OPINIÃO

Mariana Bola de Neve se sente diferente

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Quando o autismo caiu-lhe, literalmente, no colo; ao ter uma filha diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o escritor Marco Aurélio Barbiero não se resignou a aceitar o fato como mero desígnio divino e nem adotou a postura negacionista de muitos pais, que, embora merecedora do nosso respeito, relutam a aceitar a verdade. Teve o que podemos chamar de atitude proativa. Apoiado pela família, estudou o assunto com afinco e com a sua prosa refinada produziu obras seminais, genuinamente passo-fundenses, sobre a temática autista. A primeira foi “Mariana no mundo dos saltisonhos”, que lançou luzes sobre TEA na literatura local, e, em 2019, o livro infantil “Mariana Bola de Neve se sente diferente”. Dois livros que são complementares. O primeiro possibilitou que leigos tivessem um melhor entendimento do Transtorno do Espectro Autista e o segundo, voltado ao público infantil, visou a estimular o autoconhecimento da criança autista e a geração de empatia de quem convive com ela; especialmente a aceitação das diferenças no ambiente escolar.
Barbiero é um escritor de talento imensurável. Inspirado na experiência vivenciada com o tema do autismo soube criar personagens e cenas fictícias (ou nem tanto) que expressam mais a realidade do que a própria realidade. O seu texto não soa piegas e nem desperta compaixão. Ao contrário, aporta conhecimento e amplia a nossa visão humanista de mundo. A criatividade do escritor não tem limites. A construção das cenas do dia a dia da família Bola de Neve e a criação dos personagens Mariana, Larissa, Tonico, doutor Perfumado, doutor Óculos Grandes, etc. são primorosas. Culminando com a escolha do sobrenome Bola de Neve, para a personagem Mariana, que diz tudo, uma vez que bola de neve representa uma característica da maioria dos TEAs.
No mundo de Marianas e seus diferentes graus de TEA, apesar das palavras atenuadas do texto de Barbiero, nem tudo são flores. A convivência com uma criança autista não é fácil. Afinal, é preciso entender uma criança que não gosta de experimentar coisas novas, que tem medos que para a maioria podem parecer infundados, que não suporta barulhos e nem odores fortes, que se apavora com animais, que se preocupa com detalhes, que tem dificuldade de integração e pode ser indiferente ou não apreciar demonstrações de afetos e que, não raro, pode ter “chiliques” que, para os desavisados, aparentam apenas birra. Felizmente, realça Barbiero, o avanço da Medicina e do conhecimento geral sobre TEA, com intervenções precoces e o uso de terapia intensiva e atenção multidisciplinar, estão a demonstrar que bons resultados são alcançáveis.
Enfim, eis um livro local (quem disse que não temos escritores locasi?), produzido pelo selo Saluz da Editora do IFIBE, raro e importante. Edição bem cuidada sob a coordenação de Rodrigo Roman, diagramação de Diego Ecker e ilustração de Dirceu Veiga. É o primeiro da linha infantil da série Autismo, indicando que outros estão sendo gestados. Aguardamos!
Ouso sugerir, sem qualquer pretensão a autoridade, que o livro “Mariana Bola de Neve se sente diferente”, de Marco Aurélio Barbiero, deveria ter seu uso priorizado nas escolas, começando por Passo Fundo e atingindo outras esferas. Fica a dica ao senhor secretário de educação de Passo Fundo, professor Edemilson Brandão, e as coordenadorias pedagógicas das escolas locais. O livro trabalha, essencialmente, de como podemos lidar melhor com as diferenças. E se quisermos construir uma sociedade que seja “indiferente às diferenças”, sejam elas de credo político ou religioso, raciais ou de orientação sexual, apenas como exemplos, devemos começar pela Educação. A leitura de “Mariana Bola de Neve se sente diferente” seria útil, inclusive, para muitos adultos que, por ora, destilam seus ódios pelas redes sociais, sem entender que a única indiferença que não se justifica é sermos indiferentes às diferenças sociais que avultam a dignidade da pessoa humana.

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