Na semana passada, comentamos aqui no Jornal O Nacional sobre o manifesto de um grupo de especialistas, incluindo os chefes da OpenAI e do Google Deepmind. Eles alertaram que a inteligência artificial (IA) pode levar a humanidade à extinção. Esse risco tem a ver com os perigos da submissão do homem à técnica. Nos livros Razão e Revolução (1941) e O Homem Unidimensional (1967), Herbert Marcuse premonizou que “o progresso técnico continuará a manter a dominação do homem pelo homem através da imposição de atividades tecnizadas alienantes”. Entretanto, nos discursos de especialistas e estudiosos há o reconhecimento da importância da Inteligência Artificial, com vozes entusiasmadas que confiam que as virtudes desta ferramenta poderão superar os seus defeitos. Nesse sentido, Javier Cremades é otimista e acredita que “a internet pode ajudar a nós, indivíduos, as entidades realmente dotadas de razão, a progredir no conhecimento e no domínio do mundo, e, também, no mundo interior de cada pessoa”. No jornal The New York Times, Kevin Kelly esclareceu que “um bit é a menor unidade de informação computacional: 0 ou 1. Combinando-se 8 bits, obtemos 1 byte, considerado a base da linguagem computacional, já que existem 256 diferentes combinações de 8 bits possíveis e pode-se designar a cada byte um significado (uma letra ou um outro signo alfanumérico). As unidades superiores são o megabyte (MB: 1024 bytes), o gigabyte (GB: 1024 MB), o terabyte (TB: 1024 GB); o petabyte (PB: 1024 TB), o exabyte (EB: 1024 PB), o zezabyte (ZB: 1024 EB) e o Yottabyte (YB: 1024 ZB)”. Diante destes números todos, Javier Cremades, em “Micropoder: A força do cidadão na era digital”, assinala que em 50 petabytes poderia ser armazenado tudo o que a cultura humana produziu em toda a sua existência, o que caberia em um edifício do tamanho de uma biblioteca de um pequeno povoado. O assustador destes números é que a tecnologia do futuro, no ritmo atual da evolução dos meios digitais, poderia reunir em um único iPod todas as bibliotecas do mundo. Isso quer dizer que neste momento da história, todo o conhecimento do mundo em que vivemos, produzido por todos os homens em toda a civilização, poderia ser guardado no bolso ou na carteira. Há os que sustentam que, em breve, possa ser implantado um chip no cérebro humano e conectado ao pensamento das pessoas todo esse conhecimento. Estes dados revelam a distância entre a capacidade do pensamento humano e o poder de concentração de saberes e informações das máquinas.
É PRECISO TER CUIDADO
Por outro lado, existem riscos de danos incontroláveis que se relacionam a alteração dos tecidos sociais e a vida dos cidadãos em sentido negativo, divulgação de conteúdos nocivos, desinformação, intimidação, ódio, movimentos que minam a segurança e a dignidade das pessoas, ao mesmo tempo que dividem as pessoas e desestabilizam a democracia. Seja como for, é inegável que o homem não tem atualmente controle sobre o impacto que esta transformação digital disruptiva produz e produzirá, e apesar da tecnologia não ser um ente ou ser detentor de ideologia, está sob a tutela de forças incontroláveis pela sociedade e governos, colocando em risco a liberdade de escolha das pessoas e as capacidades intelectivas. É necessário, portanto, discutir e pensar alternativas de regulamentação e controle de todo este poder, sem temores em relação à IA.


