OPINIÃO

TRUMP E A ESTRATÉGIA DE INUNDAR A ZONA

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Donald Trump e suas bombas informacionais

Trump costuma dominar o noticiário com propostas e declarações improváveis, capazes de capturar a atenção da mídia e saturar o debate público. Em diferentes momentos, mencionou a possibilidade de ocupar ou comprar a Groenlândia, anexar o Canadá, o México e o Canal do Panamá, além de sugerir renomear o Golfo do México e o Lago Ontário. Chegou também a propor a construção de um resort na Faixa de Gaza. Reitera com frequência que as eleições americanas são “roubadas”. Suas mensagens tendem a ser rápidas, contraditórias e sem base científica. Afirmou que os cientistas “não sabem” sobre o aquecimento global, que “o clima vai esfriar” e que incêndios ocorrem por “falta de limpeza de folhas”. Declarou que a OTAN era “obsoleta” e, mais tarde, que era “muito importante”. Em alguns períodos, publicou mais de 200 tweets em um único dia, criando ciclos contínuos de reação. Descreveu imigrantes como “criminosos” e “estupradores”, e chegou a afirmar que eles “comiam os cachorros e gatos” de moradores de Springfield, Ohio.

“Embora pareça loucura, há método nisso”

A tragédia Hamlet, de William Shakespeare, oferece uma metáfora útil para compreender esse tipo de comportamento político. O personagem Polônio percebe que o comportamento errático de Hamlet, apesar da aparência de loucura, revela intenção e cálculo. A frase original — “Though this be madness, yet there is method in’t” — passou a ser usada para descrever situações que parecem caóticas, irracionais ou absurdas, mas que, ao serem examinadas de perto, revelam uma lógica interna.

A teoria de inundar a zona de Steve Bannon

           As declarações e atitudes de Donald Trump talvez estejam de acordo com a estratégia política sugerida por Steve Bannon segundo a qual é necessário “inundar a zona com merda” (flood the zone with shit). Bannon é frequentemente apresentado como a mais influente figura da extrema-direita populista dos Estados Unidos. Foi diretor‑executivo da campanha presidencial de Trump em 2016 e atuou como estrategista e conselheiro do governo até ser demitido em abril de 2017. Em 2022, foi condenado a quatro meses de prisão por desacato ao Congresso.

Bata neles com três coisas

Bannon definiu a estratégia de “inundar a zona” da seguinte forma: “Bata neles com três coisas, bang, bang, bang”. A ideia é produzir uma quantidade tão grande de acontecimentos, declarações e narrativas que se torne difícil para adversários, imprensa e público organizar, interpretar ou responder ao fluxo. Ele percebeu que mensagens capazes de provocar indignação tendem a ser politicamente mais eficazes do que comunicações meramente informativas, justamente porque capturam atenção, geram reação imediata e deslocam o debate para o terreno escolhido pelo emissor.   

Controle da agenda

Segundo a lógica da “inundação da zona”, não é necessário convencer toda a opinião pública; basta ocupar continuamente o espaço da atenção. A estratégia pode funcionar mesmo quando a imprensa critica o governo. Uma declaração controversa de Trump, por exemplo, pode ser duramente reprovada pela mídia, mas ao fazê-lo os veículos acabam reproduzindo e amplificando a pauta que ele próprio lançou. Assim, mesmo recebendo uma cobertura predominantemente negativa, ele ainda pode se beneficiar politicamente se conseguir manter seus adversários, a imprensa e a opinião pública concentrados nos temas que escolhe colocar em circulação.           

Redes sociais

As redes sociais potencializam a estratégia de “inundar a zona”, produzindo um fluxo contínuo de estímulos. Funcionam em alta velocidade, privilegiam mensagens curtas, amplificam a indignação e incentivam conflitos. Esse ambiente pode gerar uma espécie de fadiga informacional: diante de tantas controvérsias simultâneas, o público passa a ter dificuldade de distinguir o que é realmente relevante do que é apenas mais um episódio descartável.

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