OPINIÃO

Longa jornada dia adentro

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No século XVIII, um médico veneziano perdeu-se à míngua da própria insanidade, sem antídoto que sarasse os transtornos da mente contra o corpo. Consta como paciente zero de um mal que, por mais de dois séculos, abateu alguns de seus descendentes. O nebuloso contexto clínico e a penumbra lagunar de Veneza eram sedutores demais para que prosperasse, entre os moradores, a hipótese da maldição.

A cada óbito, a família tergiversava sob verbetes genéricos da literatura médica: esgotamento nervoso, febre rara, colapsos do espírito — quando muito aceitavam o diagnóstico da melancolia, que esta sim é a maldição de existirmos.

Por volta dos quarenta ou cinquenta anos surgiam os primeiros sinais: o sono rareava, depois se fragmentava, até desaparecer. Impunha-se então uma vigília contínua e corrosiva. A coordenação se perdia, a mente tornava-se errática. No estágio final, habitavam uma neblina consciente: acordados demais para descansar, ausentes demais para lembrar-se vivos.

Ao longo de seis gerações, assistiram imunes às pestes antigas, doenças palustres, consumos do século e cóleras repentinas. O tempo avançava, e a cidade morria de novidades epidêmicas, desembarcadas de porões fétidos, repassadas por marinheiros, forasteiros e mercadores da Ásia, África e rotas otomanas — mas a eles cabia sempre o mesmo destino: o cérebro infectado pelo rato da insônia.

Demorou até 1984 para que Silvano Mantovani, debilitado, expusesse seu colapso à ciência. Entregou o cérebro a um neurologista, que desvendou a mandinga: uma proteína defeituosa degenerava o tálamo, impedindo o sono em definitivo. Desvendou o feitiço, mas não lhe arranjou o unguento. A doença persiste sem cura.

Não se tem registro de quando Mantovani morreu, mas suas madrugadas não foram sozinhas.

Daqui de Passo Fundo, eu também não dormia.

Nos anos 1980 e 1990, sem internet, restava a TV aberta, que encerrava suas reprises com Charles Bronson e Chuck Norris na primeira hora da madrugada. Às segundas, ainda se podia assistir à TV Bandeirantes algum filme selecionado menos por critérios artísticos do que por escancarados apelos eróticos, reforçando certa predileção nacional por um tipo de entretenimento que contemple inimigos dizimados e mulheres submetidas.

Não surpreende que o feminicídio ainda seja modalidade masculina tão popular quanto desprezível.

*

Além da TV, sobravam dois passatempos: os livros, que meu pai espalhava por cantos aleatórios da casa, e uma mente desgovernada em abstrações sobre um mundo do qual pouco se sabia, já que novidades, personagens e catástrofes não chegavam pela facilidade do Instagram do Leo Dias ou da Virginia.

Nos primeiros sinais da claridade, o sono me avassalava qualquer capacidade de enfrentar os pesadelos escolares com alguma dignidade cognitiva.

Foi por culpa desse sonambulismo funcional que até hoje não sei em qual posição da tabela periódica se escondem o citoplasma e a fórmula de Bhaskara — motivo pelo qual meus pais me sugeriram alguma distração pela área de humanas, em detrimento de uma improvável carreira em exatas bem sucedida.

Em expediente noturno, o quanto fosse possível.

Como ser o Nicola Giordano ainda não era profissão certificada pelo Ministério do Trabalho, as outras alternativas exigiam ou alguma capacidade social (Nicola Giordano) ou muitos recursos musculares (idem).

Restei pela escrita.

Não esperava escrever à luz do dia. Era como se os espíritos do abajur resolvessem assombrar a fila de um buffet à quilo.

Às vésperas dos cinquenta anos, entretanto, a maldição da idade que assolou Mantovani e sua família, a mim parece ter sido uma benção.

Hoje durmo fácil ao embalo de conversas soníferas de um podcast de astronomia.

Às seis da matina, acordo refeito, passo meu café, ingiro minha ração de fibras solúveis, dou uma passada nas notícias e faço o que mais tem me divertido ultimamente: xingar de todos os impropérios possíveis os sujeitos da escavadeira, britadeira e jardinagem pública, que me devolvem a gentileza no mais alto nível do léxico das ofensas.

Depois xingo os vizinhos pelas descargas em uníssono, pelas portas batendo, pelos filhos chorando e por serem meus vizinhos. Xingo também as buzinas e os carros de som, o sono de Josiane, a alienação afetiva do Jeronimo Fragomeni, o marrom que entrou na moda, o pistache que não sai de moda e os solos imaginários de bateria do Roberson Azambuja.

Quando percebo, já é quase meio-dia.

É impressionante como a cacofonia do dia nos humaniza.

Eventualmente, escrevo.

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