James Hansen, o laureado climatologista da Universidade Columbia, que, nos anos 1980, foi uma das primeiras vozes da comunidade científica a levantar a preocupação com o tema da mudança do clima global e a sua relação com a atividade humana, em artigo recente, de 30 de abril de 2026, analisou a possibilidade de 2026 ser o ano mais quente desde que, efetivamente, começaram as medições meteorológicas na Terra, título, até então, ostentado por 2024.
Hansen usa, para fundamentar a sua análise, suposições físicas algo diferente das adotadas pelo IPCC (o painel de especialistas da ONU que trata do tema da mudança do clima global), que, segundo ele, seriam inescrutáveis para o entendimento da maioria das pessoas, destacando que, apesar de reconhecer a relevância dos resultados do Projeto de Intercomparação de Modelos Climáticos (CMIP) para análises do clima global, a incerteza dos resultados do conjunto de modelos utilizados não deve ser interpretada, erroneamente, como uma distribuição de probabilidade para o mundo real. Inclusive, na visão de James Hansen, a aceleração do aquecimento global não foi devidamente antecipada pelo IPPC. Enquanto o IPCC projetou, na melhor das estimativas, sensibilidade climática de 3,0 ºC, para a duplicação da concentração de gás carbônico na atmosfera (2 x CO2), Hansen insiste que seria de 4,0-5,0 ºC.
O uso de suposições físicas, relativamente fáceis de serem identificadas, adotado por James Hansen, segundo ele, facilita o entendimento do mecanismo físico que controla a mudança do clima global. Inicia por assumir, como premissa, que o El Niño ora em formação terá uma intensidade pelo menos comparável com a do El Niño de 2023-2024. Que a mudança da temperatura global é causada por forçamentos climáticos relacionados com o balanço de energia do planeta e que El Niño, por ora, seria a única fonte substancial de “ruído/perturbação” global independente do forçamento que decorre do desequilibrio do balanço energetico planetário.
Os especialistas, por precaução e por cientes das incertezas dos modelos de previsão climática de longo prazo, evitam prognósticos do tipo “o ano mais quente da história”. De qualquer forma, há quem projete 2026, com o El Niño previsto uma vez posto em marcha, como o segundo ano mais quente da era das observações meteorológicas. Será? Esse fato foi que suscitou a análise abalizada de James Hansen visando a uma melhor elucidação desse tipo de previsão.
A análise feita por James Hansen, e isso ele frisa bem, não é sobre El Niño, ainda que não dissociada, mas sobre a necessidade de compreensão da aceleração do aquecimento global ora em curso. A taxa de aquecimento global de 0,18 ºC por década, entre 1970 e 2010, praticamente dobrou, para 0,30-0,40 ºC por década, a partir de 2010/2015. Se mantida, atingiremos a trágica marca de 2,0 ºC de aquecimento, nos anos 2030. Felizmente, há indícios na desaceleração da taxa de aquecimento global. O pico de irradiância solar, ainda que tenha efeito menor, quando comparado ao desequilíbrio do balanço energético do planeta (resultante das trocas de ondas curtas e de ondas longas), foi atingido durante o El Niño 2023-2024, porém deve diminuir durante os próximos anos. A taxa de emissões de gases de efeito estufa deve diminuir, pelo maior uso de energia limpa. Não obstante incertezas do efeito de resfriamento via aerossóis, incêndios florestais e grandes erupções vulcânicas.
A temperatura de superfície dos oceanos é uma variável importante, pela sua inércia térmica, na avaliação do forçamento climático na Terra. Por enquanto, 2026 ainda não atingiu os níveis de 2024. Assim para superar 2024, o restante do ano de 2026 tem que ser, necessariamente, mais quente do que até então. Todavia, tudo indica, El Niño vem aí, com a aceleração de aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial mais rápida e da ordem 0,13 ºC maior do que 2023. Que pode significar isso? Que, por suposição, se tivermos, nesse ano, um El Niño similar ao 2023-2024 e, uma vez mantida a diferença de 0,13 ºC, sendo a variação de temperatura nas superfícies terrestres (30% do Globo) equivalente a duas vezes a das superfícies liquidas, poderemos ter um aquecimento, em 2026, relativo a 2023, de 0,17 ºC.
James Hansen cita que a temperatura Global, em 2024, foi 0,11 ºC mais elevada do que em 2023. Assim, se 2026 exceder 2023 por 0,17 ºC, o recorde de aquecimento de 2024 poderia ser quebrado por 0,06 ºC. É esse tipo de análise que dá margem a projeções de 2026 como o ano mais quente da história dos registros meteorológicos. E, evidentemente, seguindo o rastro do El Niño 2023-2024, o ano de 2027 seria ainda mais quente.
P.S.: o artigo de James Hansen e colaboradores está disponível em: https://www.columbia.edu/~jeh1/mailings/2026/2026GlobalTemperature.2026.04.30.pdf
SUGESTÃO DO COLUNISTA: O livro “El Niño Oscilação Sul – Clima, Vegetação e Agricultura” está disponível para download gratuito: https://www.embrapa.br/en/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1164333/el-nino-oscilacao-sul-clima-vegetacao-e-agricultura


