O mercado de roupas de segunda mão vive um momento de consolidação em Passo Fundo, acompanhando o ritmo de crescimento registrado no Rio Grande do Sul. Segundo estimativas do setor, o Estado apresenta um avanço médio de cerca de 15% ao ano no número de brechós, índice que se repete no município, com variação entre 15% e 20% ao ano.
De acordo com o diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Passo Fundo, Roberto Estivallet, o segmento já deixou de ser apenas complementar ao varejo tradicional. “Hoje existem em torno de 100 mil brechós em atividade no país. O crescimento gira entre 15% e 20% ao ano, e acreditamos que isso vai se consolidar até 2030, muito ligado à economia circular como modelo de negócio”, afirma.
Mudança no comportamento
Estivallet aponta que fatores como sustentabilidade, reaproveitamento de peças, preços mais acessíveis e a curadoria especializada por nichos — como grifes e público jovem — impulsionam o setor. “Há uma mudança clara no perfil do consumidor. Esse movimento amplia oportunidades, gera renda e fortalece a economia local”, completa.
O crescimento dos brechós acompanha uma transformação no padrão de consumo. No cenário internacional, relatórios de mercado projetam que o segmento pode crescer quase três vezes mais rápido que o varejo tradicional até 2029.
Em Passo Fundo, essa tendência se traduz em novos empreendimentos e na ampliação de negócios já existentes. A procura, segundo lojistas, aumentou tanto por economia quanto por consciência ambiental.
Da casa ao espaço compartilhado
Idealizadora do Love Brechó, Silvia Cadore conta que a ideia surgiu após o fechamento da empresa que mantinha durante a pandemia. “Eu sempre gostei de brechó, comprava para meus filhos porque é a oportunidade de adquirir peças muito boas por um preço acessível. Quando precisei reorganizar minha vida profissional, pensei: vou montar um brechó”, relata.
O negócio começou dentro de casa e, após um ano, ganhou novo endereço devido ao aumento da procura. Hoje funciona em parceria com outras três empreendedoras, em um espaço colaborativo que reúne três brechós. “Aumentou bastante a compra. Muitas pessoas que não eram adeptas estão se voltando ao brechó pela sustentabilidade, mas a maioria ainda procura pela economia”, afirma.
Silvia destaca que o conceito também mudou. “O cliente não quer mais aquele brechó com tudo misturado. A gente trabalha com peças separadas por setor, por cores, tudo em cabide. Tem arara só de vestido longo, só de blazer. É simples, mas organizado e caprichado”, explica. Segundo ela, as feiras e eventos têm registrado “um aumento bem significativo” nas vendas.
Trabalho e dedicação
À frente do Das Gurias Brechó, Dini Stefanello confirma o momento de expansão, mas ressalta os desafios do setor. “É trabalhoso, é dedicação exclusiva. Eu me dedico integralmente à loja e tenho mais quatro gurias que me ajudam”, conta.
Ela afirma que houve aumento expressivo nas vendas, especialmente a partir de setembro, e que o negócio sempre se manteve autossustentável. “A loja sempre se pagou e sempre sobrou. Mas não é fácil como muita gente pensa. Tem que captar peça de qualidade, lavar, revisar, cuidar para não ficar com estoque parado”, explica.
Dini aposta na proposta de preço acessível como diferencial. “A nossa ideia sempre foi captar as peças, deixá-las em condições de uso e vender pelo menor preço possível para que todas as pessoas tenham acesso. Temos bazar com preço máximo de R$ 20, com muita peça nova e em ótimo estado, que inicia nesta quinta-feira (5) e vai até sábado (7)”, destaca.
Ela também observa que, apesar do crescimento, nem todos conseguem se manter no mercado. “Tem gente que acha que abrir brechó é fácil, mas não é. É um negócio que está em ascensão, sim, mas exige trabalho e dedicação.”
Alternativa consolidada
Para a CDL, o avanço do setor reflete uma mudança estrutural no comércio. Os brechós não apenas acompanham o varejo tradicional, mas se consolidam como alternativa relevante de consumo e geração de renda, especialmente em cidades do interior.
Em Passo Fundo, o crescimento de até 20% ao ano confirma que a moda circular deixou de ser tendência passageira para se firmar como parte da dinâmica econômica local.



