OPINIÃO

O rosto de Deus

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Qual é o rosto de Deus? Onde podemos encontrá-lo? Como se manifesta? O que muda na vida de quem se encontra face a face com Deus? São algumas perguntas que a Palavra de Deus da liturgia dominical nos faz pensar e rezar. A experiência de Deus do profeta Elias no monte e dos discípulos no mar revolto, numa mistura de tempestade e suavidade, são os quadros do encontro com o Deus vivo (1 Reis 19,9.11-13, Salmo 84(85), Romanos 9,1-5, Mateus 14,22-33).

O filósofo hebreu Lévinas refletido sobre o rosto diz: é “modo como o outro se apresenta, que supera a ideia do outro em mim”. Isto é, o rosto do outro não é apenas a sua aparência física, ou uma imagem que nossa mente consegue dominar e definir, mas uma presença viva que nos provoca e faz rever a imagem que eu tinha feito do outro quando me encontro diante dele. Esta reflexão filosófica ajuda a entender o que aconteceu com Elias, Pedro e os discípulos.

O profeta Elias está fugindo da rainha Jezabel que tentava matá-lo. Elias era um profeta sem medo e fiel na missão que lhe foi confiada: revelar e defender o verdadeiro Deus. Porém, começou a ser perseguido pela rainha e vai deserto a dentro. O vigor inicial vai desaparecendo a tal ponto que pede a Deus lhe retirar a vida. Em vez de ser atendido para morrer, Deus lhe responde que “ainda tem um longo caminho a percorrer”. Nesta jornada Elias chega ao Horeb-Sinai lugar onde Moisés recebeu a tábuas da Lei e o povo fez aliança com Deus.

No Horeb, Elias entra na gruta pois Deus vai passar. Acontecem três fenômenos violentos: vento impetuoso e forte, um terremoto, fogo. Na compreensão de Elias estes sinais seriam o rosto de Deus, o modo de Deus agir. Aí vem a surpresa: “ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa. Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta”. Ao ver o rosto de Deus no “murmúrio da brisa”, Elias teve que fazer uma profunda mudança na compreensão de Deus e uma nova profissão de fé. Algo similar acontece no Evangelho.

Depois de Jesus multiplicar pães e peixes, gerando euforia nos discípulos e na multidão, “Jesus subiu ao monte, para orar a sós”. O silêncio, o estar a sós permite encontrar-se face a face com Deus Pai. Abre espaço para a intimidade, a serenidade e a paz interior.

Enquanto os discípulos seguem viagem na barca agitada pelas ondas Jesus se aproxima de forma serena, pelas três horas da madrugada, caminhando sobre as águas. Mas os discípulos “gritaram de medo”. A origem do medo está em terem feito do rosto de Jesus um fantasma. Jesus proporciona a Pedro e aos discípulos um encontro com o seu rosto verdadeiro.

Quando isto acontece eles dizem: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

Jesus chama Pedro a sair da barca e caminhar sobre as águas. Caminha seguro, mas quando começa a duvidar afunda. Aí é questionado: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” A primeira encíclica do Papa Francisco intitulada “A luz da fé”, ensina que “a fé nasce no encontro com Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a nossa vida”.

A fé desvenda-se no caminho e acompanha os nossos passos na história. Fé significa aceitar em colocar em dúvida as próprias certezas para dar crédito a voz de Jesus que diz “vem”. Deus vem ao nosso encontro e nos chama. Como Pedro se arriscou, indo ao encontro de Jesus, sempre há o risco da dúvida. Nesta hora é preciso gritar “Senhor, salva-me”. O Senhor estende a mão. Mas qual mão? Por exemplo, a celebração dominical da Eucaristia, a oração silenciosa, a escuta da Palavra de Deus, a participação na comunidade. Pedimos ao Senhor que sempre encontremos a sua mão estendida no caminho da nossa história. Ao mesmo tempo, que também a nossa mão estendida ajude os outros a caminhar através das águas da nossa história. Descubramos o rosto de Deus nas pequenas ações de amor.

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