Um misto de incerteza e apreensão tomou conta dos moradores do pequeno município de Vila Maria, distante 45 quilômetros de Passo Fundo. Ao fechar as portas, na metade do ano passado, a empresa Fertimar Comércio de Cereais Ltda, deixou para trás um prejuízo estimado em R$ 80 milhões. São aproximadamente 700 agricultores, de toda a região, que entregaram grãos (soja, milho e trigo), das últimas safras e não receberam pelo pagamento do produto. A situação gerou dívidas, congelou os negócios na cidade, e fez aumentar a procura por remédios e consultas médicas.
O caso virou disputa jurídica na Comarca de Marau. O Ministério Público estadual instaurou um Procedimento Preparatório (PP), para investigar. Além de depoimentos, o MP recebeu documentos que, segundo o promotor Fabrício Gustavo Alegretti, apontam para práticas criminais. Atuando na defesa de 50 agricultores, o advogado Daniel Dallacorte ingressou com ações de cobrança e uma ação coletiva pedindo a falência da empresa.
O rombo já provoca reflexos na economia do município, que concentra o maior número de vítimas. Com pouco mais de quatro mil habitantes, a maioria descendente de imigrantes italianos, Vila Maria tem um orçamento de R$ 23 milhões. A avicultura, seguida da produção de grãos, são os setores mais rentáveis. A bacia leiteira e criação de suínos seguem logo atrás na respectiva ordem.
Criada em 2003, pelo ex-prefeito, e vereador do município, Cleci Angelo Endrigo, falecido em junho do ano passado, aos 58 anos, vítima de um enfarte, a Fertimar ocupava a sexta posição no ranking das empresas mais rentáveis para o município. Em 2017, ela gerou R$ 12 milhões de ICMS aos cofres da prefeitura.
A atividade consistia na compra e venda de grãos. O produto era armazenado na estrutura de silos às margens da RS 324, e também na unidade de Camargo, cidade vizinha distante 9 quilômetros. Segundo o Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Vila Maria, as duas estruturas juntas tinham capacidade para receber até 800 mil sacas de grãos.
Com o congelamento dos pagamentos aos agricultores, a movimentação no comércio teve uma queda significativa. O proprietário de uma loja, que pediu para não se identificar, disse que as vendas ‘estão paradas’. “Caiu 80%, muita gente tinha dinheiro lá. O desânimo tomou conta. Agricultores deixaram até três safras na empresa. Alguns estão zerados, venderam as máquinas. É uma situação muito triste”, comenta.
Atuando há vários anos no setor imobiliário, o corretor Fábio Lorenzini definiu como ‘muito complicada’ a situação no município. Ele conta que, até 15 dias antes da morte de Cleci, o movimento na imobiliária era de, no mínimo, três visitas por semana, com propostas concretas de compra. Desde a metade do ano passado o movimento caiu em praticamente 100%. Segundo ele, o investimento mais comum entre os agricultores era a compra de terrenos. Para ilustrar a inércia nos negócios, conta que atualmente há três lançamentos de loteamentos em Vila Maria, com 100 terrenos cada, e nenhuma proposta de compra.
“Acontece que 90% da nossa clientela era de colonos que perderam dinheiro lá. Com 800 sacas de soja já era possível adquirir um terreno de R$ 40 a R$ 50 mil. Depois da morte dele (Cleci), não fechei mais nenhuma venda. Não existe nem proposta. Só não abandonei o escritório aqui porque também atuo em Marau. Estou há 20 anos em Vila Maria e não vi nada nem parecido”, lamenta.
Em seu primeiro mandato, o prefeito, Maico Serafini Betto (PPS), que na última eleição venceu a disputa contra o próprio Cleci, por uma diferença de 38 votos, revela que a queda no comércio não é o único reflexo gerado pelo fechamento da empresa. A preocupação com o desfecho das ações na Justiça e a possibilidade de ver o patrimônio, conquistado durante anos de trabalho, evaporar da noite para o dia, refletiu na saúde dos produtores. A busca por remédios e consultas medicas na unidadade de saúde tiveram um aumento considerável nos últimos meses, afirma o chefe do executivo. “Não tenho um dado fechado para quantificar com exatidão, mas aumentou bastante. A preocupação com o dinheiro é muito grande, acaba refletindo na saúde das pessoas”, diz.
Já o impacto negativo que o fechamento da Fertimar vai provocar diretamente nas contas da prefeitura será conhecido no próximo ano a partir do índice municipal do ICMS. “Ele é gerado de ano a ano, será um choque grande para nossa economia. Há uma tensão grande por conta dessa situação. Caindo a arrecadação temos que reduzir nossas despesas para manter o equilíbrio”, projeta.
A boa notícia diante dessa estagnação financeira, segundo o prefeito, fica por conta da abertura de um frigorífico no município. Com inauguração prevista para metade deste ano, o empreendimento terá capacidade para abater mensalmente seis mil cabeças de gado e deve gerar 150 novas vagas de emprego.
Pequenos agricultores
Dos cerca de mil associados no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Vila Maria, metade deles são credores da Fertimar, afirma a presidente da entidade, Marilice de Marco. Segundo ela, são todos agricultores familiares, com propriedades em média de até 25 hectares.
Na tentativa de encaminhar uma saída para o caso, desde agosto do ano passado, Marilice participou de inúmeras reuniões com os agricultores, presidentes dos sindicatos de Marau e Camargo, e representantes da empresa. “Sempre nos disseram que pagariam a todos os credores, mas até hoje nada. O pessoal confiava cegamente neles. Era uma empresa de confiança, parceira dos agricultores. Antes mesmo do falecimento do proprietário, já havia comentários sobre uma possível falência. Os produtores entregaram tudo lá e não receberam um centavo. Tiveram de vender máquina, trator para quitar as dívidas. Alguns adoeceram com essa situação”.
Outra medida do sindicato foi conversar com gerentes dos três bancos instalados na cidade (Brasil, Sicredi e Banrisul) e renegociar as dívidas provenientes do financiamento da safra. “Buscamos a prorrogação dos prazos. Alguns pediram dinheiro emprestado a terceiros, enquanto outros fecharam parcerias com empresas e já comprometeram o lucro da próxima colheita”.
Sonho adiado
Dois recibos com um carimbo da empresa e uma assinatura, são as garantias que o agricultor Vilson Bufon tem para resgatar o dinheiro referente a venda de 1,9 mil sacas de soja à Fertimar. Nascido e criado na Linha 18 Baixa, interior do município, ele sonhava em investir o dinheiro na construção de uma nova casa e também na compra de um carro para o filho.
Por várias vezes esteve na empresa para retirar o dinheiro, mas em todas elas era convencido de desistir do saque, diante das tentadoras taxas de juros de até 1.3%, muito acima da média praticada no sistema bancário. A possibilidade de retirada de parte do valor em material de construção, uma vez que a Fertimar mantinha uma loja anexa aos escritórios, também foi aceita pelo agricultor, mas acabou não acontecendo.
Dois dias antes de quitar a primeira prestação do financiamento bancário, ele foi até a empresa fazer uma retirada e encontrou as portas fechadas. Para manter o CPF ‘limpo’, Bufon teve de pedir dinheiro emprestado. “Ficou tudo lá. O trabalho de uma vida inteira. Essa casa velha está caindo. Tem quase 50 anos, não sei quando vamos ter condições de fazer outra. Vamos levar mais 20 anos agora”, desabafa.
Proprietário de uma área de aproximadamente 20 hectares, o agricultor aposta na próxima colheita para continuar saldando as dívidas. Atualmente, o casal e o filho sobrevivem da venda de leite produzida por um lote de 20 vacas. “Sempre negociava a safra com eles. Não deixavam ninguém na mão. Perdi tudo, fiquei numa estrada sem saída”.
"Hoje eu me envergonho de por ter dado os votos de confiança para ele"
Morador da mesma localidade, Adair José Colet, 43 anos, era cliente desde a inauguração da empresa. Há cerca de três anos, acabou se afastando da Fertimar, mas foi convencido a retornar nas últimas duas safras. Ele alega prejuízo avaliado em R$ 200 mil."Comentei com o Clei sobre rumores de que a empresa não estava bem. Disse que estava pagando a faculdade de agronomia do filho, que havia contraído dívidas e precisava receber certinho. Me deram um tapinha nas costas e disseram, - vai para casa, deita e dorme tranquilo", conta.
O agricultor contava com o dinheiro para quitar dívidas contraídas com a compra de terras. Sem o milho para alimentar um lote de 20 vacas que produziam aproximadamente 10 mil litros por mês, decidiu vender os animais para dar 'um giro na propriedade', e tocar os negócios adiante, principalmente na suinocultura. A venda de algumas máquinas não está totalmente descartada por ele. Ele projeta pelo menos mais duas safras para se recuperar do prejuízo. "Tenho esperança que a Justiça faça alguma coisa. Apresentei o romaneio de carga e nota de modelo 15. Se isso não tem valor então não sei mas nada. Hoje eu me envergonho de por ter dado os votos de confiança para ele", desabafou.
Juros
Com base nos relatos de credores, uma das estratégias para convencer os produtores a deixarem o dinheiro da venda dos grãos investido na empresa era a taxa de juro oferecida. Em alguns recibos, a oferta chegava até 1.3%. Atraídas por essa vantagem, há informações sobre pessoas que retiravam dinheiro das contas bancárias e entregavam na empresa.
Pagamento mediante comprovação
Atuando na defesa da Fertimar, o advogado Fernando Vieira Gusman, refuta o argumento de golpe e disse, por telefone, que todo o patrimônio da empresa será utilizado no pagamento dos credores. Entretanto, ressalta que o posicionamento dos sócios é ressarcir somente credores que comprovarem a existência da dívida através de documentos.
"Toda operação de compra e venda de grãos prevê uma nota. É preciso um registro da entrada dos grãos ou ele não existe, a nota de produtor rural, comprovante da declaração de imposto de renda. Nossa posição é essa, vamos reconhecer aquilo que estiver fundado em documentos. Não podemos pagar indiscriminadamente", observa.
Ele explica a existência de duas empresas distintas, a Fertimar Comércio de Cereais Ltda e a Comércio e Representações Fertimar Ltda. A primeira era mantida pelo sócio-proprietário, Cleci Angelo Endrigo. A atuação consistia na compra, armazenamento, beneficiamento e venda de grãos. A segunda, é mantida por outros dois sócios e tinha como finalidade, fornecer orientações técnicas e insumos aos agricultores. Havia relação comercial e operações financeiras entre elas, mas trabalhavam de maneira isoladas. Segundo ele, a Comércio e Representações tinha uma dívida de R$ 5,3 milhões com a Comércio de Cereais. O advogado não soube explicar os motivos que levaram o fechamento da empresa comandada pelo ex-prefeito.
Na semana passada, a empresa Coagrisol, de Soledade, adquiriu pelo valor de R$ 10,250 mil a unidade de silos que a Fertimar mantinha em Vila Maria. O recurso será destinado ao pagamento de credores. " A ideia era buscar uma uma empresa com capacidade financeira e operacional para continuar recebendo e beneficiando os grãos dos produtores da região. Não se trata de um golpe o que aconteceu. Todo estão lá, na cidade, fazendo levantamento dos bens para pagamento da dívida" declarou.



