Quem ousaria imaginar que uma iniciativa implementada em 1996, passados 30 anos, ainda estaria ativa e cumprindo papel relevante na agricultura brasileira. A referência é feita ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o Zarc, que, recentemente, foi centro de debates na 9ª Reunião da Rede Zarc Embrapa, realizada em Brasília, DF, de 28 a 30 de abril de 2026, congregando ao redor de 150 participantes. Mas, se o trabalho outrora feito trouxe o Zarc até aqui, isso, necessariamente, não assegura que assim será nos próximos 30 anos. Então, que precisa ser feito para que se cumpra o vaticínio de futuro exitoso para o Zarc? Eis a questão!
Ainda que muitos não tenham consciência, propostas relevantes, como, indubitavelmente, é o Zarc, não surgem do nada e nem por obra do acaso, apesar dos astros, não raro, conspirarem para que assim seja, e, tampouco, podem ser dissociadas de pessoas. Quis o destino, nos anos 1990, aproximar duas pessoas visionárias, um jovem agrometeorologista, na época, pesquisador da Embrapa Cerrados, Eduardo Assad, e o então secretário executivo da Comissão Especial de Recursos do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (CER Proagro), Luiz Antonio Rossetti, que foram os mentores da inciativa de usar o zoneamento agrícola de risco climático como base da sustentação das políticas públicas de crédito e seguro agrícola do Governo Federal. Eu tenho a convicção que, sem a parceria Eduardo Assad e Luiz Antonio Rossetti, não existiria Zarc no Brasil.
É evidente que uma andorinha só não faz verão (e nem duas), logo, o êxito da iniciativa do Zarc foi que, a partir da visão e da competência de Eduardo Assad e Luiz Antonio Rossetti, teve início a formação de uma equipe de trabalho multiinstitucional, que abraçou a causa e passou atuar em escala nacional. Eram tempo difíceis para a seguridade agrícola no Brasil, com altas taxas de sinistralidade e falta de metodologia atuarial adequada, conforme havia apontado o relatório “Eventos Generalizados e Seguridade Agrícola”, de 1993, elaborado por técnicos do Ministério da Agricultura e Abastecimento e da Universidade de Brasília (UnB) para o IPEA, indicando falhas estruturais que clamavam por mudanças no Proagro.
Tudo começou, de fato, com o Projeto Redução dos Riscos Climáticos na Agricultura, fruto de contrato entre o Ministério da Agricultura e Abastecimento e a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos - FINATEC/UnB, em 1995, que viabilizou o início dos trabalhos, financiando equipamentos e a contratação de pessoal (bolsistas). Nessa primeira fase, além da Embrapa, que coordenava o projeto, integraram-se na proposta a Epagri/SC, o IAPAR/PR, a Unicamp e o IAC/SP, além do INMET e do DNAEE no fornecimento de dados meteorológicos. Na sequência, outras instituições foram sendo incorporadas, caso da Fepagro/RS e do IPA/PE, etc.
O primeiro zoneamento agrícola, usado para subsidiar as políticas públicas de crédito e seguro agrícola, viabilizando a redução da alíquota do adicional do Proagro de 11,7% para 4,0%, foi do trigo, na safra 1996. Depois vieram soja, feijão, arroz, milho, café e demais cultivos que, atualmente, ultrapassam 50 espécies zoneadas no Brasil.
Um dos marcos da era Zoneamento Agrícola no Brasil foi o número especial da Revista Brasileira de Agrometeorologia, v.9, n.3, 2001, que eu tive o privilégio, junto com Eduardo Assad, de ser o editor. Nessa edição especial, estão reunidos os estudos que deram sustentação às políticas públicas de seguro e crédito agrícola baseadas em zoneamentos, não de aptidão, que, frise-se, são anteriores ao Zarc, mas de risco climático.
Entre 2002 e 2012, durante uma década, os trabalhos de atualização dos Zarcs foram terceirizados para a iniciativa privada, a cargo da empresa Agroconsult, sem que inovações de vulto fossem introduzidas no processo. Na Embrapa e outros ICTs, seguiam as pesquisas. A partir de 2014 são iniciadas as negociações do retorno dos trabalhos do Zarc à Embrapa, que se consolidaria, efetivamente, a partir de 2017. Sobrevêm, então, as grandes mudanças na modelagem dos cultivos e nas análises de risco, na atualização das bases de clima, no processo de determinação da capacidade de armazenamento de água nos solos, no processamento e espacialização de dados, na constituição do novo Data Center da Embrapa Agricultura Digital, até que se chegou à inovadora proposta do Zarc Níveis de Manejo, que, tudo indica, deverá se configurar como poderoso mitigador de riscos agrícolas pela via da indução de tecnologia.
Nessas três décadas, o segredo do sucesso da Rede Zarc da Embrapa foi a credibilidade e a competência das lideranças. Alternaram-se nesse posto, na sequência, Eduardo Assad, Fábio Marin, Aryeverton de Oliveira e, o atual, Eduardo Monteiro. Cada qual com as suas características pessoais, mas todos, indubitavelmente, vocacionados para liderar pessoas.
Em reconhecimento à dedicação aos trabalhos de Zarc no Brasil, a Embrapa, por ocasião dos seus festejos de 53 anos, em abril de 2026, prestou homenagem aos empregados que, nos últimos 30 anos, estiveram diretamente envolvidos nesses trabalhos. Receberam a condecoração, entregue pela presidente da Embrapa, Silvia Massruhá: Aldemir Pasinato e Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo; Silvando Carlos da Silva, da Embrapa Arroz e Feijão; Balbino Evangelista e Fernando Macena da Silva, da Embrapa Cerrados, Aderson Soares Andrade Jr., da Embrapa Meio Norte, José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja; Ivan Rodrigues de Almeida, da Embrapa Agricultura Digital; e Silvio Steinmetz, da Embrapa Clima Temperado. Respeitosamente, muitos outros nomes, mesmo que não contabilizando 30 anos de dedicação ao Zarc, seja na Embrapa ou nas instituições parceiras, são merecedores do nosso reconhecimento. O êxito do trabalho da Rede Zarc pode ser tributado aos esforços anônimos e despretensiosos de muita gente. E, para seguir adiante, pelos próximos 30 anos, que continue sendo assim!
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


