Cooperativas transformam latinhas em renda e sustentabilidade

Recibela, Coama e Cotraempo movimentam mais de 2,6 toneladas de alumínio por mês, envolvendo cerca de 90 trabalhadores organizados em cooperativas

Por
· 3 min de leitura
Recicladores trabalham na triagem dos materiais, garantindo que resíduos como as latinhas de alumínio sejam reaproveitados e transformados em renda e sustentabilidade - Foto: Divulgação / TransformaçãoRecicladores trabalham na triagem dos materiais, garantindo que resíduos como as latinhas de alumínio sejam reaproveitados e transformados em renda e sustentabilidade - Foto: Divulgação / Transformação
Recicladores trabalham na triagem dos materiais, garantindo que resíduos como as latinhas de alumínio sejam reaproveitados e transformados em renda e sustentabilidade - Foto: Divulgação / Transformação
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

A latinha de alumínio que hoje chega às mãos de um consumidor em Passo Fundo pode, em apenas dois meses, estar de volta às prateleiras como uma nova embalagem. Esse ciclo rápido e sustentável é possível graças a um dos sistemas de reciclagem mais eficientes do mundo: em 2024, o Brasil atingiu a marca de 97,3% de reaproveitamento, conforme dados da Recicla Latas (associação que reúne fabricantes e recicladores do setor), divulgados no início de agosto. Na prática, isso significa que quase todas as 34,8 bilhões de unidades comercializadas no país foram recolhidas, transformadas e reinseridas na cadeia produtiva.

Em Passo Fundo, a engrenagem que mantém esse ciclo ativo – e com impacto direto na vida das pessoas – está nas mãos de cooperativas de recicladores. Segundo o assessor Vinicius Luiz Balbino, que atua junto ao projeto Transformação (responsável por oferecer suporte às cooperativas), atualmente três organizações estruturam esse trabalho na cidade: a Recibela, localizada no Parque Bela Vista; a Coama (Cooperativa Amigos do Meio Ambiente), na Vila Rodrigues; e a Cotraempo (Cooperativa de Trabalho dos Recicladores da Santa Marta), no bairro Bom Jesus. Juntas, elas somam cerca de 90 trabalhadores organizados, responsáveis por dar destino correto e gerar renda a partir de toneladas de resíduos coletados todos os meses.

Recibela: maior volume e maior estrutura

Balbino aponta que a Recibela é a cooperativa com maior representatividade na cidade. Situada no antigo lixão, na central de triagem e transbordo de resíduos sólidos, ela concentra 68 trabalhadores diretamente envolvidos na reciclagem. Só de alumínio, são cerca de 2,2 toneladas de latinhas reaproveitadas mensalmente, além de outras seis a sete toneladas de diferentes tipos de metais. “A latinha é um resíduo nobre para o catador, muito valorizado, e dificilmente passa despercebido. Ela representa uma renda significativa para os cooperados”, explica.

Conforme o assessor, a Recibela conta com transporte cedido aos trabalhadores, alimentação garantida por meio de uma cozinha solidária (que fornece café da manhã e almoço) e com a chamada “sacola econômica” – benefício previsto em lei municipal que complementa a renda dos cooperados.

Coama e Cotraempo: coleta solidária e parcerias

Balbino explica que, menores em número de cooperados, a Coama e a Cotraempo trabalham com outro formato: a coleta seletiva solidária. Nessas cooperativas, o trabalho acontece por meio de parcerias com condomínios, instituições privadas e escolas. “Os resíduos são recolhidos diretamente nas residências e empresas que aderem ao modelo.”

A Coama, na Vila Rodrigues, reúne 12 cooperados. A produção mensal de latinhas gira em torno de 200 quilos. Já a Cotraempo, localizada no Bom Jesus, apresenta números semelhantes, também com 200 quilos reciclados mensalmente. Ambas têm contrato com a Prefeitura para a manutenção de suas atividades”, frisa.

De acordo com ele, no modelo de rateio da produção, os cooperados recebem rendimentos médios de R$ 1.800 na Coama e R$ 1.400 na Cotraempo, valores que variam conforme o volume coletado. Na Recibela, por movimentar maior quantidade e contar com estrutura mais robusta, os ganhos são superiores.

Projeto Transformação: suporte técnico e social

As três cooperativas são assessoradas pelo projeto Transformação, que oferece capacitação, formação e suporte técnico nas áreas jurídica, contábil, de gestão e organização. Esse acompanhamento garante não apenas melhores condições de trabalho, mas também maior integração econômica, social e ambiental. “Nosso papel é auxiliar os recicladores para que o trabalho deles tenha cada vez mais reconhecimento e gere melhores resultados, tanto para a renda de cada família quanto para o meio ambiente”, detalha Balbino.

Catadores individuais: força invisível na reciclagem

O assessor ressalta que, apesar da estrutura organizada, o cenário de Passo Fundo vai muito além das cooperativas. “Estima-se que existam mais de dois mil catadores autônomos atuando de forma avulsa pela cidade, especialmente em bairros periféricos. Muitos deles acabam recolhendo latinhas diretamente e revendendo em ferros-velhos, já que o alumínio tem alto valor de mercado. Hoje, o preço pago pelo quilo de latinha pode variar entre R$ 9 e R$ 10 em sucatas locais. Esse valor competitivo faz com que boa parte do material não chegue até as cooperativas. Um dos principais destinos do alumínio recolhido em Passo Fundo é uma empresa, referência no ramo de sucatas, que garante melhores preços aos catadores”, pondera.

Impacto econômico e ambiental

Balbino informa que, somadas, as três cooperativas de Passo Fundo reciclavam, até julho de 2025, cerca de 2,6 toneladas de latinhas de alumínio por mês. Para além do impacto ambiental, que reduz a quantidade de resíduos destinados a aterros, o trabalho garante renda e dignidade a dezenas de famílias.

Gostou? Compartilhe