OPINIÃO

Os peixinhos de David Foster Wallace

Por
· 3 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?

Foi no discurso que pronunciou como paraninfo da turma de 2005 do Kenyon College que David Foster Wallace (1962-2008) deu a conhecer a história dos dois peixinhos. O brilhante professor de escrita criativa e consagrado autor de “Graça infinita” (Infinite jest, de 1995) começou, em tom de anedota, contando: Dois peixinhos estão nadando lado a lado e cruzam com um peixe mais velho que vem nadando no sentido contrário. Esse os cumprimenta: “Bom dia meninos. Como está a água?” Os dois peixinhos seguem em frente, até que um deles olha para o outro e pergunta: “Água? Que diabo é isso?”

Na explicação de Wallace: “O ponto central da história dos peixes é que as realidades mais óbvias, onipresentes e fundamentais são com frequência as mais difíceis de ver e conversar a respeito”. Então, não foi por outra razão que Bill Gates embasou nessa história a justificava da sua proposta de solução e o apontamento das inovações necessárias para se lidar com a complexa questão da mudança do clima global, postos no livro “Como evitar um desastre climático”, lançado em 2021. Os combustíveis fósseis são como água para peixes. De tão imersos que estamos no mundo movido a energia e produtos derivados de combustíveis fósseis sequer atentamos para o fato. É por isso que, Bill Gates, sem qualquer condescendência, ousou propor que devemos não almejar outra meta de redução de emissões de gases de efeito estufa que não seja zero. Eis o tamanho do desafio: passar de 51 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa que o mundo lança na atmosfera anualmente para zero. E o caminho apontado, em se tratando de Bill Gates, não poderia ser outro que não a via da inovação tecnológica.

O discurso de David Foster Wallace aos formandos do Kenyon College, depois do suicídio do escritor, virou uma das suas obras mais populares. Sob o titulo “Isto é água” (This Is Water) foi incluído, postumamente, na coleção de contos "Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo". É visto como uma espécie de ode à empatia. E, apesar de elogiado, também mereceu criticas, pelo excesso de clichês e pela tendenciosidade à autoajuda. Wallace subiu o tom com o mantra da formação das ciências humanas, que sempre aparece nos discursos de formatura, travestido na alegação de “ensinar a pensar mais do que enfiar conhecimento nas cabeças dos alunos”. Essencialmente, apontou a necessidade de libertarmo-nos do egocentrismo que nos coloca como se fôssemos o centro do mundo e nos deixa prisioneiros de certezas que acabam se revelando equivocadas e ilusórias. Insiste que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor e que devemos lembrar-nos disso, repetindo sempre: “Isto é água. Isto é água”.

Enfim, David Foster Wallace, depois de uma batalha de décadas contra depressão e vícios como alcoolismo, maconha e outras drogas desistiu da vida. Na noite de 12 de setembro de 2008 foi encontrado enforcado na garagem da casa onde morava na Califórnia. Escritor genial, não seguiu a receita do seu discurso aos formando do Kenyon College, na parte que falou “não ser mera coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre atiram na cabeça. Eles atiram no terrível mestre”. Optou por uma corda.

A lição dos peixinhos de David Foster Wallace, magistralmente usada por Bill Gates, no tema da mudança do clima global e suas causas, também se aplicaria à atual pandemia da Covid-19? Aparentemente, sim. Enquanto a vacinação em massa não ocorre no mundo e uns tem a clareza que a higienização das mãos, o uso de máscara e a manutenção do distanciamento social podem desacelerar a disseminação do vírus, outros vivem sem qualquer cuidado (consigo próprio e com terceiros) e, ao serem questionados sobre as suas atitudes e a ameaça da Covid-19, ao estilo dos “peixinhos de Wallace”, indagam-se: “Covid-19? Que diabo é isso?”

Covid-19! Eis uma ameaça real, óbvia, onipresente e de tão difícil diálogo entre as partes interessadas. Mais fácil negar e demonizar culpados. Enquanto isso se prolonga o sofrimento e perpetua-se a crise econômica.

Gostou? Compartilhe