OPINIÃO

A pele que habito

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Faz algumas semanas que me tornei usuário recorrente de um novo tipo de cosmético coreano. Foi Josiane quem me introduziu ao ritual noturno de autocuidado despachado diretamente de algum ponto remoto da Ásia. O soft power sul-coreano opera em três frentes: os seriados de dorama, as bandas de k-pop e a qualidade impressionante da pele de suas estrelas de k-pop e de dorama. Restei pelo modismo menos superficial dos três.

É uma demanda legítima pedir à sua contraparte afetiva alguns protocolos de aparência. Não deixa de ser estranho, entretanto, que depois de anos convivendo com as rachaduras de minha índole, ela tenha atentado com tanto esmero à proliferação das rugas em meu entorno periorbital.


O produto veio fortemente recomendado por especialistas especializados em recomendar produtos pelas redes sociais. De primeiro, através de uma menina cujo porcelanato da tez de dezenove anos inconclusos ela creditava aos últimos dois meses de uso contínuo da fórmula. Como gesto de idoneidade científica, ela nos garantiu que “super recomendava”. Pela praxe de uma segunda opinião, esbarramos em outra menina, que ordenava ao mundo que “se parasse tudo porque trazia um alerta babado de skincare”. Depois, ainda apuramos as considerações de um rapaz, já que seu uso seria destinado a uma pele masculina. Embora muito comunicativo, sua validação ficou um pouco comprometida pelo entusiasmo com que espichava em agudo as silabadas tônicas, em flagrante falsete dos hormônios em puberdade.

Ah, e teve outra que era médica dermatologista.


É um gel que escapa do tubo em tom flavo vívido e que se espalha contra a pele num amarelo dos cálculos biliares e das hepatites. Recomenda-se aplicação ao redor dos olhos e sobre o triângulo da tristeza, logo acima do nariz, região responsável pela importante tarefa de nos franzir o cenho. A pele então repuxa num esforço químico brutal de se restaurar a vaga lembrança colágena que se perdeu pelo caminho dos excessos e da vida. Por fim, dorme-se com o mito de que o tempo passa ao contrário, para acordar no dia seguinte apenas enrugado como sempre, mas um pouco mais frustrado e esverdeado também.


O horário político deste ano trouxe uma novidade muito interessante aos eleitores indecisos: a possibilidade de votar em outro candidato sem necessariamente ter de mudar o seu voto. A grande reforma política do momento consta nas faces lisas, sorrisos brancos e no peso esbelto dos postulantes aos cargos eletivos do próximo pleito. Por estranho que pareça, praticamente todos costumam iniciar suas autopromoções pelo mesmo famigerado bordão de que “quem me conhece, sabe...”, como se fosse tarefa fácil aos olhos alheios distingui-los entre tantos idênticos em tão pouco tempo.


As correções estéticas, porém, ao oposto da tecnologia das deepfakes, não listam como crime eleitoral. Aceita-se, inclusive, como um recurso necessário aos tempos de hipervalorização da imagem, embora eu sinta certa nostalgia do tempo em que se espalhavam santinhos do Ulisses Guimarães, do José Serra e do Aureliano Chaves pela cidade (figuras que, à revelia de seus espectros políticos, pactuavam da mesma feiura pública com honradez).

Tampouco inviabilizam que se escute, por trás de um jogo novo de dentes brilhosos e da halitose de semaglutida, alguma proposta que seja de seu interesse pessoal ou comunitário. A única inconveniência talvez esteja no risco de nos distanciarmos ainda mais do conteúdo em detrimento da forma; do aspecto à reputação.

Desconfie, portanto, de estranhos que prometem milagres. Em geral, são oportunistas em busca de sua boa-fé para se dar bem.

Nem todos são adolescentes na internet promovendo cosméticos coreanos.


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