Há uma pergunta que me acompanha desde que a crise diplomática entre Brasil e EUA ganhou novos capítulos nos últimos dias. Qual era o interesse brasileiro em retardar, por tempo indeterminado, o reconhecimento do novo embaixador americano justamente quando Brasília tenta convencer Washington a rever a política tarifária anunciada contra produtos brasileiros? Confesso que continuo sem encontrar uma resposta convincente. É claro que o agrément integra a esfera da soberania nacional. Nenhum país é obrigado a aceitar imediatamente o representante diplomático indicado por outro Estado. O ponto, entretanto, parece ser outro. A diplomacia é construída por sinais políticos, pela leitura que cada governo faz dos movimentos do outro e, principalmente, pela preservação dos canais de diálogo quando surgem divergências. Sob essa perspectiva, a decisão brasileira desperta mais dúvidas do que certezas.
Embaixadora
A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti acabou concentrando a atenção da opinião pública, mas dificilmente pode ser tratada como o início da crise. Antes desse episódio, o governo brasileiro já havia negado vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que fariam uma visita oficial ao país. Observados isoladamente, esses fatos talvez parecessem episódios administrativos. Em sequência, passaram a transmitir uma mensagem política que Washington evidentemente levou em consideração. Quem acompanha relações internacionais sabe que crises diplomáticas raramente surgem de um único acontecimento. Elas costumam ser construídas gradualmente. Pequenas decisões alteram percepções, acumulam desgastes e acabam produzindo consequências muito superiores às imaginadas quando foram tomadas.
Precedente no Hemisfério
Talvez valha recordar um precedente pouco mencionado. Em 2010, o governo venezuelano recusou o agrément do diplomata americano Larry Palmer. Os EUA responderam revogando o visto do embaixador venezuelano. Os dois países permaneceram durante anos sem embaixadores residentes, iniciando um processo de deterioração que, mais tarde, culminaria no rompimento das relações diplomáticas. Evidentemente, Brasil e Venezuela vivem realidades muito distintas. A lembrança desse episódio serve apenas para mostrar que decisões aparentemente pontuais podem desencadear crises de longa duração. É justamente por isso que continuo voltando à pergunta inicial. O que o Brasil efetivamente ganhou ao prolongar esse impasse? Se existiam divergências com Washington, elas poderiam ser tratadas por meio da própria diplomacia. Afinal, é exatamente para isso que existem embaixadores. Fechar ou enfraquecer canais de interlocução dificilmente fortalece a posição de quem precisa negociar.
Inteligência diplomática
Tenho a impressão de que faltou inteligência diplomática. Em política externa, firmeza e pragmatismo costumam caminhar juntos. A história ensina que grandes crises raramente começam por acontecimentos extraordinários. Elas nascem quando decisões aparentemente secundárias deixam de ser avaliadas pelos efeitos que poderão produzir adiante. Talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido se o Brasil tinha o direito de agir como agiu. A questão sempre foi outra: essa decisão ampliava ou reduzia a capacidade brasileira de defender seus próprios interesses? A resposta, ao que tudo indica, começa a aparecer.


