As condições do tempo oscilam entre o previsível e o inesperado. De um lado, as previsões do quadro através da meteorologia. De outro, ocorrências extremas que resultam das adversidades do próprio planeta. Porém, entre um lado e o outro, está o embasamento científico através do conhecimento. “Os registros estão cada vez mais frequentes e mais intensos, isso é um alerta”, enfatiza o pesquisador Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo em Passo Fundo. Para melhor compreensão, ele alerta que “esses registros são comuns das estações de transição, a primavera e o outono”.
Episódios catastróficos
Nas últimas décadas, a Região Sul teve registros de episódios catastróficos. Em 2008, ocorreu a grande enchente do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. No ano passado, foi no Rio Grande do Sul no final de abril e início de maio, quando houve uma enchente classificada como a maior tragédia da história do estado. Recentemente, tragédia no Paraná. Agora, nos últimos dias, novas condições extremas atingiram a região. No domingo, Erechim sofreu com a chuva de granizo de grandes dimensões, que resultou em 200 feridos e imensas perdas materiais. Segunda-feira, 32 cidades de Santa Catarina foram atingidas por chuvas torrenciais. Também na segunda-feira, teve ocorrência de granizo na região de Ibiraiaras. Todos, registrados em estações de transição.
Nuvens de desenvolvimento vertical
“Primavera e outono são mais propícios para isso no Sul do Brasil. São períodos muito associados à formação de nuvens de desenvolvimento vertical, cujo topo chega na linha da troposfera, a 10 ou 12 quilômetros de altura”, explica Gilberto Cunha. O detalhe é que nessa altura a temperatura é muito diferente da registrada no solo. “No topo das nuvens há gelo e temperatura de -50ºC. Pela circulação interna da formação, estão gotas de água em condensação com partículas sólidas como poeira, pólens etc. O material se sustenta na nuvem através de correntes convectivas”, detalha Cunha.
Convecção e gravidade
Até aí a física, através da convecção, explica os movimentos internos nas grandes nuvens de desenvolvimento vertical, como as famosas CBs – as Cumulonimbus. E, então, porque ocorrem as precipitações de granizo? “Cada vez que esse vapor chega ao topo da nuvem ele congela e vai formando camadas, como, por exemplo, uma cebola. Isso até que, pelo peso, a gravidade acabe com a sua sustentação e acaba caindo em forma de gelo. E o granizo pode ter grandes dimensões, dependendo desses fatores, como foi o caso que ocorreu em Erechim”, elucidou o pesquisador.
O aquecimento global
Enchentes e tempestades de granizo vêm tornando-se cada vez mais frequentes e, ainda, em maior intensidade. Mais uma vez, as didáticas palavras de Gilberto estão associadas às velhas leis da física, com base na convecção e evaporação. “São eventos que ocorrem diante do cenário de mudanças no clima global. Isso é um alerta. Com a atmosfera mais quente, pelo aquecimento global, consegue reter mais vapor d’água e, consequentemente, aumentam as chuvas internas. São e serão cada vez mais frequentes”. Enfim, o agrometeorologista repetiu um alerta, também cada vez mais frequente, que reafirma o aquecimento global.


