Um ano de pandemia em Passo Fundo

Primeiro caso de coronavírus no município foi confirmado no dia 25 de março de 2020

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O uso de máscara, hoje indispensável, era raro no começo da pandemia (Foto: Gerson Costa Lopes/ON)O uso de máscara, hoje indispensável, era raro no começo da pandemia (Foto: Gerson Costa Lopes/ON)
O uso de máscara, hoje indispensável, era raro no começo da pandemia (Foto: Gerson Costa Lopes/ON)
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Há um ano, enquanto o mundo ainda buscava compreender as nuances de uma nova doença que estava deixando milhares de mortos em dezenas de países, Passo Fundo registrava o primeiro caso de coronavírus no município. O boletim divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde, na noite do dia 25 de março de 2020, informava que o primeiro morador contaminado pelo vírus era um homem de 29 anos, que havia viajado para Santa Catarina no dia 15 de março daquele ano. À época, era difícil de imaginar que, 365 dias depois, Passo Fundo estaria vivendo o pior momento da pandemia, com hospitais lotados, 380 vidas perdidas e um acumulado de 24 mil casos confirmados. O município é o quarto no ranking gaúcho em número de pessoas que testaram positivo para a doença.

(Linha do Tempo: Bruna Scheifler/ON) | Clique aqui para ampliar a linha

Um levantamento feito pela Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul no fim do ano passado já mostrava que os hospitais gaúchos estavam – e ainda estão – operando no limite de sua capacidade funcional. O aumento no número de casos ativos e de pacientes que demandam internação hospitalar tem levado à falta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva e o esgotamento dos profissionais da área da saúde. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, em Passo Fundo, nesta semana, as instituições hospitalares chegaram a registrar mais de 200 pacientes com Covid-19 internados simultaneamente.

Administrador do Hospital de Clínicas de Passo Fundo (HCPF) e presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul, Luciney Bohrer, descreve o momento como crítico e lembra que, desde o início da pandemia, os números já advertiam que um colapso poderia acontecer. “Hoje, a grande dificuldade dos hospitais é a soma de diversas questões que não foram atenuadas neste último ano, incluindo a busca de recursos humanos, de insumos e materiais, equipamentos e, ainda, questões financeiras. O momento é extremamente desgastante para os hospitais e para os profissionais que trabalham diariamente no atendimento à covid-19 e vivenciam os desafios da doença e a perda que, muitas vezes, ela traz”, observa.

380 mortes em um ano

Após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no município em 25 de março de 2020, não demorou para que a doença, que já se espalhava em velocidade crescente ao redor do mundo, também começasse a escalonar no município. As primeiras mortes aconteceram no dia 9 de abril. As vítimas eram uma mulher de 61 anos e um homem de 89. Um mês depois do primeiro contágio, o boletim epidemiológico da SMS confirmava que mais de 100 moradores passo-fundenses já haviam testado positivo para Covid-19 e sete haviam morrido em decorrência do vírus. 

A triste marca de mil casos positivos aconteceu no dia 10 de junho. Cerca de 40 dias depois, o município amargava a notificação da 100ª morte e 4 mil casos confirmados. Já em dezembro do mesmo ano, o número de vidas ceifadas pelo vírus subiu para 200. Depois deste período, marcado pelas festas de fim de ano e seguido pelas comemorações de carnaval, o município começou a enfrentar um estágio ainda mais crítico da pandemia: no dia 26 de fevereiro, pela primeira vez, a cidade passou de mil casos ativos do vírus. 

Hoje, um ano depois de o vírus ter sido detectado entre os moradores locais, é possível calcular que mais de um passo-fundense perdeu a vida por dia em decorrência da Covid-19. Até a tarde dessa quinta-feira (25), a Prefeitura de Passo Fundo noticiava o acumulado de 380 mortes em 365 dias de pandemia. Os casos confirmados ultrapassam a casa dos 24 mil. 

O administrador do HCPF reforça que, para que os próximos meses possam ser de projeções mais otimistas, ações urgentes ainda precisam ser tomadas visando a assistência aos pacientes e o apoio aos hospitais filantrópicos que desempenham um papel fundamental no enfrentamento da pandemia. “O esgotamento total do sistema de saúde é um risco iminente. Somente com a responsabilidade de todos quanto às suas ações poderemos superar juntos esta pandemia e projetar um cenário diferente para os próximos meses”, ressalta.

Abre e fecha no comércio

Para tentar frear a iminente propagação do vírus – que, em um ano, levaria o município à beira do colapso do sistema de saúde –, a Prefeitura de Passo Fundo determinou as primeiras restrições nas atividades há mais de um ano, no dia 16 de março de 2020, antes mesmo da confirmação do primeiro caso do vírus no município. À época, ficaram suspensas as aulas na rede municipal e a realização de eventos. Em sequência, no 19 de março do mesmo ano, o Município declarou situação de emergência através do decreto 032/2020, determinando o fechamento de quaisquer estabelecimentos comerciais e de serviços considerados não-essenciais para o atendimento de necessidades básicas da população. Com a maior parte dos estabelecimentos fechados, a circulação de pessoas caiu de forma drástica. Para quem ainda se arriscava a sair às ruas, a máscara tornou-se item indispensável.

O fechamento do comércio, no entanto, não se manteve por muito tempo, mas o prejuízos foram se acumulando. Em abril, a prefeitura começou a flexibilizar o funcionamento da indústria, construção civil, salões de beleza, barbearias e comércio. Com a adoção do modelo de distanciamento controlado, em que a região de Passo Fundo chegou a ser classificada em bandeira laranja, seguida da possibilidade de cogestão, pouco a pouco as atividades em restaurantes, bares e shoppings também começaram a ser retomadas.

No entanto, menos de um ano depois de a contaminação por Sars-Cov-2 ter sido declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia mundial, o agravamento do cenário epidemiológico obrigou que, mais uma vez, a maior parte dos estados brasileiros adotasse medidas mais restritivas para tentar reduzir a assustadora média diária de 2,3 mil mortes no país. Em 19 de fevereiro de 2021, o Governo do Rio Grande do Sul classificou Passo Fundo em bandeira preta pela primeira vez para, uma semana depois, avançar ainda mais nas restrições e aplicar a bandeira preta a todo o Estado, suspendendo a cogestão e vedando o atendimento presencial em estabelecimentos não-essenciais. 

A determinação, assim como no ano passado, não perdurou por muito tempo. Devido aos reflexos econômicos causados pelo fechamento, na última segunda-feira (22), a cogestão regional foi retomada em todo o Estado e Passo Fundo passou a aplicar os novos protocolos de bandeira vermelha, permitindo a volta do atendimento ao público no comércio e em restaurantes – mesmo que uma análise dos dados epidemiológicos da região Covid-19 de Passo Fundo, realizada no Plano Estruturado de Prevenção e Enfrentamento à Epidemia do Novo Coronavírus e divulgada nesta semana, tenha feito uma previsão alarmante quantos à projeção de óbitos na cidade. “O aumento de hospitalizações covid em leitos clínicos e em UTI levam para projeção ‘sinistra’ de crescimento considerável nos óbitos nas próximas semanas, principalmente, se a capacidade de atendimento das regiões estiver saturada”, afirma o documento.

A esperança da vacina 

O primeiro sinal de esperança em meio a um cenário caótico veio através dos estudos sobre a vacina contra covid-19. Avançando em tempo recorde, ainda em 2020, a ciência tornou real a possibilidade de imunizar a população. Em mais de 40 países, os grupos de risco começaram a ser vacinados ainda em dezembro. Mas no Brasil, que demorou a estruturar um plano de vacinação, o início à imunização se consolidou somente no dia 17 de janeiro deste ano.

O pontapé dado em São Paulo permitiu que, no dia 19 de janeiro de 2021, Passo Fundo também pudesse celebrar o ato simbólico de aplicação da primeira dose de CoronaVac no município. A técnica de enfermagem Nair Carmelina Teixeira Nunes, de 56 anos, em atuação na linha de frente do combate ao coronavírus desde o início da pandemia, foi a primeira pessoa a ser vacinada. Pouco mais de dois meses depois de Nair ter entrado para a história da cidade, nessa quinta-feira (25), o número de unidades de vacinas aplicadas no município, entre a primeira e a segunda dose, chegou a 32,6 mil. Segundo o Painel de Vacinação da Secretaria Estadual de Saúde, até o momento, o município recebeu 36,8 mil doses da vacina.

Os dados do Governo do Estado apontam que Passo Fundo está entre as cinco cidades gaúchas que mais vacinaram contra a Covid-19, mas o percentual ainda está muito abaixo do necessário para que uma suposta normalidade possa ser retomada. Conforme a SES, apenas 11,8% da população passo-fundense recebeu a primeira dose e 4,3% completou o esquema de vacinação – um cenário de lentidão que se repete em todo o país.

Para tentar acelerar a imunização, o Consórcio Intermunicipal do Planalto Médio (CIPLAM), que abrange 14 cidades da região de Passo Fundo, anunciou nesta semana a pretensão de adquirir mais de 100 mil doses da vacina Sputnik V, mas a compra ainda esbarra em processos legais. Isto porque, a autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para que estados e municípios participem de negociações para a aquisição de imunizantes contra a Covid-19 é válida apenas no caso de o Governo Federal não conseguir suprir da demanda nacional e cumprir o cronograma previsto no Plano Nacional de Imunização contra o coronavírus.

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