Mulheres chefiam 85% das famílias de baixa renda em Passo Fundo

Dos 16.241 beneficiários dos programas sociais no município, 35% vivem com uma renda mensal de até R$ 89 reais

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Bolsa Família e outros programas de transferência de renda são os únicos ingressos mensais para a maioria das famílias periféricas.Foto: Gerson Lopes/ONBolsa Família e outros programas de transferência de renda são os únicos ingressos mensais para a maioria das famílias periféricas.Foto: Gerson Lopes/ON
Bolsa Família e outros programas de transferência de renda são os únicos ingressos mensais para a maioria das famílias periféricas.Foto: Gerson Lopes/ON
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Aos 25 anos, Tainá Aparecida de Melo descobriu um câncer no colo do útero. Ao sair do centro cirúrgico, em agosto do ano passado, soube que não poderia mais levantar peso e, por isso, precisou abandonar o posto de trabalho no centro de distribuição de uma rede farmacêutica. Três meses depois, em novembro, o marido também perdeu o emprego. A empresa de reciclagem onde ele trabalhava faliu antes mesmo das medidas mais restritivas serem impostas para controlar a circulação do coronavírus.  

O auxílio emergencial pago pelo Governo Federal no ano passado, lembra Tainá, até deu conta de abastecer a despensa da casa rosada construída na Ocupação Morada do Sol. Com o término do benefício e a geladeira quase esvaziada, ela e o marido começaram a renunciar a algumas refeições do dia para que o pequeno filho do casal, de 3 anos e 9 meses, pudesse comer. “De dezembro para cá só piorou. É um sentimento ruim ver o filho pedindo comida e a gente não ter para dar”, se ressente Tainá.  

Agora inscrita no Bolsa Família, ela espera que o benefício garanta o mínimo de segurança alimentar durante os próximos meses. Esse desejo, aliás, é compartilhado com as demais 16.240 famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) em Passo Fundo. O banco de dados, que reúne informações socioeconômicas das famílias brasileiras de baixa renda, revela que, no município, 85% dos lares vulneráveis são chefiados por mulheres como Tainá. Apenas em março deste ano, 6.048 passo-fundenses tinham, no programa federal, a única fonte de ingresso financeiro mensal. Os pagamentos, segundo justificou a Secretaria Nacional de Renda e Cidadania, são realizados preferencialmente à figura materna “com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da autonomia feminina tanto no espaço familiar como em suas comunidades”, destacou o relatório emitido pela divisão vinculada ao Ministério da Cidadania.  

CadÚnico reúne informações de famílias em vulnerabilidade socioeconômica. Fonte: Secretaria Nacional de Renda e Cidadania/Ministério da Cidadania


Fila por comida 

O percentual de beneficiários equivale a 7% da população total da cidade que, sem o auxílio governamental, estaria em situação de extrema pobreza. A maior parte destas famílias, que corresponde a 35% do total de inscritos no Cadastro Único, vive com uma renda de até R$ 89 reais mensais. “As filas para receber alimentos aumentaram muito”, observou a coordenadora do Núcleo do CadÚnico da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semcas), Daiana Ribeiro. No último mês, foram transferidos R$ 1.105.845,00 às famílias de Passo Fundo com um benefício médio repassado de R$ 182,84 por núcleo familiar. Os valores, explicados pelo Ministério da Cidadania, é variável segundo a composição de cada lar. Isso significa que o dinheiro é calculado levando em consideração, além da renda, a existência de crianças, gestantes e bebês em fase de amamentação.  

Embora o município tenha alcançado a meta de assistencialismo, o foco agora é manter os dados cadastrais atualizados e gerir a destinação das cestas básicas. A nova rodada do Auxílio Emergencial, que começou a ser paga na terça-feira (6), deve acudir a fome dos munícipes e desoprimir a demanda por alimentos que é reportada à Semcas diariamente. 

O peso da pandemia é maior para elas 

Desempregadas e com os filhos em casa, o desafio, para a mulheres, de prover o sustento nas zonas periféricas se agravou com a pandemia. As escolas fechadas, que também serviam como centro de alimentação para muitos estudantes de baixa renda do município, impuseram outra demanda às mães: o de garantir o acesso à internet para que os pequenos possam acompanhar as aulas virtuais. “É algo fora da realidade para elas contar com dados móveis”, ponderou o coordenador da Central Única das Favelas de Passo Fundo (CUFA), Marcelo Godoy Nery, ao mencionar que a maioria destas famílias são lideradas por mães solo. “Quando a economia estava mais aquecida, respingava nas pessoas em forma de bico para aumentar a renda”, destacou.  

Além dos programas sociais municipais e federais, a organização da sociedade civil e de entidades assistenciais tenta fazer o contrapeso à emergência alimentar. Os pacotes de comida que chegaram à casa pelas mãos dos voluntários da CUFA, como lembrou Tainá, permitiram que ela, o marido e o filho tivessem algo para a nutrição quando se sentavam à mesa. “Isso nunca tinha acontecido”, destacou a moradora. “O vírus impactou demais a vida dessas pessoas”, complementou Marcelo.  

O sangue que escorre pelo corpo 

Além de serem responsáveis pela manutenção dos lares, as mães passo-fundenses, como lembrou o coordenador da CUFA, são vulneráveis até na vista biológica de ser mulher. Sem dinheiro para sequer garantir a comida, itens de higiene também são escassos em muitas casas da periferia. “As mulheres menstruam e não têm como segurar o fluxo. Utilizam inúmeras formas e outras deixam descer. Ficam 5 dias em casa nessa situação”, relatou Marcelo. Miolo de pão, panos e papéis, segundo as descrições de voluntários que atuam nas comunidades locais, são as alternativas encontradas para o período menstrual.  


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