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Recém-homenageada pela Academia Passo-fundense de Letras, Miriam Postal comenta sobre a trajetória de 30 anos como artista plástica e sua visão acerca do mercado das artes

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Personagens volumosos, de vestes multicoloridas e expressão fraterna. Depois que se tem o primeiro contato com uma das obras feitas por Miriam Postal, é difícil não reconhecer mesmo de longe o traço abrasileirado da artista, que tem os “Joãos e Marias” – ou, como ficaram conhecidos, os “gordinhos” – retratados nas pinturas como sua marca registrada. Foram essas figuras volumosas que colocaram a passo-fundense na lista de expositores em museus do Brasil afora, ajudando a levar o nome do município para novos espaços e mostrar que não é apenas nos grandes centros que moram grandes talentos.

 

Considerada uma das artistas plásticas mais importantes do país atualmente, a trajetória de Miriam Postal ganhou mais um marco importante no início deste mês: ela foi homenageada pela Academia Passo-fundense de Letras com a Comenda de Mérito Cultural Sante Uberto Barbieri. Em entrevista ao O Nacional, Miriam falou sobre a honra de receber tal reconhecimento ainda em vida, sua trajetória como artista plástica e sua opinião sobre a importância de a arte estar inserida no cotidiano das pessoas e não somente nos museus.

 

O Nacional: Como começou a sua trajetória no mundo das artes?

Miriam Postal: Eu fiz parte da primeira turma de bacharelado em Desenho e Plástica, na Universidade de Passo Fundo. Quando eu me formei, eu saí da faculdade procurando trabalhos que estivessem relacionados às artes, mas como eu não conseguia nada e eu havia feito magistério no ensino médio, eu me vali desse diploma para começar a dar aula. Trabalhei como professora de Português, Estudos Sociais e, mais tarde, Educação Artística. Neste meio tempo, eu fiz uma pós-graduação em Artes/Educação e comecei a trabalhar com desenho plástico por conta própria, enquanto continuava fazendo cursos nessa área. Eu trabalhava sempre ligada à educação e às artes. Um tempo depois, comecei a expor as pinturas que eu fazia de maneira paralela ao trabalho de professora e as pessoas começaram a ver e solicitar. Assim eu entrei no mercado de artes de Porto Alegre, logo de cara, e comecei a fazer exposições. Fui largando todos os trabalhos que eu tinha ligados à educação e passei a trabalhar somente com arte.

 

ON: Até hoje você trabalha exclusivamente como artista plástica?

Miriam: Sim, eu me dedico somente à arte. Eu tinha que viajar, pintar, expor, me tomava muito tempo e havia uma solicitação de trabalho cada vez maior, então não havia como levar outra carreira junto. Mas a educação foi onde eu encontrei minha sustentação. Não tinha como terminar a faculdade e pensar “agora vou começar a ser artista”. De jeito nenhum. Tanto que eu demorei muitos anos para conseguir levar a arte como uma profissão. Eu tinha até vergonha de colocar que era artista plástica em formulários, por exemplo. Eu sempre colocava que era professora.

 

ON: Você tinha qual idade quando passou a se dedicar profissionalmente à pintura?

Miriam: Eu comecei a pintar mesmo quando eu tinha uns 13 anos, mas não era nada demais. Eu era muito criança, as pessoas não me consideravam ainda como uma artista. Eu sempre gostei muito de arte de maneira geral, mas nunca foi nada excelente, tipo “a sensação”. Foi acontecendo. Em 1987 eu comecei a expor e participar do mercado de artes profissionalmente, expondo ao lado de artistas consagrados, em museus de vários lugares. Então são mais de 30 anos.

 

ON: Pelo que comentou, você começou a pintar quando era bem nova. Como se deu essa sua relação com a arte? Era algo de família?

Miriam: Não era. Foi algo que surgiu de um interesse meu. Quando eu era criança, eu fazia aulas no Centro Carlos Barone. Eu fui lá sozinha, com dez anos, e me matriculei. Depois aprendi a tocar piano sozinha também... Eu era muito curiosa, mas eu não era uma criança que se destacava, que era melhor que as outras em algo, nada disso. Era normal, eu apenas gostava.

 

ON: Você buscou especializações fora do país também.

Miriam: Sim, foi uma das coisas que eu sempre busquei. Eu sempre tentava procurar arte fora, onde havia bastante manifestação. Naquele tempo era muito mais difícil você ter isso em casa, então eu fui buscando, fui à Nova York, Paris, Madrid e outros centros, onde procurei por conhecimento. Eu queria ver a arte por todo o mundo. Era uma coisa que eu gostava muito, mesmo havendo um contraste de lugar para lugar. Quando eu comecei com esse material de artes adaptadas, que eu vendo hoje, eram coisas que eu já vivia nos museus há 30 anos – essa aplicação da arte em produtos do nosso cotidiano. Eu via muito nas pequenas lojinhas dos museus. Hoje são lojas imensas. Os licenciamentos das obras de museus cresceram muito.

 

ON: Isso é positivo?

Miriam: Eu vejo como algo positivo. Porque onde mais nós teríamos acesso às obras? É só dentro dos museus. Com as adaptações, as obras estão por tudo. Estão nas canecas, nos pratos, nas toalhas... A arte tomou essa dimensão.  Essa proximidade com as massas foi umas das bandeiras que eu sempre levantei. Quando eu comecei as pinturas nos muros de Passo Fundo, tinha gente que dizia que isso iria desvalorizar o meu trabalho, mas eu não penso assim. Eu sempre acreditei que a arte deveria chegar a todo mundo. Estando nos muros, ela era visível para quem passava de carro, de carroça, caminhando. É uma coisa nossa, não tem como querer deixar trancado para conseguir um grau de status.

 

ON: As suas pinturas têm um traço bem característico. Como você encontrou esse estilo?

Miriam: No começo, as minhas pinturas eram muito rápidas. Eu desenhava as figuras bem fininhas, magrinhas, saltitantes, elétricas, por conta desse traço rápido. Depois, fui desacelerando e desenhando mais com o pincel. Isso ia deixando algumas manchas nas telas e eu passei a desenhar dentro dessas manchas, formando um grupo de pessoas dentro delas. Eu queria mostrar a indolência, o pacifismo, a acomodação das pessoas com a situação política brasileira nos anos 80. Hoje se vê uma manifestação e participação política muito maior, mas uma vez era raro. O povo ficava pacífico, quieto, deixando a coisa acontecer sem reagir. Eu comecei a desenhar esse grupo de pessoas se acomodando umas nas outras, dentro desse contexto, e o traço foi se formando. Naquela época, as personagens não eram tão bonitas, tão roliças. Agora, as pessoas chamam os Joãos e as Marias de “os gordinhos”. Eles são gordinhos, mas não tem nada a ver com a gordura em si. Eles apenas foram se formando assim, em um momento de acolhimento um do outro – não são figuras hostis, são mais fraternas, elas se apoiam umas nas outras. Sempre me perguntam sobre isso, mas não é uma questão de a pessoa ser gorda ou magra. É só porque são fofos, se afofam, se protegem, se permitem chegar um perto do outro.

 

ON: É proposital a aparência abrasileirada das obras?

Miriam: Eu acho que parece isso porque elas têm bastantes cores. Eu sempre gostei de estudar tecidos, me lembro de passar nas casas de panos para ver eles e eu amava ter tudo tão colorido. É algo que reproduzo muito na roupa dos meus personagens, nos chinelos de dedo. Acho que eu retrato um povo bem simples, mas também bem colorido e festivo.

 

ON: Hoje você não mora mais em Passo Fundo. Está morando em Balneário Camboriú, certo?

Miriam: Sim, eu vim para cá não faz nem um ano. Eu sempre tive um apartamento aqui e, no ano passado, por algumas questões pessoais, eu decidi me mudar. Eu gosto muito de mar e de calor, mas estou sempre com o pé em Passo Fundo. Estou praticamente dividida entre as duas.

 

ON: E como é a sua rotina de trabalho aí?

Miriam: Meu trabalho é praticamente diário. Tem gente que pensa que o artista não tem rotina, mas a gente tem que ter, porque chega o final do mês e você tem sua rotina de contas para pagar. Eu tenho um ateliê aqui, é uma coisa que eu sempre mantive, mesmo quando morei fora. Eu uso esse espaço diariamente, pesquiso, leio muito, estou sempre procurando coisas novas, sempre antenada com o que está acontecendo com o mundo das artes.

 

ON: Quanto tempo você leva, em média, para pintar uma das suas telas?

Miriam: Eu sempre digo que eu levo a minha idade, 57 anos (risos). É muito variável. Depende da obra, do tamanho, dos detalhes. Em algumas, eu preciso dar muitas pinceladas, porque eu desenho muito em cima da tela, são várias camadas. Tem momentos que eu preciso pesquisar os elementos que eu vou colocar na pintura, então demora mais. Pode levar uma semana, às vezes um mês. Não sou de me estender muito porque sou acostumada a pintar com tinta acrílica e é uma tinta de secagem rápida. Muitas vezes eu até uso o secador para apressar a secagem.

 

ON: Pela sua experiência, você acredita que é possível um artista do interior alcançar reconhecimento mesmo estando longe dos grandes centros?

Miriam: Eu tive que desbravar, colocar os trabalhos em baixo do braço e pegar a estrada. Era uma época diferente, em que era muito mais difícil conseguir reconhecimento sem sair do interior, eu não tive escolha. Hoje, você manda as suas imagens instantaneamente para onde quer que seja. A sua imagem viaja rapidamente, queira você ou não. O que acontece é que os mercados de arte são muito regionais. Às vezes, obras de arte que são feitas aqui no Rio Grande do Sul não recebem demandas de São Paulo, por exemplo. Existem artistas do nordeste maravilhosos, que são consagrados lá, e não têm demanda nas galerias de arte do Sul. Então tem dois lados. Hoje suas obras viajam pelas redes e, por isso, eu sinto que não é mais tão necessário estar nos grandes centros, mas às vezes para acontecer a comercialização você realmente precisa estar mais perto de onde tem a demanda.

 

ON: Como foi receber a homenagem da Academia Passofundense de Letras?

Miriam: Foi muito importante para mim. Fiquei lisonjeada, ainda tenho uma relação forte com o município. Um artista receber homenagem e reconhecimento em vida é uma coisa um pouco rara. A gente vê todos os dias obras de milhões de dólares feitas por artistas que só foram valorizados depois que morreram. Eles nunca viram nem a cor do dinheiro. A gente vive muitas angústias em relação ao mercado de trabalho, passamos por fases difíceis do país, momentos de desvalorização. Então, quando vem algo assim, até um simples “obrigada”, isso te alimenta, dá força, vigor e ajuda a abrir caminhos para tantas outras pessoas que virão a trabalhar com arte, mesmo que seja em outras manifestações. 

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