OPINIÃO

Melhores de 2018: Lágrimas sobre o Mississipi

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Começando hoje, até as férias, uma série de textos relembrando – e indicando – os melhores filmes do ano que está acabando. A coluna começa falando sobre racismo, encerra indicando uma obra que deveria ter sido lembrada no Oscar de forma mais acintosa: MUDBOUND – LÁGRIMAS SOBRE O MISSISSIPI.

O filme, dirigido por Dee Rees,  se baseia em uma obra literária, mas por melhor que seja o argumento, tem sua força baseada no que a adaptação faz de cinemático. Conta a história da convivência conflituosa entre os McCallan, uma familia de brancos que se muda para o Mississipi e enfrenta dificuldades maiores do que esperava na fazenda, e os Jackson, que têm terras arrendadas no local e trabalham para os McCallan. O roteiro usa uma dupla narração em off de um texto poderoso. O comentário da voz narradora complementa o visual e, ainda que peque pelo academicismo no seu final, ajuda a montagem a criar o contraponto entre o que acontece, o que se diz e o que se vê. É um trabalho primoroso de montagem que constrói sentidos, alternando ações que se complementam e se comentam, ou na forma como cenas montadas uma após as outras nos fazem pensar no discurso proposto por Rees. Em "Mudbound", gestos e olhares denunciam mais do que palavras, e o visual está a serviço do que se conta.

Temos o senhor da terra, que fala da "terra que eu construí com meus escravos, que eu cultivei", emoldurada pela imagem dos negros trabalhando e dos brancos observando.O filho dos Jackson que salta do tanque na Bélgica e o pai, que cai do telhado no Mississipi e fica impossibilitado de trabalhar, um prenúncio da queda familiar que se aproxima. O menino, pensando no irmão que combate na Europa, aponta a vassoura para o branco que passa em frente à fazenda e atira. O irmão, na Europa, ouve os gritos comemorando a morte de Hitler do lado de fora, e o lamento da mulher branca que o abraça. "É o fim, não é?" O fim da guerra representa também voltar para a América, onde uma guerra pior espera pelo soldado negro.

São praticamente quatro arcos dramáticos que só existem conectados, mas cujo toque é venenoso como o racismo. E são muitos personagens fabulosos na sua complexidade: o mais complexo deles, provavelmente, o filho mais velho da família branca, que ressalta a opressão racista como algo natural não por ser mau, mas por realmente acreditar nas diferenças. Rees mostra, na figura detestável do patriarca dessa mesma família, que mais do que a genética, é o comportamento no meio que molda o caráter dos filhos e perpetua as manifestações de preconceito. Trabalho maravilhoso da diretora Dee Rees e da diretora de fotografia Rachel Morrison. Não há cores na fotografia pálida do filme - elas não têm espaço num mundo onde a dicotomia entre preto e branco é tão desigual. 

Dois lados, duas famílias, duas ondas que se movem para um embate inevitável - o choque é constante, então não há a busca por um clímax no filme, há um constante ranger entre tensões até que quando ele explode, se assemelha às explosões da guerra que perturbam dois dos personagens principais. A guerra na Europa marca os dois, mas nenhuma guerra é maior que aquela travada no racista Mississipi, que os assombra dia após dia. Em "Mudbound", gestos e olhares denunciam mais do que palavras, e o visual está a serviço do que se conta.

PS: Na espera pela estreia de INFILTRADO NA KLAN em Passo Fundo. No Brasil, estréia semana que vem. É um dos melhores filmes do ano. Torçamos. 

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