OPINIÃO

Respeitem o direito ao pranto

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É impressionante o jogo de percepção veiculado em redes sociais, por pessoas que mostram menos preocupadas com o desastre de saúde pública causado pelo número assustador de mortos com a pandemia no Brasil. A atitude vem corroborada pela manifestação de eminências partidárias que apregoam menor significação à situação triste que atinge a todos nós. Junto a estas expressões estranhas no momento de dor nacional, surgem afirmações que buscam amenizar a gravidade da doença. E advertem opinando que o total de mortos, que já passa de meio milhão de pessoas, como se fosse mero cotejo de importância cabalístico, sem real sentido de gravidade. No mesmo sentido de relativização da marca fúnebre, sem encontrar argumento razoável para a circunstância, alegam simplesmente que muitos, milhões, estão sendo atendidos e recuperados, com vida. O sentido empregado neste aspecto pelos negacionistas incorre em cinismo. Negam o direito ao povo oprimido e permanentemente ameaçada de sentir medo. Na mesma esteira a minimizar, sem a humildade de reconhecer o drama ainda insuperável a curto prazo, citam frases carimbadas de que em outras nações a morte também ocorre, enfim, que sempre houve pandemia ao longo da história da humanidade. Nesse tom os negacionistas deixam fluir a ideia de que não é tão grande a preocupação e que tudo será resolvido com a tese da imunidade de rebanho. Num momento em que as pessoas sensatas deixam de lado o vértice da culpa pela demora da vacina e se voltam para o que fazer daqui por diante, é preciso respeitar a dor profunda pela morte. Por certo é também gravíssima a situação de milhares de brasileiros que se contaminaram e foram lesados física e psicologicamente por este mal insistente. O orçamento familiar abalado pelo contágio de milhões que ao menos sobreviveram. Está difícil manter o equilíbrio emocional também entre os que não foram contaminados. Vamos conviver por algum tempo com a crise de lucidez. Então, uma coisa é o esforço de médicos e uma multidão voluntariosa que atendem a saúde pública, louvável sob todos os aspectos. Outra coisa é esconder o desespero de familiares, amigos e vizinhos de vítimas fatais. Esse tom esfarrapado de lideranças políticas e sabujos da mídia reprimindo a explosão da indignação pela morte, querendo explicar o inexplicável, é lamentável. O povo, através de diferentes formas de comunicação tem o direito ao pranto neste momento crucial da vida. Se Alguns desviam o próprio sentido da dor e aproveitam oportunisticamente para amparar preferências eleitorais, obviamente que é condenável. Mas tudo é secundário, quando a morte é a mais inexorável fatalidade no curso da existência.

 

Nos relógios públicos da Europa, há muito se lê a lapidar expressão em latim “omnia vulnerant, ultima necat” ( todas as horas ferem, mas a última mata). A morte, ainda que digamos seja “natural”, é sempre inaceitável pela aspiração humana. Muito mais dramático, entanto, quando nós sabemos que há meios para nos defendermos de uma terrível epidemia. Não é humano, portanto, no mesmo tom de afronta que se prognosticou como uma gripezinha, que agora se minimize meio milhão de mortes.

 

Evitar o pânico

Por certo constatamos muitas atitudes estranhas neste longo período de ano e meio da coronavírus. É importante que destaquemos o sinal de esperança para muitos infectados. Salvar a vida é a prioridade e o desejo normal das pessoas. Um argumento sólido para evitar o pânico, além das medidas comportamentais de uso de máscara e distanciamento, é a aplicação da vacina. Há esperança de melhora na vacinação, após enorme pressão social para vencer a estupidez de mandatários alheios ao interesse público. Ainda não se instalou o sentido de compaixão em grande parte do palácio governamental. O presidente cercado de fundamentalistas ri da desgraça do povo. Cuidado, isso tem volta. Sem instigar o ódio por provocações ajudaremos redução do pânico nesta hora difícil.

 


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