OPINIÃO

Dedico a vocês meu talento

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Quem estiver, minimamente, familiarizado com a cena literária latino-americana contemporânea, mais especificamente com a obra de Mario Vargas Llosa, acredito que, até com relativa facilidade, não deixará de associar o título dessa coluna, “Dedico a vocês meu talento”, com o título do último romance do laureado escritor peruano, “Dedico a você meu silêncio”. E a designação de “último romance”, posta aqui, não é mera expressão de ocasião, pois o próprio Dom Mario deixou explícito que, depois desse livro, só gostaria de escrever um ensaio sobre Sartre, que foi seu mestre na juventude, sendo essa a última coisa que iria escrever. Mas, qual a relação entre a aludida obra de Vargas Llosa e o tema dessa coluna?

Talvez seja a comunhão que há entre o fio condutor do romance de Vargas Llosa e a exploração da sonoridade que resulta da união de influências das culturas indígena, africana e europeia, que o músico passo-fundense Ghadyego Carraro, a partir da pesquisa que fez para a sua tese de doutorado em História pela Universidade de Passo Fundo, materializou no aplaudido álbum Anhum, uma espécie de tributo aos povos originários das Américas. Na ficção de Vargas Llosa, o sonhador Toño Azpilcueta, ao embarcar em uma jornada pelo Peru, para escrever um livro sobre o virtuoso violonista Lalo Molfino, ficaria arrebatado pela tese de que a música que surgiu nas ruas mais pobres de Lima foi a responsável pela união do povo peruano. E, para Ghadyego Carraro, quando se trata de música, fronteira, nas Américas, é unidade e não divisão. E mais: se o fictício Lalo Molfino, o maior violonista do Peru, morreu em completo anonimato, o real Ghadyego Carraro, um virtuoso do contrabaixo, ainda clama por maior reconhecimento, especialmente na esfera local.

Ghadyego Carraro nasceu no Bairro São Cristóvão, em Passo Fundo. Filho do Seu Estevão e da Dona Rosa. Marido da Luciana Biazus, para quem compôs a balada For you Lu, a quarta faixa do sexto e mais recente álbum, Anhum, e pai da Anna Caroline, a inspiração da música Carol, presente no seu primeiro álbum. Começou a estudar violão aos 14 anos. Migrou para o contrabaixo. Licenciado em Música pela UPF (2010), realizou aperfeiçoamento musical na Itália (2011), Mestre em Música pela UFG (2015) e Doutor em História ela UPF (2020), além de possuir licenciatura em História e especialização em Ensino de Filosofia e Sociologia pelo Centro Universitário UniBF. Tomou classes com contrabaixistas renomados como Marcos Machado (EUA), Paulo Russo (RJ), Arismar do Espírito Santo (SP), Alexandre Rosa (OSESP), Barry Grenn (EUA), Tierry Barbé (FRA), Juan Pablo Navarro (ARG), entre outros. É professor de baixo acústico e elétrico, além de outras áreas do ensino musical.

Ghadyego tem desenvolvido trabalhos que combinam elementos da música de concerto, música sul-americana, música popular brasileira e jazz, mantendo colaborações com artistas de diferentes partes do Brasil, América Latina e Europa. Já se apresentou na Itália (2018), França (2019), Suíça (2019), Portugal (2019), Alemanha (2019) e em várias capitais brasileiras. Entre os anos 2021/22 viveu em Lisboa, Portugal, onde atuou como pesquisador colaborador no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa, pesquisando o campo da iconografia musical na música brasileira e sul-americana. E, não obstante esse currículo, talvez não sejam muitos os passo-fundenses que ouviram falar de Ghadyego Carraro.

O contrabaixista Ghadyego Carraro deixa bem-evidenciadas as influências, no estilo de tocar esse instrumento, que recebeu dos músicos brasileiros Ronaldo Saggiorato, Arthur Maia e Nico Assumpção; e dos contrabaixistas de jazz Paul Chambers, Ray Brown, Eddie Gomez, John Patitucci, Avishai Cohen. O seu alvo é trilhar o caminho de artistas renomados que começaram em Passo Fundo, como Alegre Corrêa, Ronaldo Saggiorato e Guinha Ramirez. E, tudo indica, assim será!

Ao leitor ainda intrigado, sobre a frase que dá título ao livro de Vargas Llosa, essa teria saído da boca de Lalo Molfino que, ao ser despedido da banda de Cecilia Barraza, por quem estaria apaixonado, apenas teria dito “dedico a você meu silêncio” (le dedico mi silencio), se afastando para morrer no ostracismo. Enquanto isso, faço minhas as palavras do jornalista e crítico musical Juarez Fonseca, ao frisar, que “pelo trabalho que realiza, Ghadyego Carraro já merecia ser bem mais conhecido”. Portanto, enquanto aguarda esse reconhecimento, não nos parece descabido imaginar que, por intermédio da sua obra, Ghadyego Carraro, humildemente, esteja nos dizendo “dedico a vocês meu talento”.

SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura

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