OPINIÃO

Conjuntura Internacional

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Nos meados da pandemia, muito se escutou a frase “economia a gente vê depois”, ao mesmo passo em que medidas, no mínimo estranhas, eram adotadas, com diversas formas de privações individuais e sociais, sequer imaginadas por Orwell, em um de seus clássicos, o “1984”. Na época da emergência pandêmica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tardou substancialmente o alerta sanitário global, enquanto os aviões lotados ainda saíam de Wuhan, na China, desembarcando pessoas infectadas pelo mundo todo. Mesmo assim, o Brasil e demais governos demoraram para adotar os tais “gabinetes de crise.” Há de se destacar também que a crise se anunciava há semanas. O mesmo efeito de crises anunciadas, agora, chegou com mais força, na área econômica. Todavia, com uma diferença brutal: desde o início do ano, quando é normal identificarmos os riscos políticos vindouros, esta coluna (e vários outros especialistas e consultorias), alertavam para a guerra tarifária no âmbito comercial, que Trump iria dar curso. Assim, as economias tinham meses para se preparar para possíveis cenários (aumentos tarifários e possíveis retaliações). Algumas economias o fizeram, e atualmente lograram algum êxito na negociação). No Brasil, parece que o mote de esquerda de outrora (a economia a gente vê depois), tenha se transformado no mote atual da esquerda em relação às tarifas de Trump: (a crise a gente vê depois).

Despreparo

Lula não está preocupado com a crise sem precedentes em que coloca o Brasil. Ao continuamente adotar um discurso ideológico, sem ainda ter desistido da narrativa da desdolarização da economia, piora ainda mais a situação. O tal “gabinete de crise”, que deveria já estar em funcionamento há meses, foi criado às pressas, sem qualquer estratégia. Nos últimos meses, o que a política externa, coordenada por Celso Amorim, fez, foi apenas aderir de forma subserviente às ditaduras mais depressivas do mundo, se curvando a ditadores. A crise se anunciava, e o Brasil tem nos Estados Unidos o seu segundo maior parceiro comercial.

Venezualização

No Brasil, parece não haver uma cultura de antecipação de cenários, e isso vale ao Executivo federal, estadual e municípios, todos afetados direta ou indiretamente com mudanças bruscas no comércio internacional. Deveria, em todos os âmbitos, haver esse gerenciamento de riscos, para que os “gabinetes de crise” não sejam criados após as crises! – visto que, durante o recebimento da carta de Trump, a mobilização foi tardia. Os Estados, com seus “gabinetes de crise”, discutem mais os efeitos do que a necessária antecipação do problema e desenvolvimento do advocacy necessário. Para Lula, agravar a crise parece ser a melhor estratégia, para que possa culpar futuros contendores eleitorais. Enquanto isso, o Brasil perde, setores econômicos são prejudicados e os cálculos das principais federações são um alerta. Não se preparar para uma crise com objetivos escusos não é o mesmo que não se preparar por falta de estratégias de cenários e foresight. O primeiro caso é doloso (e substancialmente ideológico); o segundo, culposo – a União, bem como os Estados, devem estar sempre preparados às crises que se anunciam, mas a cultura no geral não favorece. Hoje vemos, lamentavelmente, o cenário triste de um impacto que poderia ter sido mais bem gerenciado, mas com um presidente disposto a “venezualizar” o Brasil – tudo fica difícil. Mas, “a crise a gente vê depois.”

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