Nas memoráveis quatro aulas que Ricardo Piglia (1941-2017) proferiu pela TV Pública em parceria com a Biblioteca Nacional da Argentina, em setembro de 2013, disponíveis no YouTube e reunidas no livro “Borges por Piglia” (Eterna Cadencia Editora, 224 p., 2024), na primeira delas, são intentadas as respostas para o que significa ser um bom escritor e por que, sem deixar margem para dúvidas, Jorge Luis Borges é um bom escritor. A proposta de transposição de um curso universitário de literatura para a televisão aberta só foi exitosa pelo carisma, conhecimento e habilidades de comunicação de Piglia, que teve passagens como professor pelas universidades de Buenos Aires, Harvard, Califórnia/Campus Davis e foi professor emérito da Universidade de Princeton, além de autor de diversos livros.
Ricardo Piglia, depois de breve saudação, inicia com as perguntas por que Borges é um bom escritor? Que significa ser “um bom escritor”? Deixando de lado os estereótipos, eis questionamentos cujas respostas exigem, além de conhecimento da obra de Borges, no que diz respeito à pergunta sobre ele, certa reflexão e elaboração intelectual, ainda que não se possa ignorar preferências pessoais, pois, nesse aspecto, nossos gostos tendem a suplantar racionalidades. Mas, insiste Piglia, no que diz respeito aos escritores, o único que sabem é o que não querem escrever, pois o que gostariam de escrever nem sempre conseguem. Do contrário, se cada escritor pudesse escrever o que gostaria de escrever, obras-primas, como “A Divina Comédia”, “Dom Quixote”, “Hamlet” e “Dom Casmurro”, apenas como exemplos, ditariam o tom do mercado editorial de livros.
Borges, na visão de Piglia, foi o escritor que chegou mais próximo do ideal de conseguir fazer o que queria fazer. Evidentemente, referindo-se às obras-primas escritas nos anos 1940, quando, com “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “El Aleph”, apenas como exemplos, inventou ou criou um novo modelo literário. Um legado de inspiração para que outros, a partir do procedimento borgiano, também pudessem fazer algo parecido. Esse é o cume alcançável por um escritor. Algo tipo ter inventado o soneto, destacou Piglia. Ao inventor do modelo do soneto, na poesia, dever-se-ia tecer loas mais do que a qualquer poeta renomado. A razão é simples, se alguém não tivesse inventado a estrutura do soneto, não seria renovável o estoque de poemas no formato clássico dos 14 versos, divididos em dois quartetos e dois tercetos.
A ficção de Borges seria do tipo especulativa ou literatura conceitual. Não há necessidade do texto escrito, apenas a ideia de como poderia ser escrito, pois outra pessoa, se quiser e tiver habilidade, poderia escrevê-lo. Inventou, de certa forma, o que ele chamou de literatura fantástica, que não deve ser confundida com a literatura de fantasmas, vampiros e toda sorte de mortos voltando para atemorizar os vivos, surgida, na Europa, entre meados do século XIX e começo do XX.
A inversão da lógica literária, em vez de usar a realidade na ficção, como reza a tradição, trabalhar a ficção na realidade, foi o grande mote intelectual da literatura produzida por Jorge Luis Borges. Ao desenvolver essa tese, Piglia vale-se da tradução de uma frase de Valéry que diz “não se pode governar com pura coerção, são necessárias forças fictícias”. A ficção, como parte da literatura de Borges, não é verdadeira e nem falsa, simplesmente, não é verificável. E, acima de tudo, destaque-se a concisão dos escritos de Borges, que costuma ser preciso ao extremo, dizendo tudo que há para ser dito em poucas linhas. Nesse aspecto é um cânone. Os seus textos são breves. Seus livros são conjuntos de textos esparsos reunidos para justificar um volume. Nunca escreveu um romance. Foi magistral em ensaios e contos, além de poeta de escol.
Borges definia escrever como uma forma de liberar ideias. Não conseguia entender pessoas para as quais escrever era uma tortura. Para essas tinha um diagnóstico simples: não é essa a sua vocação. Que escrever deve ser sempre um prazer, mais além do valor do que se escreve. E que todo (bom) escritor vai se despojando de tudo que possa parecer barroco e tende à simplicidade, na busca de textos cada vez mais simples, fechando, com sua peculiar ironia, até que, finalmente, todas as páginas serão páginas em branco.
Jorge Luis Borges sentenciou que todo escritor deixa duas obras: uma a escrita; outra, a imagem que fica dele. O que só reforça a definição de escritor conceitual por natureza, construída por Piglia. Além das obras escritas, a figura pública, o olhar clássico do cego e suas mãos postas sobre a bengala, o conferencista magistral, capaz de dialogar com públicos diversos, identificável em qualquer lugar do mundo.
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