Uma Jornada politizada

Mediadores da 16ª Jornada Nacional de Literatura fizeram diversas manifestações políticas durante o evento

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A 16ª Jornada Nacional de Literatura foi marcada por manifestações políticas. Já na noite de abertura, sindicalistas do Cpers carregaram uma faixa com os dizeres “Sartori, nossa ausência é tua culpa” quando o secretário da Cultura do RS, Victor Hugo Alves da Silva, começou seu discurso. Que foi breve, devido às vais que dominaram o Espaço Suassuna. No momento, um dos coordenadores do debate, o jornalista Felipe Pena, desceu do palco e foi cumprimentar os professores.

Na terça-feira (3) à noite, Pena, junto dos demais mediadores Augusto Massi e Alice Ruiz, leu uma carta redigida pela categoria do magistério contra o governo do Estado. Durante as discussões da Festa Literária da Comunicação (Flicom) e nas entrevistas concedidas, os assuntos que envolvem o presidente Michel Temer e a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na América Latina, que estava em cartaz em Porto Alegre e foi fechada devido a críticas, volta e meia eram citados.

Felipe Pena disse à reportagem de ON, que a cerimônia de abertura incomodou os três mediadores. “No primeiro dia eu tive um gesto individual. No segundo dia o gesto foi coletivo. Nós três estávamos ali ao lado desses professores que são guerreiros. Nós dependemos deles para o futuro da nação. País sem professores bem remunerados e valorizados é país condenado ao fracasso. Aquele foi um ato político marcante e eu acho que vai ficar na história da Jornada. Eu espero que em outras jornadas as pessoas não deixem que professores falem e sejam ignorados”, pontuou, sobre as manifestações nos debates.  

Na quarta noite de Jornada, quando a pauta era igualdade de gênero, Alice Ruiz provocou os escritores convidados para que explanassem sobre o protagonismo da arte e suas potencialidades modificadoras. “Em momentos de retrocesso, a arte e cultura são sempre os primeiros a serem atingidos. Sou bastante pessimista sobre o futuro do nosso país. Não há mais muito o que fazer: o golpe está consumado”, declarou a poetisa.

Questionado sobre essas manifestações, o jornalista defendeu que o momento político é complexo e falar sobre isso é necessário. “A gente vive um golpe de Estado. Um golpe parlamentar-midiático. Por três motivos muito simples: a constituição foi rasgada, não houve crime de responsabilidade da presidente Dilma e uma quadrilha conspirou para tomar o poder. Quando a constituição é rasgada, as instituições são queimadas. Por isso que temos aí conflito de poderes. O STF dá uma ordem e ela não é cumprida. E ordem judicial não se discute, mas aqui ela se discute porque o Legislativo derruba essa ordem judicial. É isso que está acontecendo, não se respeita mais a lei, não se respeita mais nada. Obras de arte censuradas, exposições canceladas. Isso é regresso”, analisa.

De acordo com Pena, a política é inerente à arte. “A literatura é, por natureza, contestadora. Mesmo que ela não fale sobre política, ela fala porque se eu estou falando sobre amor e a maneira como eu falar tem de ser uma maneira lúdica, uma maneira que não seja reprodutora de estereótipos, de preconceitos, e aí eu já estou transformando o leitor de alguma forma. E não dá para estar em um evento literário como esse e não falar de política”. 

Sobre as vaias

O secretário disse ter recebido as vaias com serenidade. “Todos nós que estamos na vida pública temos que ter serenidade e equilíbrio. Sou, sim, uma pessoa de governo e defendo o governo que integro. O estado só chegou nessa situação política porque, talvez, no passado muita gente ficou olhando como plateia e não tomou decisões que precisavam ser tomadas para a máquina pública ter menor tamanho e mais resultados para as pessoas”, desabafou.

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