Natália Fávero/ON
Entre os 640 detentos do Presídio Regional de Passo Fundo estão dezenas de mulheres. Mães, avós, domésticas, empresárias, vendedoras, donas-de-casa, acadêmicas, analfabetas, usuárias de drogas e até religiosas. Mulheres que cometeram erros e agora pagam com a própria liberdade. Há dois anos, o cárcere feminino não abrangia 30 apenadas. Número que aumentou 100%. Esse cenário aponta o crescimento da criminalidade no público feminino. Através de uma pesquisa realizada a pedido do Departamento de Tratamento Penal (DTP), foi possível conhecer o perfil dessas mulheres que vivem atrás das grades. O envolvimento com o tráfico de drogas confirmou-se como a principal causa das prisões. Mas, o que mais chamou a atenção, é que a maioria delas entrou nesse mundo por influência dos seus companheiros.
O questionário foi respondido pelas apenadas dos regimes fechado e semiaberto em abril de 2011. A pesquisa foi aplicada pelas assistentes sociais e psicóloga do presídio. A partir do perfil de cada uma das detentas será possível trabalhar as habilidades, fragilidades e necessidades individuais.
Foram coletadas informações sobre a escolaridade, uso de drogas, razões para estarem na prisão, vínculo empregatício, idade, se têm filhos, estado civil, entre outras questões. Entre os dados que mais chamaram a atenção está o motivo pelo qual elas estão na prisão. Foi confirmado que 78% das apenadas estão no presídio por tráfico de drogas. A assistente social, Anabel Bonfim, disse que entre as razões estão o envolvimento com companheiros que trabalham nesse comércio ilegal, a baixa escolaridade e a falta de um emprego formal. “Na grande maioria elas se envolvem com o tráfico pelo parceiro. Muitos companheiros também estão presos aqui. Há dois anos, não tinha nem 30 detentas e agora esse número dobrou”, diz Anabel.
A outra assistente social, Irene Lemos, lembra que muitas apenadas trabalhavam antes do tráfico, mas ao se envolverem com os parceiros que já atuam no ramo das drogas acabaram anulando os seus sonhos. “Uma das coisas que elas mais dizem é que quando saírem daqui querem retomar os objetivos deixados de lado”, salienta Irene.
A psicóloga, Miriane Schmitz, também destaca o número de detentas que já utilizaram drogas. Cerca de 40% delas usaram crack, cocaína ou maconha. Sendo que 26% sofrem abstinência. “As drogas é uma das grandes razões de muitas estarem aqui. É uma população jovem, às vezes não tem trabalho e acabam sendo chamadas para atuar no tráfico. Acreditamos que os dados ainda não refletem a real situação, porque muitas omitem”, destaca a psicóloga.
Os dados não foram surpresa para o grupo que aplicou o questionário. “O resultado só confirmou a realidade, mas existe uma possibilidade de mudança. Vamos dar um retorno a elas. Não adianta ter dados e engavetá-los”, diz a assistente social, Irene.
A vida no presídio
O sol é visto durante 120 minutos por dia e as visitas acontecem duas vezes por semana. A paisagem mais vista na cadeia são as paredes. O conforto do lar é trocado por um espaço com poucos metros quadrados. As únicas comodidades são um sanitário, um chuveiro e uma pia. As seis camas se transformam em 20 leitos à noite. A atividade exercida pelas apenadas é a do pensamento. Essa é a única liberdade que resta na cadeia. “Dá pra pensar um monte aqui dentro. O que mais penso é ir embora daqui. Sou dona de loja, tenho uma filha lá fora. Ela vem uma vez por semana. A saudade é demais. Se eu pudesse fazer diferente eu faria, mudaria tudo”, diz uma apenada de 36 anos, presa por tráfico.
Uma jovem de 20 anos conta que cursava Pedagogia quando foi presa há dois meses. “Fazia cinco meses que estava com o meu namorado e já fui parar na cadeia. Sempre estudei e trabalho desde os 14 anos. E agora com apenas 20 estou presa por tráfico. Parece que ainda não caiu a ficha, sabe?”, emociona-se a apenada.
As presas dizem que o espaço nas celas é pequeno para alojar tantas pessoas. Uma delas contou que 28 mulheres dormem em um mesmo alojamento. Desejos simples como sentar na praça ou caminhar na rua são anseios comuns. Carências que são divididas e consoladas entre as próprias apenadas.
Outra mulher de 30 anos, disse que não conseguiu explicar para o filho o que está fazendo no presídio. “O meu filho de quatro anos me perguntou o porquê que eu estava aqui. Daí eu disse que estava no colégio. É difícil explicar”, declara a mulher.
Aprendendo uma profissão
Há 40 dias, um projeto está ensinando um grupo de 15 detentos a confeccionar flanelas. Cinco mulheres estão inseridas nesta atividade. Uma máquina de costura foi doada e uma das apenadas que já realizava essa profissão fora do presídio ensinou as demais. As malhas são doações de empresas. O trabalho é realizado nos três turnos e as flanelas são vendidas para postos de combustível e oficinas. O quilo custa R$ 3,00 e o lucro retorna para os apenados.
O diretor do presídio, Carlos Jovêncio Dornelles de Oliveira, explica que a cada três dias trabalhados, os presos reduzem um dia de pena. O critério para participar do projeto é o bom comportamento. “Eles tem interesse em trabalhar. O que está faltando é oportunidade. Não adianta só criar vagas nos presídios é preciso trabalhar o preso para que ele não cometa novos delitos”, diz Oliveira.
As apenadas revelam que há muito preconceito. “Todo mundo lá fora faz uma imagem do presídio. As pessoas imaginam que aqui só têm pessoas perigosas e não é bem assim. Aqui a gente come, a gente dorme e não apanhamos como pensam”, afirma a apenada. Outra presa diz que é muito gratificante trabalhar e aprender uma nova profissão. Ela ressalta que quando sair da prisão que retornar ao mercado de trabalho.
“São poucas as pessoas que estendem a mão. Ninguém quer contratar uma ex-presidiária numa casa de família. O preconceito é muito grande. As pessoas acham que a gente não pode mudar, mas a gente pode sim. Isso não é vida pra ninguém. Eu preciso provar pra meus filhos que eu posso mudar”, revela uma das apenada.
Presídio não é adequado para receber mulheres
O diretor do presídio explica que a casa prisional de Passo Fundo não é preparada para receber apenadas, mas no momento não há penitenciária feminina na região. “Os alojamentos estão lotados, mas pelo menos estão perto da família e não precisam ser encaminhadas para longe”, explica Oliveira.
Toda a movimentação com as detentas é feita por agentes penitenciárias femininas. Um médico da pastoral carcerária faz um trabalho voluntário uma vez por semana e quando é necessário as apenadas são encaminhadas para atendimento na rede pública.
Confira o resultado da pesquisa:
- Enquadramento: 78% estão presas por tráfico (52 apenadas);
- Carteira assinada: 78% não têm carteira assinada, 20% têm e 2% nunca trabalharam.
- Residência: 79% das apenadas residem em Passo Fundo (52 presas).
- Uso de drogas: 36% são fumantes, 26% são usuárias de bebidas alcoólicas, 15% usaram crack, 12% utilizaram cocaína e 11% maconha. Dessas 26% estão em estado de abstinência.
- Escolaridade: 60% têm o ensino fundamental incompleto, 5% têm o ensino fundamental completo, 15% têm ensino médio completo, 8% possuem ensino médio incompleto, 3% têm o superior incompleto e 6% são analfabetas.
- Filhos: 89% das apenadas têm filhos.
- Ciclo vital: 60% são jovens adultas.
- Regime: 77% estão em regime fechado (50 apenadas) e 23% no semiaberto (15 apenadas).

