É bonito o conto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no também bonito O Livro dos Abraços, sobre o menino que, ao ver o mar pela primeira vez, depois de mudo de beleza, gagueja trêmulo ao pai: “Me ajuda a olhar!”
Minha lembrança mais remota do mar remonta à primeira infância, estranhando a textura granulada da areia quente sob os pés e fugindo aflito das marolas de espuma que quebravam roucas e inofensivas na beira, repuxando à superfície o sossego das tatuíras — no mesmo assombro que, já adulto, pressentiria ao ler Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne.
A memória do mar, por esse fatalismo geográfico que nos habita os invernos do espírito, chega sempre mareada de vertigem; nela somos mais leves e selvagens à deriva do que fincados em terra firme, mais insolentes e descontraídos do que permite o cotidiano gris do minuano que nos persiste.
É um contraponto brutal ao que podemos ser pelo resto da vida; pisando as folhas craquelentas dos plátanos da Praça Tamandaré no outono, baforando o vapor gélido da Moron no inverno e espirrando o pólen do azevém que sopra das perimetrais nos princípios de outubro.
O escritor argentino Jorge Luís Borges define o gaúcho como um marinheiro de terra firme. O cavalo é o seu navio e o Pampa, o seu oceano. Sua vida é definida pelo movimento, pelo horizonte infinito e pela solidão absoluta de quem navega em um espaço onde nada o detém.
Borges, embora argentino, não costumava veranear em Balneário Camboriú.
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Garibaldi é meu herói farroupilha predileto.
Em pleno inverno de julho de 1839, ele arrastou seus barcos por terra com destino à Santa Catarina, no que talvez seja uma das passagens mais extraordinárias da Guerra dos Farrapos. Ao vencer os noventa quilômetros de navegação terrestre, entretanto, o lanchão Rio Pardo sucumbiu antes de ser naufragado pelas honras do mar. Restou-lhe o Seival, a única e brava embarcação sobrevivente da travessia campestre. Foi com ele que o herói dos dois mundos forçou a barra de Laguna, convertendo um esforço de guerra tão épico quanto efêmero no que hoje convencionamos chamar de apenas verão.
No verão, a exemplo de Garibaldi, somos todos marinheiros farroupilhas, determinados a tomar por terra o que nos é de oceano.
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A imagem que me encerra mais este fevereiro escaldante, entretanto, não remete ao sol dos litorais, mas à noite recente de chuva incidental, rajada por uma ventania tão breve quanto assopro e tão ríspida quanto tormenta.
Um vento de través redemoinhou lá pelas bandas do Boqueirão e, por pouco, não tombou a Caravela contra o asfalto liso da avenida central.
Não fosse pela bravura e destreza do marujo indigente, que sustentava firme da proa seu timão imaginário antes que cessasse em definitivo o efeito da aguardente.
A cada nova onda inventada que subjugava, erguia ao céu sua garrafa, num mesmo delírio que misturava Camões e Cabral.
Nem a frota inimiga de automóveis seminovos que o cercava pelas vitrines das margens da calçada parecia convencê-lo de rendição. Ao oposto: navegava de vento em pompa, encalhado sobre o canteiro, embora o horário facilitasse muito o trânsito sentido centro pela pista convencional.
Não se sabia ao certo se vinha dos lados de Carazinho ou de Soledade. Não se sabia sequer se de fato lembrava, ou se apenas inventava alguma memória embriagada que supunha o mar.
Ao pé do monumento, até antes estranho à paisagem sem maresia da cidade, cambaleava sobre a imensidão da grama rente um seu amigo que lhe manobrava o sentido com os braços agitados de flanelinha.
Atracou, por fim, no porto seguro das ruas em que sobrevivem aos seus destinos.
Seguiram às gargalhadas, ecoando Pompeu e Fernando Pessoa pela noite escura.
Cientes de que, se navegar é preciso, viver não é preciso.


