O comunismo histórico
Os regimes comunistas que existiram de 1917 a 1989/1991 compartilhavam um conjunto de características políticas, econômicas e sociais derivadas do chamado marxismo-leninismo. Embora cada país apresentasse particularidades, todos adotavam o chamado de “modelo soviético”: partido único, economia planificada, abolição ou forte restrição da propriedade privada dos meios de produção, controle estatal abrangente e limitação das liberdades civis.
O comunismo histórico foi para a lata de lixo da história
Os regimes comunistas colapsaram de forma irreversível entre 1989 e 1991. Deixaram de existir na Rússia e no Leste Europeu, desaparecendo — como observou o historiador francês François Furet — “numa espécie de nada”. Fracassaram economicamente, foram incapazes de competir tecnologicamente com os países capitalistas desenvolvidos e produziram custos humanos altíssimos: expurgos, Gulags, fome, censura e repressão sistemática. A perda de legitimidade política foi tão profunda que esses regimes deixaram de contar com apoio significativo de seus próprios cidadãos. O esvaziamento interno era tão grande que não houve necessidade de revoluções violentas para derrubá‑los. Eles simplesmente implodiram.
Os casos exemplares da China e do Vietnã
Na China e no Vietnã, os próprios partidos comunistas adotaram um processo gradual e pragmático de transição do comunismo ortodoxo para economias de mercado. Na China, esse processo iniciou com as reformas introduzidas sob inspiração e liderança de Deng Xiaoping em 1978. A propriedade privada e a livre iniciativa econômica passaram a ser permitidas, e zonas econômicas especiais foram criadas para atrair investimentos estrangeiros. O Vietnã seguiu trajetória semelhante com o Đổi Mới em 1986, liberalizando a agricultura e a indústria, permitindo a iniciativa privada e integrando-se ao comércio global.
Progresso econômico e social
A China transformou-se em uma potência industrial com as reformas iniciadas sob a liderança de Deng Xiaoping. Elas geraram décadas de crescimento acima de 8% ao ano. Mais de 800 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza. O Vietnã, a partir de 1986, seguiu trajetória semelhante: liberalizou a agricultura, estimulou pequenas empresas, abriu-se ao comércio internacional e tornou-se um dos países mais dinâmicos do Sudeste Asiático, com crescimento sustentado e forte redução da pobreza.
A ameaça imaginária do comunismo
Se o comunismo histórico se tornou um ciclo encerrado e sem capacidade de se reproduzir tal como existiu no século XX, por que ainda tantos insistem em tratá-lo como ameaça — como vemos no Brasil e nos Estados Unidos? Isso ocorre porque “comunismo” passou a funcionar como um espantalho retórico, uma ferramenta de mobilização emocional acionada por líderes populistas e grupos políticos interessados em demonizar adversários. Usado de forma ampla e imprecisa, o termo é aplicado a partidos de centro‑esquerda, a políticas sociais moderadas, a instituições democráticas e, em certos casos, a qualquer opositor político.
Uma antiga estratégia autoritária: criação de um inimigo simbólico
Populismos autoritários sempre utilizaram a ameaça de inimigos simbólicos para manter coesão entre seus apoiadores. Embora a história tenha demonstrado que o comunismo, tal como existiu, deixou de ser uma alternativa concreta, sua imagem é reciclada como ameaça conveniente: um fantasma político capaz de justificar posições, mobilizar medos, simplificar debates complexos e deslegitimar adversários. É o equivalente ideológico de dizer “olha o bicho-papão”.


