Uma viagem entre vertentes musicais

Misturando elementos de rock, bossa nova e surfmusic em duas faixas instrumentais, banda passo-fundense Assoalho de Órbita lança nesta sexta-feira o EP “Miragem”

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A pandemia pode até ter impedido a realização de uma série de eventos culturais tradicionais em Passo Fundo, mas não freou a criação de novos sons. Impedidos de se conectarem com o público de cima do palco, artistas da região têm usado a internet como principal ferramenta para seguirem expondo seus trabalhos. Os músicos da Assoalho de Órbita, banda instrumental carregada de sonoridades psicodélicas, fazem parte desse time. Nesta sexta-feira (2), a banda disponibiliza nas principais plataformas de streaming o EP “Miragem”, com distribuição digital pela Ditto Music Brasil. O lançamento fica por conta do 180 Selo Fonográfico.

Surgida no início de 2016, à época com outro nome, a Assoalho de Órbita nasceu do encontro esporádico de seis amigos que costumavam se reunir, como forma de diversão, para improvisar novos sons e explorar a criatividade de maneira conjunta. “Com o passar do tempo e a saída de dois integrantes, a banda se reformulou e então surgiu o nome Assoalho de Órbita. A partir de 2018, começamos os primeiros ensaios e gravações na formação atual, que é composta por Bruno Philippsen, Guilherme Benck, Ramiro Tagliari e Télbio de Freitas”, contam os membros.

Mudanças à parte, o que se mantém intacto entre os integrantes remanescentes é o desejo de explorar e misturar sem nenhum receio sonoridades e elementos de gêneros e vertentes um tanto quanto distintos. Em “Gilberto Ben Roberto” – música que abre o segundo EP da Assoalho de Órbita –, por exemplo, escaletas, vassourinhas e batidas bossa nova acompanham a sutileza do vibrar das cordas de nylon, desencadeando em um loop frenético. Um leve ajuste radiofônico e, então, é possível ouvir pitadas de reggae e surf music em “Baby Johnson Carvenícola”, que fecha o trabalho.

O resultado é uma espécie de “rock instrumental alienígena”, como a própria banda costuma se descrever, prometendo agradar desde terráqueos até os mais exóticos ouvintes de outras galáxias onde o streaming é capaz de alcançar. Para quem ainda está em dúvida se essa é uma viagem à qual gostaria de embarcar, O Nacional preparou uma breve entrevista com a banda acerca do processo de criação do EP e as influências que serviram de base para o novo trabalho.


ON: Como aconteceu a composição do novo EP?

A composição desse EP aconteceu ainda no ano passado. A faixa de abertura foi uma das primeiras músicas no repertório da banda, mas acabou ficando meio de lado por um tempo devido a outras ideias que foram pintando durante os ensaios, como é o caso da faixa dois, que veio com força já de cara, e logo já estava praticamente pronta. Ambas ganharam alguns toques no momento da gravação e só depois das duas prontas é que houve a ligação de que elas poderiam ser lançadas de forma conjunta.


ON: O cenário de pandemia influenciou de alguma forma no processo criativo da banda ou vocês já costumavam criar em "isolamento"? 

Geralmente, o processo de composição acontece nos ensaios. Alguém traz a ideia inicial e a partir disso todos ficamos livres para sugerir arranjos, melodias e ritmos. Às vezes, são ideias de vertentes distintas, mas que acabam resultando, de certa forma, em algo original, mas com um pouco de cada integrante. Dá pra dizer que o embrião vem do isolamento, mas a peça final vem depois de muito debate.


ON: O que serviu de influência para o novo trabalho?

A inspiração vem, antes de mais nada, do prazer em tocar, expressar ideias através do som. Esse é provavelmente o ponto em comum a todos. Cada integrante tem sua bagagem, influências e linguagem dentro da música. Claro que tem coisas que são unânimes em questão de influência, porém buscamos sempre que todos estejam à vontade de propor ideias para que toda música tenha a cara de todos.

É sempre complicado falar de influências, pois corremos o risco de deixar alguma de fora, mas basicamente Gilberto Ben Roberto surgiu a partir da influência de sons próximos à bossa nova – não diretamente, mas um reflexo disso – e também relacionado ao timbre do violão de nylon, que era algo que não havíamos explorado ainda. A partir disso, foi se criando um contexto que permitiu juntar essas referências com ideias mais oníricas, ambiências e camadas. Já Baby Johnson Cavernícola vem de referências mais voltadas ao surfmusic, reggae e dub, com uma virada de clima ao final. Essas referências volta e meia aparecem durante os encontros, então acabou sendo natural irmos por esse caminho, mesclando com elementos de outras vertentes mais voltadas ao rock, principalmente na parte final.


ON: Como vocês procuram absorver e aplicar essas inspirações sem perder a originalidade do som?

Nós quatro temos hábito de ouvir muita música, de diferentes vertentes e referências. Isso acaba gerando uma percepção mais abrangente de composição e arranjo. Outro ponto que levamos em consideração é o de tentar criar algo novo, embora seja complicado afirmar isso, que fuja das regras básicas de cada estilo. É a soma das influências convergindo para um novo caminho, ao menos pra nós.


ON: De que forma "Miragem" se liga com a arte da capa (feita pela artista Muriê Kümmetz Troglio)?

A ligação da arte da Muriê com os nossos sons vem da proximidade dela com a banda, seja nos ensaios, nas produções fotográficas e audiovisuais. Quando passamos pra ela a necessidade da criação de uma arte que representasse os sons, ela se baseou nas ideias e sensações que cada um dos quatro integrantes tinha a respeito dos sons. A arte traduz as duas músicas do single "Miragem" em um universo visual sobre relações internas, desejos e estados mentais, interligados por memórias e construções filosóficas. A artista fez uma imersão entre diferentes realidades e retratou a capacidade humana de interagir, manipular e criar a partir de fragmentos.



Coincidência ou não...

O lançamento de “Miragem” acontece no mesmo dia em que a também passo-fundense Los apresenta ao público um remix do single “Todo Mundo Precisa de Alguém”, em parceria com o músico Pedro Petracco. Assim como o título e a arte de capa em que duas mãos se tocam, feita pelo artista visual Ema Machado, a canção poetiza as mais variadas formas de amor. Desta vez, de forma remixada, com colagens que evidenciam sons, timbres e até mesmo emoções que ficaram de certa forma escondidas na versão original. O lançamento é feito pelo 180 Selo Fonográfico.

A coincidência de datas, embora não seja proposital, evidencia a amizade de longa data e as vivências em comum entre as bandas – desde os cenários pelos quais circulam e as amizades que compartilham, até a guia de um mesmo selo. “A coincidência também se dá em função da constante produção que as duas bandas têm tido nos últimos meses. Mesmo em um contexto de pandemia e isolamento, ambas conseguem manter, na medida do possível, a produção e cronograma de lançamentos”, explicam os músicos Télbio e Guilherme. Assim, se a situação de pandemia não contribui para que a Assoalho de Órbita e a Los Marias voltem a dividir um mesmo palco, resta às duas conservarem o cenário autoral da cidade pulsando através de plataformas virtuais – por enquanto.

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