. “Em uma situação dessas, a tranquilidade vem quando você sabe que pode encaminhar para um atendimento mais sofisticado. Temos moradores internados em Erechim, Porto Alegre, Passo Fundo e Bento Gonçalves”, afirmou a secretária municipal de Saúde de Serafina Corrêa, Salete Cadore, ressentida pela última perda registrada no município.

Coronavírus avança e golpeia com força as cidades menores. Preocupação é com a falta de leitos, profissionais de saúde e insumos hospitalares. Foto: Lauriane Agnolin/ON


Há duas semanas, uma outra paciente da mesma cidade percorreu 526 quilômetros em uma unidade móvel até Rio Grande, no sul do Estado, para ser assistida em um centro de terapia intensiva. Ainda assim, a letalidade do vírus para os internados sob ventilação mecânica fez dela uma nova vítima da pandemia, na última sexta-feira (26). “O nosso hospital não tem suporte para manter uma paciente intubada. A UTI é cara porque precisa de muito recurso, não é só o respirador”, mencionou o médico do HNSR, Italo Ribeiro. A velocidade de propagação viral e a escalada de contágios, no município, que já atinge 9% da população local e ocupa 87,5% das camas no único hospital responsável por atender mais de 17 mil habitantes inquieta os profissionais da saúde, sobretudo, pela rapidez na piora do quadro clínico destes pacientes. “Os pacientes estão agravando um quadro de forma tardia, em um período que já seria de remissão no 9°, 14° dia. Coisas que antes não víamos tanto”, pontua Ribeiro. “Quase todos em tratamento domiciliar já tem um comprometimento pulmonar, coisa que antes também não acontecia”, disse. "Está absurdo", desabafou Italo.

Italo Ribeiro é médico do HNSR, em Serafina Corrêa. Apenas nos 4 primeiros dias de março, o município contabilizou quase 200 moradores sintomáticos. Foto: Lauriane Agnolin/ON


O número cada vez maior de pessoas que dão entrada já contaminadas pelo SARS-CoV-2 em estágio avançado, para o médico, pode ser explicado pela incidência de casos e pela circulação das novas variantes do vírus. “A cepa P.1 [amazônica], que foi identificada em Porto Alegre, já está em fase de transmissão comunitária”, lembrou Italo. “Uma novidade para nós, agora, é que de 10 pacientes, 9 internam com casos de contaminação na família”, alertou. “O problema não é só a incidência de casos, mas a demanda de internação desse paciente. Não tem paciente que interna por um ou dois dias. O paciente moderado fica 6, 7; o grave, fica 30, 40, 60 dias e, muitas vezes, no sexagésimo dia vai a óbito. É um paciente que demanda muito tempo e isso onera o sistema”, explicou o médico do HNSR.  


"De 10 pacientes, 9 internam com casos de contaminação na família".

Italo Ribeiro, médico do HNSR


Busca por leitos 

Na manhã seguinte ao óbito da oitava serafinense, o luto se abateu sobre a comunidade. Silenciosa e quase esvaziada, em parte pelo temor da contaminação e pelos decretos estaduais que determinaram o fechamento do comércio, os poucos ruídos que ainda se ouviam vinham de um carro de som que, dizem os moradores sentados na praça central, circula pelos bairros pedindo a colaboração popular. “Os leitos de UTI estão esgotados na região”, enfatizava um dos trechos da advertência sonora, quase em tom de súplica, na quarta-feira (3). “Da terceira para a quarta semana de fevereiro, saltamos de 150 para 323 sintomáticos por causa da circulação. As pessoas parecem não admitir a existência do vírus. Isso é muito grave”, observa a secretária de Saúde da localidade. A testagem, alega Salete, foi reforçada para evitar surtos no município que conta com uma unidade industrial frigorífica da BRF.  

Ao contrário do que se constatava nas primeiras ondas da pandemia, pacientes com coronavírus representam, agora, a maior taxa de ocupação das UTIs na macrorregião. Fonte: Mapa de Leitos/SES RS


Embora Serafina Corrêa seja uma das cidades de menor porte populacional, na região de Passo Fundo, mais castigada pela crise sanitária e que, como pontuou o diretor administrativo do Hospital Nossa Senhora do Rosário, André Bianchet, obrigou a abertura de seis novos leitos e a disponibilização da metade da estrutura hospitalar para atendimento dos pacientes sintomáticos, pelo menos três outros municípios do entorno entraram em alerta para o esgotamento da capacidade para gerir os seus doentes por coronavírus.  

A superlotação no Hospital de Caridade de Carazinho (HCC), que já despertava preocupação na direção clínica há duas semanas, atingiu 118,5% de ocupação nos leitos clínicos e 106,2% na UTI adulto. “O sistema de saúde encontra-se em calamidade”, sentenciou a nota emitida pela prefeitura há dois dias. “A equipe está ficando cansada devido à grande demanda de atendimentos”, corroborou o diretor do hospital de Serafina Corrêa.  

Também crítica e dependente do sistema de saúde passo-fundense para os casos agravados, a municipalidade de Lagoa Vermelha atingiu, na quinta-feira (4), 220% no índice de ocupação hospitalar, segundo mostra o Mapa de Leitos da Secretaria Estadual de Saúde. Atendendo a 22 enfermos pela covid-19, o hospital afirma que havia capacidade para apenas 10 internações. Os quatro hospitais de Erechim compartilham o mesmo cenário: 45 de 44 leitos ocupados na UTI e 45, de 41 camas disponíveis, recebendo pacientes positivos para a doença. “Soledade deve receber mais 4 respiradores. Todo município menor tem um hospital de referência e o paciente é encaminhado conforme a disponibilidade de leitos. O problema é a aceleração dos contágios e a evolução nas hospitalizações”, considerou o delegado da 6ª Coordenadoria Regional de Saúde de Passo Fundo (6ªCRS), Marcelo Pacheco.  

Hospitais de Passo Fundo são referência para 158 municípios do Norte do Rio Grande do Sul. Foto: Divulgação/SES RS

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