Conhecida como Capital Nacional da Literatura, Passo Fundo conta, a partir de agora, com um novo espaço de incentivo à leitura. Por iniciativa de um professor, com o apoio de alunos de uma escola privada, nasce a Biblioteca e Brinquedoteca Popular Irmã Inês Sartori, de acesso gratuito e localizada na Vila Cruzeiro.
A biblioteca começa a funcionar com um acervo de 650 livros e 235 brinquedos. Todo o material foi arrecadado por meio de uma ação organizada pelo professor Tatiel Zart, que sensibilizou alunos do 2º ano do Ensino Médio do Colégio Salvatoriano Bom Conselho.
“Os estudantes foram provocados sobre a importância da leitura e mapearam as bibliotecas e os acervos do município, chegando à conclusão de que as pessoas mais pobres não possuem acesso a esses espaços”, conta o professor.
Para arrecadar doações e montar o acervo, os alunos organizaram peças teatrais baseadas em clássicos da literatura, com apresentações no Colégio Salvatoriano Bom Conselho. A iniciativa mobilizou todos os estudantes da instituição, da Educação Infantil ao Ensino Médio. O ingresso para assistir às peças era a doação de livros e/ou brinquedos.
Assim, foi formado um acervo de 650 obras literárias infantis, infantojuvenis e adultas, além de 235 brinquedos e ursinhos, que serão organizados na brinquedoteca. A estante para os livros também foi construída pelos próprios alunos.
Segundo a aluna Luana Correa, de 16 anos, “a escola nos passa como valor que fazer o bem ao próximo nunca é demais. Também buscamos honrar o nome da Irmã Inês Sartori e continuar com o legado dela”.
Entre o início da campanha de arrecadação, a montagem das peças teatrais, a construção da estante e a entrega da biblioteca, Luana estima que foi necessário um mês de dedicação dos colegas.
Próxima de quem precisa
A localização da biblioteca é estratégica. O espaço está instalado em um anexo ao pavilhão do projeto Mãos Amigas, na Rua Aquidaban, 625, na Vila Cruzeiro, uma das regiões mais carentes de Passo Fundo. A iniciativa busca beneficiar diretamente o projeto Mãos Unidas, que atende atualmente 120 pessoas, muitas delas em situação de vulnerabilidade.
Com o objetivo de ampliar o incentivo à leitura e contribuir para a emancipação dos trabalhadores, os recicladores e as crianças que lerem obras ou capítulos e escreverem resumos receberão premiações, incluindo cortes de cabelo e outros brindes.
“Haverá um estímulo por meio de metas: quem fizer leituras ou resumos ganhará cortes de cabelo e outros serviços, oferecidos por voluntários”, informa o organizador.
Além disso, os recicladores são incentivados a encaminhar à biblioteca os livros encontrados nas ruas de Passo Fundo, contribuindo para ampliar ainda mais o acervo.
De acordo com a coordenadora do projeto Mãos Unidas, Estela Weschonfelder, “a importância é que os colaboradores recebem esse incentivo à leitura, e esperamos uma participação muito grande das 40 famílias que fazem parte do nosso projeto”.
O espaço também está aberto à comunidade e é mantido por meio de doações. O atendimento ocorrerá nos turnos da manhã e da tarde.
Uma das primeiras recicladoras a escolher um livro na nova biblioteca foi Terezinha Maciel, de 69 anos, que optou pela obra Branca de Neve e o Caçador. Ela conta que não tem o hábito da leitura, mas demonstra disposição para mudar essa realidade: “Vou vir aqui, pegar um livro e ler sempre antes de dormir”.
Homenagem
A biblioteca foi inaugurada na terça-feira (20) e recebeu o nome de Biblioteca Popular Irmã Inês Sartori, em homenagem à religiosa salvatoriana que dedicou sua vida às causas sociais, ao amparo comunitário e ao apoio educacional na região. A irmã, que faleceu em agosto, aos 78 anos, coordenava o projeto Mãos Amigas.
“Passo Fundo se orgulha de ser a Capital da Literatura, mas a pergunta incômoda é: literatura para quem? A literatura é ferramenta de emancipação, e a juventude provou que tem força para fazer isso acontecer hoje”, conclui o professor Tatiel.


