Não se martirize, caso você nunca tenha ouvido falar o nome de Eunice Newton Foote. Na história da ciência do aquecimento global, o nome dessa cientista amadora e ativista pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos da América começou a aparecer, como protagonista dessa descoberta, em livros e outras publicações, apenas a partir do início da segunda década do século XXI. Até então, as menções pretéritas abarcavam nomes como John Tyndall, Svante Arrhenius e Guy Stwart Callendar, entre outros. Isso não pode ser tomado como surpresa, pois, indiscutivelmente, até os dias atuais, no universo científico, em algumas áreas, as mulheres ainda clamam por maior reconhecimento e são minoria.
Ignora-se a razão, mas, no encontro da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), que publica a prestimosa revista Science, realizado em agosto de 1856, em Albany, NY, a comunicação “Circunstances Affecting the Heat of the Sun´s Rays”, que levava a assinatura de Eunice Newton Foote, foi lida por Joseph Henry, então diretor do recém-formado Instituto Smithsonian. Por meio de um engenhoso experimento, que envolvia cilindros de vidro equipados com termômetros, preenchidos com gases diferentes, ar seco em um e ar úmido em outro; hidrogênio em um e dióxido de carbono em outro; quando expostos ao sol, Eunice conseguiu demostrar que o cilindro com ar úmido ficou mais quente do que o com ar seco e que o cilindro com CO2 ficou mais quente do que com H2. E, ainda, que, quando removidos do sol, o cilindro com CO2 demorava mais para resfriar. A conclusão óbvia, tirada por Eunice e lida por Joseph Henry, foi que, se, em determinado período da história, a proporção da mistura desses gases ser maior do que no presente, isso, necessariamente, vai resultar em aumento na temperatura da Terra. Quase que literal com o entendimento de mudança do clima ou aquecimento global que se chegaria cerca um século e meio depois.
A descoberta de Eunice Foote antecedeu, em alguns anos, a de John Tyndall, o brilhante físico irlandês que goza do reconhecimento como o descobridor do efeito estufa. Tyndall, em experimento de 1859, estudou a transmissão de calor e da luz através de vários gases. Identificou que o vapor d`água e o dióxido de carbono absorvem mais calor radiante do que a maioria dos gases da atmosfera e inferiu sobre a importância desses gases na regulação do clima da Terra. Foi certeiro na descoberta da atmosfera ser transparente à radiação de ondas curtas, do Sol, e absorvedora das radiações térmicas de ondas longas, da Terra, que, em essência, pelas trocas de ondas longas entre a atmosfera e a superfície terrestre, vai se configurar o efeito estufa natural e a sua intensificação o aquecimento global.
Ainda, foi apenas em meados da última década do século XIX, que o cientista sueco Svante Arrhenius sugeriu, diante do aumento do consumo de carvão pelo advento da Revolução Industrial, a possibilidade da duplicação de CO2 na atmosfera aumentar a temperatura terrestre entre 4,0 e 5,0 ºC. Arrhenius não viu motivos para alarmismo, uma vez que, pelas taxas de emissão da época, isso poderia levar uns 500 anos para acontecer. Portanto, o nome de Arrhenius aparece nesse tema algumas décadas depois de Eunice Newton Foote.
E, mais tarde ainda, no final dos nos 1930, o meteorologista amador Guy Callendar, usando série de dados de 147 estações ao redor do mundo, foi assertivo ao afirmar que a queima de combustíveis fosseis estava aquecendo a Terra, podendo chegar, em 50 anos, a um valor da ordem de 3,0 ºC. Callendar, tal qual Arrhenius, não foi pessimista com a sua descoberta, antevendo maior facilidade para a expansão da agricultura na região temperada e diminuição do risco de uma nova idade do gelo. Evidente que Arrhenius e Callendar ignoravam as conexões oceano-atmosfera, que seriam descobertas mais tarde, e as perturbações climáticas extremas associadas ao redor do mundo.
Os argumentos de Guy Callendar, nos anos 1950, chamaram a atenção de cientistas como Roger Revelle e Hans Suess, do Instituto Scripps de Oceanografia. Embora ambos, em artigo de 1957, tivessem sido céticos, ao defenderem a tese de que uma molécula de CO2 permaneceria no ar por 10 anos no máximo, antes de ser dissolvida e absorvida pelos oceanos. Ignoraram que os oceanos tinham limites. Mas, foi o próprio Revelle quem direcionou financiamento para a medição desse gás na atmosfera, com início em 1958, em Mauna Loa, no Hawaii, usando os equipamentos de monitoramento desenvolvidos por Charles David Keeling. Nascia ali umas das mais icônicas figuras da ciência do clima, mostrando, inequivocamente, desde então, a elevação da concentração de CO2 na atmosfera, partindo dos 313 ppm, em 1958, até os atuais 430 ppm (em 18 de fevereiro de 2026).
A falta de reconhecimento do papel das mulheres na história dos avanços da ciência, não é algo raro. Então faça a sua parte, ao falar da ciência da mudança do clima, antes dos nomes de Tyndall, Arrhenius e Callendar, pelo menos desses, inclua Eunice Newton Foote. Eu me penitencio por ter cometido essa falha antes.
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