A mulher e o barro

No auge de sua maturidade artística, Mara de Castro Tasca apresenta a mostra Transformação

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Dizem que Deus criou o homem do barro da terra, mas ninguém contesta que o que transformou o barro em arte foram as mãos de uma mulher. Assírias, mesopotâmicas, babilônicas, chinesas, egípcias, romanas, africanas e até as nativas da pré-história brasileira, todas elas enxergaram na argila misturada à água da chuva a possibilidade de moldar a terra como se molda um filho, a sua semente para o mundo. Mara de Castro Tasca é uma dessas mulheres que, a despeito de todas as modernidades e tecnologias das quais nem mesmo as artes escapam com o passar do tempo, preferiu seguir uma tradição ancestral que precisa apenas de um punhado de barro, o calor do fogo e a energia de duas mãos para se realizar.

No auge de sua maturidade artística, ela faz da exposição Transformação uma espécie de celebração à cerâmica em sua forma mais primitiva. Optando por utilizá-la em estado puro, sem recorrer ao esmalte ou outros artifícios, constrói um cenário rudimentar de formas que lembram bustos, máscaras, insinuam ovos, garras, dentes, ossadas, artefatos arqueológicos ou o que mais possa haver de subjetivo nessas criações ao olhos de cada um, remetendo inconscientemente a essa longa herança de artistas do passado, que deixaram a história e a cultura de antigas civilizações contadas através da cerâmica.

Entre triângulos e repetições

Com predominância de tons da natureza, como o laranja, o terracota, o verde e o marrom - a partir de cores extraídas de óxidos e pigmentos -, e a constante presença de grafismos e formas geométricas variadas, Mara dá uma identidade à mostra.  “Tenho gosto por elementos rústicos, indígenas, africanos. No passado fiz uma coleção africana, e nessa exposição também existe a presença de uma atmosfera assim, bem primitiva”, conta a artista, que trabalhou na criação das obras ao longo de cinco meses, desde a preparação da argila até a queima e a versão definitiva de cada elemento. Distribuída em forma de grandes painéis nas paredes da sala de exposições da Faculdade de Artes e Comunicação da UPF, a FAC, a mostra tem como um dos seus destaques a parede  principal decorada por dezesseis bustos femininos em tamanho real,  elaborados a partir de diferentes cores e técnicas, dispostos lado a lado e cobertos somente por uma incrível variação de colares feitos de argila. “Pensei em como poderia expor essas bijuterias, então surgiu a ideia de tomar partido de elementos da mulher, fiz o croqui de um busto e resultou nesse trabalho. Na cerâmica as coisas vão surgindo e você vai explorando, muitas vezes até se surpreende”.

Surpreendendo também ao público com uma exposição harmoniosa e cheia de possíveis interpretações, ela comenta as suas escolhas na hora de decidir o caminho a seguir. “Não sei explicar o porquê, mas as formas triangulares aparecem repetidamente no meu trabalho, é um formato que me agrada”, conta enquanto aponta a coleção de máscaras em alto relevo e o extenso painel de triângulos arredondados trabalhados por grafismos.

Complementando essas obras triangulares que mostram sua riqueza através da repetição, também estão expostas outras formas geométricas, como uma grande escultura oval bastante simbólica em meio ao conjunto, ou ainda os dois quadros que se assemelham a mosaicos e se destacam pelo contraste acertado das cores. “Há uma ligação entre todas as peças, essa ideia rudimentar, natural”, define. “A proposta foi unicamente o uso da argila, que é um trabalho fascinante pra mim”.

Porque a História é feita de cerâmica

E parece haver mesmo um profundo fascínio da humanidade com essa arte que, como explica Mara, “nada mais é do que a transformação pelo calor, um efeito químico que se dá através da ação do fogo”, e por isso o nome da exposição, batizada de Transformação. A história da cerâmica acompanha a história das civilizações, desde a descoberta do fogo. A argila queimada é utilizada em todas as sociedades - das mais antigas às consideradas primitivas, passando pelo Oriente e Ocidente -, e por todas as classes, seja como utensílio, seja como fino objeto de decoração.

Com as primeiras cerâmicas conhecidas datadas do século 5.000 a. C., na região da Ásia menor, se sabe que essa técnica foi fundamental entre os povos da Mesopotâmia, Egito, Grécia, China e muitos outros, cada qual com suas técnicas e finalidades. Para se ter uma ideia da importância da cerâmica, vários povos da antiguidade gravaram em barro sua ciência, suas crenças, seus feitos épicos e suas histórias, cujo conhecimento hoje tem contribuído para o avanço da humanidade, sendo assim mais do que uma arte, mas também um eficaz meio de estudo das várias fases culturais já existentes. Além disso, sabe-se que a mulher sempre teve uma forte relação com a cerâmica, por necessidade, habilidade ou simplesmente gosto pela arte.

Um dia no ateliê

Enquanto esses antepassados femininos produziam cerâmica nos ambientes mais rústicos, em meio ao próprio barro e com a ajuda de grandes fogueiras, Mara de Castro Tasca reproduz a essência desse processo no calor de seu ateliê. Com duas grandes mesas de madeira, as paredes forradas de sacos de argila e uma imensa fornalha, ela leva adiante essa antiga tradição, deixando espaço para o novo apenas em sua concepção artística. “Gosto muito das artes contemporâneas, mais arrojadas, a prática de associar materiais e outras tendências”. Ela conta que o trabalho com a cerâmica exige tempo e tranquilidade. “Passo muitas horas no ateliê, pois quando você quer se dedicar a uma obra você precisa ficar muito tempo com ela, horas seguidas”. O possível cansaço é aplacado pelo prazer proporcionado pelo contato da argila com as mãos e a liberdade da criação. “É algo que me relaxa, me faz muito bem. Como se sabe, a cerâmica é considerada uma arte terapêutica”.

Boa parte das obras que ganharam vida nessas intermináveis horas passadas no ateliê podem ser conferidas em uma exposição paralela formada pelo acervo de Mara.  Distribuída pelo saguão da Reitoria da UPF, a mostra é como um grande resumo da trajetória da artista ao longo das últimas décadas. “A proposta é mostrar coisas que fiz no passado. Comecei em 1978, depois de passar pela tapeçaria, entalhe em madeira, entre outros, acabei optando pela cerâmica, que é fascinante pelo fato de você se apropriar de uma massa plástica e poder fazer aquilo que desejar com ela”, define.

O espaço revela diferentes momentos criativos de uma longa carreira, sempre voltada às formas triangulares, mas aberta à experimentação de técnicas. “Lembro que comecei pelos potes e vasos, que é interessante no sentido de poder chegar até um caminho escultórico”. Sobre um conjunto alto e triangular de três peças, ela explica a inusitada inspiração. “Busco passar a ideia da cobra naja, que começa agachada, se levanta e então dá o bote”, conta ela, que como por mágica faz com que de repente os vazos pareçam mesmo com o temido animal graças ao seu formato e a textura de pele de cobra.

A força histórica inerente à cerâmica também aparece em seu acervo, em técnicas que remetem desde a cultura japonesa até a arte indígena brasileira. “Gosto muito da técnica do engobe, onde na modelagem você vaporiza cores de argila. Ela é bastante primitiva, os índios marajoaras e os próprios bugres indígenas fazem, usando matérias primas que extraem da natureza. Uso também a linha de queima oriental chamada raku, que funciona por redução. Enfim, existe uma infinidade de técnicas, de possibilidades na cerâmica”.

Todo mundo sabe que dom não se explica, mas Mara de Castro Tasca nem se arrisca a tentar. Ela conta o seu processo artístico com a naturalidade de um experiente artesão, fazendo parecer muito simples. “As ideias surgem, normalmente faço um esboço a lápis antes de começar, imaginando como será a obra. Depois faço o esquema recortado, que é um momento decisivo pois muitas vezes ele sai diferente da ideia inicial pela possibilidade que você tem de aproveitar o instante da criação, algo totalmente inesperado”. A explicação para tanto talento e inspiração talvez seja mesmo a mais simples, e ao mesmo tempo mais grandiosa: a energia das primeiras mãos femininas a moldar o barro como se molda um filho, a sua semente para o mundo, transmitida por outras e outras mãos ao longo de milhares de anos, até chegar aqui, e daqui para o futuro, em constante transformação.

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