OPINIÃO

POLÍTICOS AGINDO COMO BEBÊS (1)

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O que a ciência da moralidade revela sobre a polarização política

Paul Bloom, pesquisador amplamente reconhecido nos estudos sobre moralidade, argumenta que muitos comportamentos recentes de políticos nos Estados Unidos lembram padrões típicos de bebês e crianças pequenas. Para Bloom, isso ajuda a explicar a profunda divisão entre republicanos e democratas — uma polarização que, segundo análises históricas, é a mais intensa desde o final do século XIX. Bloom é psicólogo cognitivo, professor na Universidade de Toronto e professor emérito de Yale. Sua pesquisa abrange moralidade, empatia, prazer, religião e o modo como crianças e adultos interpretam o mundo.

Políticos refletem a natureza humana

Em seus estudos sobre o desenvolvimento da moralidade, Bloom afirma que o comportamento observado na Câmara e no Senado americanos reflete tendências universais da natureza humana, visíveis em bebês e crianças pequenas. “Vemos no cenário político americano o estado natural do homem”, diz ele. Pesquisas contemporâneas mostram que bebês possuem capacidades morais rudimentares: conseguem distinguir ações boas de ações más, demonstram senso inicial de justiça e exibem simpatia e compaixão

Bebês são partidários natos

Mas os bebês também são criaturas altamente tendenciosas e parciais. São partidários natos, têm tendência de dividir o mundo em “nós” contra “eles”. Preferem pessoas familiares a estranhos; aqueles que falam o mesmo idioma e não gostam daqueles que falam sotaque estrangeiro. Ao entrar na escola, preferem interagir com crianças de sua própria raça ou etnia. Pesquisas conduzidas no laboratório de Karen Wynn, em Yale, revelam ainda que bebês preferem indivíduos que compartilham seus gostos por alimentos, roupas ou brinquedos. E o achado mais perturbador: eles demonstram preferência por pessoas que prejudicam aqueles que têm gostos diferentes dos seus. Não apenas evitam quem é “diferente”, mas parecem aprovar quando esses sofrem.

Divisões partidárias como extensão da psicologia infantil

Essa tendência de favorecer o próprio grupo não desaparece na vida adulta. Um estudo clássico de Henry Tajfel mostra que basta uma divisão mínima entre grupos para que surjam favoritismo interno e hostilidade externa. Quando essas divisões envolvem temas moralmente carregados — como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo ou políticas de imigração — o sentimento de “nós contra eles” se intensifica. Bloom argumenta que isso ajuda a explicar por que políticos e eleitores nos EUA estão tão polarizados. Fenômeno semelhantes pode ser identificado no cenário político brasileiro.

Períodos de cooperação: quando superamos nossa natureza paroquial

A boa notícia é que se o tribalismo é natural, a cooperação também é. Sociedades complexas só existem porque aprendemos a superar ou limitar nossos impulsos paroquiais. Momentos de união entre grupos rivais surgem quando há objetivos comuns — ou inimigos comuns. Havia maior harmonia política nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial e, por um breve período, após os ataques de 11 de setembro de 2001. Esses momentos são conquistas humanas notáveis. São a prova de que podemos escolher a razão em vez do instinto. Superar nossa tendência natural ao paroquialismo exige razão, reflexão, instituições e líderes que incentivem o diálogo. Lamentavelmente muitos políticos não escolhem esse caminho com mais frequência. Agem como crianças e não como adultos.

Luzes na caverna

           Paul Bloom, O que nos faz bons ou maus.

           Jonathan Haidt, A mente moralista: porque pessoas boas são segregadas por política e religião.

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