OPINIÃO

SOBRE OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (2)

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Admiração e rejeição

           Admiração e desprezo pelos Estados Unidos são sentimentos muito comuns, especialmente entre nós, latino-americanos. O antiamericanismo provoca atitudes muito curiosas e até hilárias. A cantora Beth Carvalho, por exemplo, afirmou a um jornal gaúcho (Zero Hora, novembro de 2012), que a Central de Inteligência Americana (CIA) queria acabar com o samba. “É uma luta contra a cultura brasileira, os Estados Unidos querem dominar o mundo através da cultura”, disse ela. Lá pelos anos setenta existiam pessoas que se negavam a tomar Coca-Cola e que proibiam seus filhos de fazer isso. O refrigerante, preferido em todo o mundo, era visto como o símbolo por excelência do imperialismo americano. Dizia-se que, além de fazer mal, era um veneno produzido por multinacional americana. Era l’acqua nera dell’imperialismo. O Pato Donald e sua turma eram vistos como instrumentos da dominação americana, como o escritor chileno Ariel Dorfman procurou demonstrar no livro Para ler o Pato Donald

Antiamericanismo

           Nos círculos intelectuais e acadêmicos, especialmente entre adeptos e prosélitos do comunismo, ou pelos menos do anticapitalismo, o antiamericanismo sempre foi muito acentuado. Ainda sobrevive, embora com menos entusiastas. “Ser antiamericano na PUC dá mulher”, disse o extraordinário Nelson Rodrigues (1912-1980), escritor, jornalista, teatrólogo, cronista de costumes e admirável frasista. Para o escritor e jornalista francês Jean-François Revel (1924-2006), autor do livro A Obsessão Antiamericana, “a certeza de ser de esquerda está num critério muito simples, ao alcance de qualquer retardado mental: ser, em todas as circunstâncias, de ofício, passe o que passar e trate-se do que se tratar, antiamericano”.

Admiração e reconhecimento

           Roberto Campos (1917-2001) lembra que a entrada dos EUA na Segunda Guerra foi decisiva para salvar a Europa do nazismo. Nos anos seguintes ao fim da guerra, o Plano Marshall foi fundamental para reerguer a Europa e impedir o avanço do comunismo. Assim a proteção americana preservou para a Europa Ocidental e outras nações o direito de livre opção pela democracia política e a economia de mercado, opção vedada ao mundo comunista até a queda do Muro de Berlim.

           Paulo Francis (1930-1997) disse uma vez que “os americanos são o povo mais decente do mundo. Deram liberdade às Filipinas, converteram o Havaí em Estado e, a hora que Porto Rico quiser, fica livre. Mas Porto Rico não quer”. No período do macartismo, diz Francis, os americanos estavam doidinho da Silva, mas ninguém foi torturado ou fuzilado como na Rússia comunista de 1917-1985.

A dívida europeia

           Para Yves Montand (1921-1971), cantor e ator ítalo-francês, os europeus devem muito à democracia americana. “Não devemos esquecer o pão americano em 1942, em Marselha, as armas, o alimento, o dinheiro, os medicamentos fornecidos aos soviéticos que aguentavam sozinhos o choque terrestre dos exércitos hitleristas. Os soldados americanos de 20 anos mortos nas praias da Normandia para nos libertar. O jazz, as meias de náilon, a penicilina, o cinema, o rock, os McDonalds... Nada disso nos foi imposto; nós é que quisemos. (...) Temos de ser contra um antiamericanismo primário ou sistemático.”

           Muitas críticas podem serem feitas à nação americana, pois como disse o filósofo Immanuel Kant, com a madeira torta da humanidade nenhuma coisa reta foi feita. No entanto, a história da América mostra que ela nunca foi contagiada pelo fascismo e pelo comunismo, como aconteceu na Europa. Essa é uma razão por que a América ainda constitui um farol de esperança para milhares de pessoas.

E agora, José?

           A expressão do nosso grande poeta, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), pode muito bem expressar a preocupação e a angústia mundial, não apenas dos americanos, com o governo liderado por Donald Trump. Podia ser “e agora, John”? Voltaremos a falar sobre os Estados Unidos da América nas próximas colunas. Veremos que cresce no mundo a sensação de que a democracia americana está em declínio.

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