Comunidade se une para ajudar vítimas de incêndio

Famílias já conseguiram roupas o suficiente, mas ainda precisam de auxílio para reconstruir as casas

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Materiais de construção começaram a chegar ontem para reerguer casas destruídasMateriais de construção começaram a chegar ontem para reerguer casas destruídas
Materiais de construção começaram a chegar ontem para reerguer casas destruídas
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Mal havia espaço para caminhar frente ao número 151 da rua Lobo da Costa, na tarde de ontem (26). Mais de 24 horas do incêndio que destruiu quatro casas no domingo (25) haviam se passado e o movimento na Vila Isabel era grande. A casa 151, de paredes de madeira pintadas em azul com pedaços assentados em tijolos, foi transformada no QG da reconstrução e a rua impedia, por minutos, que carros a cruzassem pelas filas de pessoas que traziam colchões-roupas-alimentos-materiais-de-construção. “Hoje consegui sorrir de novo”, se ouviu ao longe o reciclador Paulo Juliano da Luz, de 41 anos, falar de cima de um caminhão de onde retirava tábuas que chegavam para erguer sua nova casa. Era a segunda carga que chegava só naquela tarde. Ao lado, desconhecidos deixavam seus carros agarrados a pacotes de alimentos e caixas de leite para entregar às famílias.


Um dia antes, chamas que começaram na casa de Paulo alastraram-se rapidamente para as outras três residências, coladas à sua. O reciclador só levou os documentos. As outras famílias, nada.


Sua esposa, Márcia Bonete de Oliveira, de 38 anos, auxiliar de limpeza e única com carteira assinada na família, lavava roupas pela manhã junto do marido na casa da cunhada. Com os baldes cheios, percorreu um vão no chão batido e chegou à frente das residências para estendê-las. Trabalho quase feito, ouviu sua filha gritar: “Tem fogo no quarto do mano!”. Paulo correu. Uma das filhas, de 13 anos, pulara por uma janela. Quem avisou foi a pequena, que antes estava no meio da sala. Mas àquela altura já era tarde, o fogo já estava alto e chegava na casa de Jéssica Maria de Carvalho Rosbach, de 17 anos, espalhando-se cada vez mais.

A fumaça que entrava pela janela atingia o pequeno Victor Rosbach. Os olhos do menino que completou seis meses ontem ainda não mensuravam o tamanho do caos. Foi o pai da criança quem notou as chamas. Avisou à companheira, e ela, agarrando o menino, deixou a casa. Do lado de fora, Márcia preocupava-se em juntar os seus. Estavam todos ali. Temeu, mas só podia esperar que os bombeiros apagassem as chamas.

“Eu podia morrer”

A Vila nunca tinha presenciado algo assim. Uns diziam ser como cena de filme. Sérgio Morais, de 43 anos, ainda tinha marcas na orelha esquerda dos estilhaços do vidro que o atingiram enquanto tentava por conta própria apagar as chamas. É ele, a esposa e dois filhos que moram na casa 151, a casa da resistência. O fogo chegou a ela também. As labaredas começaram a queimar janelas e encher de fumaça a casa dos recicladores, que trabalhavam quando o incêndio começou na casa de Márcia, que fica aos fundos da sua. Sérgio conta que veio correndo. Até tentaram o impedir de entrar. Mas com uma mão na boca adentrou a pobre residência, quebrou dois canos de água, deixou que jorrassem até encher os baldes, e partiu contra as chamas.

“Eu não pensei em mim. Eu podia morrer. Mas decidi salvar o que é dos meus filhos. Foi o que botei na minha cabeça”, contou Sérgio na segunda-feira, mostrando cada ponto da casa e recriando os movimentos que fizera para não deixar o fogo destruir a casa.

Foi quando arremessava a água de um dos baldes em direção à janela que os vidros estouraram e cortaram sua orelha. Ainda que machucado, ele disse que subiu em uma mesa e chutou plásticos que eram como paredes na casa. O material caiu aos fundos, minimizando o estrago da residência 151.

Sobrevivendo com uma renda de R$ 400 para sustentar a esposa e o filho, Sérgio não soube responder como reconstruiria tudo.


Com a sorte, ainda que miúda diante do caos de não ter a casa toda destruída, abriu as portas para os vizinhos dormirem.Outros acomodaram-se em uma igreja. Márcia e o marido Paulo foram para uma casa desocupada, na mesma Vila. Foi um sono pesado, contou Paulo. “Eu dormi às 2h e acordei 5h. Sabe quando parece que você está dormindo, mas também não está? Só passavam chamas na minha mente”, desabafou. No meio dos escombros ele disse não reconhecer nada do que um dia fora seu. Apontou para o lado, onde estava a cerca que terminara no sábado. Mostrou onde ficavam as divisórias dos quartos e onde possivelmente começou o fogo. Sabendo que agora pisava apenas em entulhos. 

O riso veio depois. As famílias ainda precisam de alimentos, de materiais de construção e brinquedos. Mas há solidariedade: Em 24 horas já juntaram roupas o suficiente, que agora ficam em frente à casa 151 para seres distribuídas a quem também tem pouco. Por isso é que Paulo dizia, de cima do caminhão, que conseguiu, enfim, sorrir de novo.


Doações ainda podem ser entregues diretamente às famílias, que esperam.

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