OPINIÃO

Teclando - 11/03/2026

Memórias da memória

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Memórias da memória

A memória é a dádiva que a criação nos permitiu. Memória significa um banco de dados que conhecemos como lembranças. Boas ou ruins, são registros pessoais que, por mais íntimos que sejam, também são históricos. Sei muito do que vivi, inclusive com alguns detalhes quase absurdos.

Meus registros não têm conotação particular ou autoral. Obviamente, interessantes para mim. Provavelmente, bobagens para os outros. No entanto, essas lembranças são importantes para não permitir que distorçam a história. E, já que a borracha da ignorância pode cair em péssimas mãos, minhas recordações ganham um peso de grandeza.

A história vai além das salas de aula, está nos livros, bancos de dados, nos prédios preservados e, especialmente, em nossas memórias. A história oral é um caminho fundamental para resguardar o passado: causos nas tertúlias de noites frias ou contadores de história no árido sertão.

Além das mentiras politiqueiras explícitas, seguidamente, detecto a distorção dos fatos nas buscas por IA e mesmo em algumas publicações. Nesses casos, o corretor é a minha memória repleta das informações que presenciei, vivi, conheci ou escutei de alguém.

Vivi as mais absurdas deformações da educação, as malfadadas reformas de ensino. E, lembro muito bem, da idiotice da tecnocracia fardada com a argumentação esfarrapada dos puxa-sacos de plantão. Vi Pelé inaugurar o Colosso da Lagoa.

Acompanhei Efrica, Jornada de Literatura, Carnaval de Rua e Festival de Folclore. Transmiti o primeiro Rodeio de Passo Fundo e a Carreta Canção. Ouvi histórias interessantes, como a da queda de um cofre em prédio na Moron em frente à Praça.

Registros da política, fissuras, censura e, é claro, as inesquecíveis aventuras da libido onde entrei e, o mais triste, as que deixei de entrar. As lembranças também provocam arrependidas lamentações.

Para minha tosca filosofia, a vida é uma caixa de papelão onde colocamos bilhetinhos sobre fatos e atos vividos. Nesta condição, sinto orgulho em ser um acumulador. Não dou muita atenção aos números que estão em minha certidão de nascimento.

O que é a idade? Não sei, porque continuo o mesmo guri. O que vale mesmo é o conhecimento acumulado.

A privataria I

Em 1960, Leonel Brizola criou a Caixa Econômica Estadual. Um orgulho exaltado pelo slogan “o cofre dos gaúchos”. Em 1997, no governo Britto, foi extinta. Brizola encampou os serviços públicos, estatizando empresas estrangeiras que exploravam os serviços de luz e telefonia. Assim, o Rio Grande do Sul contava com serviços próprios através da CEEE e da CRT. Depois, em sentido inverso, venderam a CRT (governo Britto) e, mais tarde, a CEEE (governo Leite). Com a data vênia de Elio Gaspari, isso fede à privataria. O interessante, além dos ‘interésses’ que sequer imaginamos, é que Caixa Estadual, CEEE e CRT não foram apagadas da memória dos gaúchos!

A privataria II

Dia desses, presenciei uma situação de desespero após corte de energia por atraso de pagamento. A conta foi quitada um pouco antes do corte. Então, começou uma situação de maior desrespeito ao consumidor. Aliás, como se trata de serviço essencial, uma bofetada no cidadão. Liga para 0800 e cai na malha do disque isso, disque aquilo. Digite mais algo e escolha a opção... Um saco! Mas, como se houvesse algo humano, chega a esperança de conversar por Whats. E o pobre do consumidor começa um namoro com uma máquina de bate-papo. Depois de horas de sufoco, consegue falar com alguém. A resposta é que a queixa ficará no sistema. Mas o sistema só será reaberto no dia seguinte!

A privataria III

A burocracia da falsa modernidade sequer aceitou o argumento de que uma pessoa com esquizofrenia estava passando mal. Calor, ansiedade e falta de um ventilador! Ora, essa turma das privatizações não tem sequer o contato da equipe que está nas ruas para religar a energia? Ou seja, um serviço essencial desconectado de sua essencialidade. Não há nomes, não há rostos, não existe um aperto de mão. Atendimento virtual é o equivalente a churrasco sem carne. É bom ter memória e lembrar que o Brizola tirou os fios das mãos dos estrangeiros, mas, na ânsia privatizadora, arrancaram os fios do povo. Mesmo assim, o vírus da privataria ainda contamina homens públicos. Depois dos fios, agora querem puxar nosso asfalto.

Centenário

O Centenário de O Nacional foi há 265 dias. Faltam, rasos, 100 dias para os 101 anos. Espero que sem vendedor de anúncios envolvido em rachadinha.

Pastelaria

Terça-feira, 11 horas. Aroma forte vindo da pastelaria aqui embaixo. Desta vez a fragrância era de Allium sativum. Frito, é claro.

Trilha sonora

Na memória dos gaúchos, o tema de abertura e encerramento das transmissões da TV Guaíba.

Roberto Moraes – Gauchinha Bem-Querer


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