OPINIÃO

Conjuntura Internacional

Por
· 2 min de leitura
Você prefere ouvir essa matéria?
A- A+

Estava tudo pronto para o início da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas e os discursos dos líderes internacionais, cada um com sua angústia particular de levar ao mundo sua imagem e propósito. O Brasil, por costume, tem sido o primeiro a se manifestar, pelo peso que a diplomacia deste país já teve outrora. O próprio Oswaldo Aranha, um alegretense, foi decisivo para o sucesso da aprovação da Resolução 181, que inaugurou a partilha entre Israel e Palestina, após anos do mandato britânico. Isso deu um legado diplomático ao Brasil, sentido até hoje. Todavia, muito distante da chancelaria do passado, a atual política externa de Lula expõe o quanto um governo pode depreciar a diplomacia, alinhando-se com interesses escusos e não com os da Nação. O discurso de Lula foi um arremedo de como o próprio governo estruturou-se: sem projeto, ideia, propósito, enfim, uma miríade de coisas desconexas, prontas apenas para reverberar a ideologia e os sonhos de Lula e Amorim.

Trump

Ao chegar às Nações Unidas, Trump se depara com o obsoletismo gritante da Organização. A escada rolante deixa de funcionar assim que Trump coloca o pé. O teleprompter também não funciona. Uma sinfonia perfeita para Trump iniciar o seu discurso, que era sabido, seria crítico à ONU. Trump disse que acabou com sete guerras desde que assumiu, sem qualquer ligação ou intermediação da ONU. Quanto às guerras, não seria tão simples assim, mas a certeza que fica é: o que faz a ONU para tentar encerrar guerras? Trump demonstra que é preciso mais do que “declarações”: ele tem tomado ações, mostrando, na prática, o que o sociólogo Raymond Aron definiu em sua obra magna como “Paz de Potência” (quando uma superpotência assume o papel de tentar fazer valer algum tipo de paz relativa), reequilibrando o sistema internacional.

A surpresa

Depois de seu discurso, Lula achava que sairia sem qualquer contato com Trump, que estava na antessala, inclusive observando o seu discurso. Nem aí houve iniciativa brasileira no contato com os EUA: foi Trump quem provocou Lula para que se posicionasse, com uma pergunta simples: pode ser na semana que vem? Enquanto Trump discursava, tomou a comitiva de surpresa ao relatar o encontro com Lula e seu convite, deixando-a desorientada. Não demorou para que, em seguida, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, ao conceder entrevista à CNN Internacional, já “torcia”, em segredo, para que o encontro fosse trocado por uma conversa telefônica. Desde então, muitas variáveis entram em jogo nos bastidores e se fala, inclusive, da possibilidade de um encontro presencial, que, no plano político, não é controlável, ainda mais com Trump em posição muito mais confortável. Deixar Lula solto no Salão Oval é um risco muito alto ao que resta da diplomacia no Brasil.

Cartas no jogo

Nesse encontro, é inevitável que Lula saiba jogar com as cartas que tem. No plano tarifário, seria necessário passar um pente-fino nas taxações demasiadas de alguns produtos americanos. No plano econômico e de concessões, levar em conta que o Brasil é a segunda maior reserva de terras raras no planeta (aqueles elementos [químicos] difíceis de extrair). No plano político, tudo está perdido para o Brasil. Que vitória Lula traria? Ou seria mera “lacração”, que, pelo vernáculo, denota ser uma autodestruição diplomática.

Gostou? Compartilhe