Agradava muito aos renascentistas depreciar o legado da Idade Média como a Era das Trevas. Pesava-lhes, sem dúvida, a predileção saudosista pelas túnicas, pelo mármore branco e pelas proporções harmoniosas, antes tão caras à delicadeza estética e intelectual dos gregos. Havia, afinal, algo de excessivamente masculinizado naquele intervalo de mil anos em que prosperaram os modos do homem medieval e suas alegorias de poder: lanças, escudos, espadas, fogueiras, armaduras, castelos e cruzadas.
A Idade Média, entretanto, foi responsável por grandes contribuições à humanidade.
Foi nesse período que surgiram as primeiras universidades, os hospitais permanentes e os bancos; que se difundiram os relógios mecânicos e a notação musical moderna; e que arquitetos ergueram catedrais cuja engenharia ainda hoje é objeto de estudo.
O ranço renascentista, entretanto, se explica por um motivo existencial: o mundo medieval foi uma civilização profundamente entusiasmada com a ignorância funcional da imensa maioria.
Nada muito diferente do mundo de sempre:
Quanto mais iletrados, mais soldados de ódio.
Quanto mais livros queimados, mais forja de lanças e espadas.
Quanto menos abstrações, menos perguntas desconfortáveis.
O pensamento era a própria bruxa.
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Embora bastante popular à época, a bruxa tampouco foi uma criação medieval. Por ironia, é um arquétipo grego, a partir de figuras como Medeia e Circe, mulheres associadas ao domínio do invisível, dos encantamentos e das forças que escapavam à razão humana. Coube, porém, à Idade Média dar-lhe a forma que ainda hoje reconhecemos: a anciã de aparência ameaçadora, afeita às transgressões, de hábitos sobrenaturais e verruga na ponta do nariz adunco.
Deus, Cristo e o capiroto também não eram contemporâneos de Joana d’Arc, Merlin e Robin Hood. Foi, porém, nesse período que se consolidaram no imaginário coletivo ocidental suas aparências: o Criador carismático, de barba farta e branca; o Salvador sacrificado, de olhar terno e olhos azuis; o Belzebu em paleta encarnada, chifres e rabo pontiagudo.
Ou seja: ao sonegar à maioria da população o acesso aos livros, a Idade Média prestou um importante serviço colateral: consagrou pela imagem praticamente todos os tipos iconográficos que até hoje celebramos.
Para lamento dos renascentistas, os iletrados medievais eram designers gráficos de mão cheia.
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A Morte é, sem dúvida, o ícone gráfico mais enigmático forjado na Idade Média.
A Morte é uma caveira que empunha uma foice e veste túnica e capuz preto. É um signo tão lúgubre quanto potente, surgido numa época em que a civilização se dizimava por sucessivas pestes.
Por uma contingência histórica, não foi possível lhe emprestar o mesmo carisma que atribuímos ao Dollynho, ao frango da Sadia e ao Zé Gotinha (embora a Morte seja mais simpática aos dois primeiros).
A Morte é absoluta em sua intransigência e incógnita em seus desígnios. É uma burocrata alheia a ideologias. Não é a figura que determina, mas quem apenas aponta o caminho. Sobem os mocinhos, despencam os cretinos. Simples. Conforme consta na planilha.
Na dúvida, restam no limbo.
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Acostumamos a conviver com a Morte como uma espécie de pet montada em ossos. A todo tempo ela nos prende e dispersa a atenção; raramente nos fixa.
Acidentes, homicídios, doenças, livros, séries favoritas. Ela é notícia e entretenimento, embora nunca nos apareça em gadanha e esqueleto.
Sua lógica difere da dos espíritos e dos alienígenas — criaturas moldadas pela Era Moderna e pelo Romantismo.
A lógica de um espírito seria confrontar o nosso próprio espírito. Confirmaria que há em nós algo capaz de sobreviver para além do corpo.
A presença alienígena nos inviabilizaria como espécie. Seríamos subjugados por uma inteligência superior. Antes de qualquer diálogo, já estaríamos intelectualmente rendidos.
A Morte pertence a outra categoria. Não tem análogos nem antíteses. É apenas um epílogo.
É também a única que não permite testemunhos.
Espíritos dependem de relatos. Alienígenas, de evidências.
A Morte elimina a sua testemunha.
Já a quase-morte transforma vidas.
Venho de uma experiência recente de quase-morte.
Não cheguei a vê-la, mas ouvi sussurrar em meu ouvido: “precisa maneirar no vinho.”


