Seu Schneider definha em odor de asco contra o espectro de gordura hidrogenada que lhe vaza cotidianamente pelo fosso do prédio e, por fim, estraga de pastel o sossego de suas fossas nasais.
É um rancor olfativo legítimo de um cronista que, por vocação e princípios notívagos, cultivou por décadas o hábito suave de inalar, em plena ladeira da Independência, os melhores aromas marcados pelo dulçor e pelas notas de barril de carvalho tostado que rescendiam à sua distante Tennessee — destino para onde a paisagem noturna de Passo Fundo sempre o remetia quando manobrava rente às narinas uma generosa dose de Jack Daniel’s estalando em memórias de baunilha e caramelo.
•
Entendo o drama que assola de catupiry e bacon mergulhado em fritura o bem-estar do Seu Schneider. O sentido do cheiro é o que nos resta de mais primitivo. Remonta ao tempo em que decidíamos a vida no farejo. A ciência explica essa falha civilizatória: o olfato é o único sentido que ignora o tálamo — a central de triagem do cérebro — e pega um atalho direto para o sistema límbico, espécie de almoxarifado onde se acumulam as tralhas das nossas emoções mais remotas.
O gosto, por exemplo, é apenas uma soberba da língua. Estima-se que oitenta por cento do sabor seja, na verdade, olfato. Sem o nariz para decifrar as moléculas voláteis que sobem da garganta, o paladar vira um instrumento de pouquíssima sofisticação, capaz apenas de algumas reles dicotomias entre doce e salgado; azedo e amargo.
Sem a complexidade do cheiro, os enochatos seriam apenas enólogos.
•
Além de Seu Schneider, outros grandes pensadores alemães já manifestaram profundo desagrado diante da ingerência do cheiro sobre os demais sentidos. A filosofia, por óbvio, foi a primeira a lhe torcer o nariz.
No século XVIII, Kant já o rotulava como o sentido mais ingrato, ao respirar no fedor predominante à época uma das piores invasões da liberdade alheia; Hegel, um tanto mais afetado, simplesmente o baniu da estética por considerá-lo incapaz de qualquer contemplação espiritual.
Em compensação, visão e audição eram tratados como sentidos superiores, por permitirem a distância tão cara ao gosto dos filósofos. Para ser arrebatado por um quadro ou por uma sinfonia, não seria preciso tocar no objeto. O espaço entre o sujeito e a coisa é o que tornaria possível a contemplação estética.
O olfato seria baixo — ou animal — justamente porque exige que partículas da coisa entrem fisicamente em nosso corpo.
Para Kant ou Hegel, nada poderia ser mais vulgar do que alguém soltar um pum num concerto de Mozart ou numa vernissage de Friedrich.
Embora o tempo tenha provado que o romantismo alemão é bem menos divertido e popular do que as eternas piadas físicas envolvendo flatos.
•
Mas, se a filosofia se apressou em vilanizar o olfato, coube à literatura absolvê-lo pela imaginação.
A exemplo de Seu Schneider, o escritor francês Marcel Proust era um bon vivant de vida social intensa. Sua figura era tão comum aos salões do Hotel Ritz, em Paris, quanto é a de Seu Schneider pelos perímetros do Batatas.
E foi provavelmente por uma dessas incursões pela alta gastronomia da Belle Époque que lhe surgiu a inspiração para escrever uma das mais célebres passagens aromáticas da literatura.
Em No Caminho de Swann, o primeiro dos sete volumes de sua obra-prima Em Busca do Tempo Perdido, Proust mostrou que o nariz é, no fundo, a nossa máquina do tempo mais precisa. Ao mergulhar um mero pedaço de madalena — pequeno bolinho francês amanteigado — numa xícara de chá, o narrador não prova apenas um doce: vê reaparecer inteira a pequena cidade de Combray, convocada por uma única nota olfativa.
A pastelaria fedida que transtorna o Seu Schneider também tem cheiro de boa literatura.
A única diferença é que cada um tem o Café de la Paix que merece.


