Censo mostra presença crescente de indígenas nas cidades

Funai destaca importância da visibilidade e do reconhecimento desta população

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Aldeia Guj Júr está dentro de uma área urbana de Passo Fundo - Foto: Divulgação Aldeia Guj Júr está dentro de uma área urbana de Passo Fundo - Foto: Divulgação
Aldeia Guj Júr está dentro de uma área urbana de Passo Fundo - Foto: Divulgação
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O Censo 2022 revelou uma mudança significativa no perfil da população indígena do Rio Grande do Sul. O levantamento, divulgado pelo governo do Estado no caderno Cadernos RS no Censo 2022 – Indígenas e Quilombolas, mostra que quase 40% dos indígenas vivem em áreas urbanas, enquanto 60,5% permanecem em zonas rurais. A tendência também se observa na região da Produção, onde está Passo Fundo, demonstrando que a presença indígena se espalha para além das aldeias tradicionais, em famílias e comunidades que vivem nas cidades, mas mantém viva sua cultura e identidade.

Conforme a publicação, no total, o Rio Grande do Sul abriga 36.102 indígenas, sendo 50,4% mulheres. A idade mediana é de 22 anos nas terras indígenas e 31 anos nas áreas urbanas, confirmando o perfil jovem dessa população. A taxa de alfabetização também se destaca: 89% dos indígenas sabem ler e escrever, número superior à média nacional (85%). Entre os jovens de 15 a 17 anos, o índice chega a 97,2%.

Quatro áreas em Passo Fundo

Segundo a coordenadora regional da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Maria Inês de Freitas, há quatro áreas de ocupação em Passo Fundo: na área da Efrica, com cerca de 26 famílias; na saída para Marau (Nangá), com 28 famílias; nos fundos da rodoviária, onde está a Aldeia Guj Júr, com 24 famílias; e na área do Trevo da BR 285, em domínio do Dnit, que abriga 26 famílias. “Essa população vive com um forte senso de coletividade. Eles compartilham o alimento, o cuidado, tudo o que têm disponível. É uma forma de viver baseada na partilha e no apoio mútuo”, explica.

Além dessas comunidades, há famílias indígenas que vivem fora das aldeias, em áreas urbanas, com outro tipo de rotina e relação social. “Esses indígenas urbanos têm uma vida diferente, mais individual, cada um na sua casa, mas continuam sendo indígenas. É importante entender que ser indígena é uma condição de pertencimento, não de território”, reforça Maria Inês.

Preconceito

A coordenadora, que é a primeira mulher Kaingang a assumir o comando da Funai no Estado, observa que ainda há preconceito e desconhecimento sobre a presença indígena nas cidades. “O fato de sermos indígenas ainda é, muitas vezes, um dado usado para nos diminuírem. Existe o racismo e o machismo institucional, que são sutis, mas muito presentes. A sociedade ainda precisa reconhecer a importância da questão indígena como algo positivo, que contribui com o desenvolvimento coletivo”, afirma.

Maria Inês destaca também o avanço educacional e a inserção profissional dos povos indígenas. Segundo ela, o acesso às universidades por meio de cotas e vestibulares específicos vem transformando a realidade das comunidades. “Hoje temos mais de 500 indígenas formados no Rio Grande do Sul, em áreas como medicina, direito, odontologia e pedagogia. A grande maioria dos professores das escolas indígenas é indígena, e as aulas são ministradas em Kaingang, Guarani e português. Isso fortalece a identidade e valoriza a língua e o conhecimento tradicional”, frisa.

Desafios

Mesmo com os avanços, os desafios persistem. O Censo mostra que apenas 7,5% das moradias em terras indígenas possuem esgotamento sanitário adequado, 38% têm coleta regular de lixo e 65,5% contam com abastecimento de água apropriado. Fora das terras, os índices melhoram, mas ainda revelam desigualdades regionais.

Em Passo Fundo, a Aldeia Guj Júr conta desde 2022 com uma escola estadual indígena, voltada ao ensino bilíngue e à valorização cultural. “Hoje, os povos indígenas estão nas cidades, nas universidades, nas escolas e nos espaços públicos, reafirmando sua identidade e mostrando que ser indígena é uma condição de pertencimento, e não de território”, destaca a coordenadora da Funai.

Com mais de 35 mil indígenas Kaingang e Charrua sob sua jurisdição, a regional da Funai, sediada em Passo Fundo, atua em 65 áreas e ocupações em todo o Estado, com apenas oito servidores. “É um trabalho desafiador, mas fundamental. A gente precisa seguir garantindo visibilidade e dignidade aos povos indígenas, estejam eles nas aldeias ou nas cidades”, conclui Maria Inês.

O retrato indígena no Brasil

O levantamento nacional do Censo 2022 – Etnias e Línguas Indígenas, divulgado pelo IBGE, mostra um retrato ainda mais diverso e amplo dos povos originários brasileiros.

 Em todo o país, foram identificadas 391 etnias indígenas e 295 línguas faladas, números superiores aos do Censo de 2010, quando haviam sido registradas 305 etnias e 274 línguas.

Atualmente, 1.694.836 pessoas se autodeclararam indígenas, vivendo em 4.833 municípios, o que representa 0,83% da população brasileira. Em 12 anos, o número de indígenas quase dobrou, com um aumento de 88,8%.

A pesquisa também revelou uma mudança importante: pela primeira vez, a maioria da população indígena (53,97%) vive em áreas urbanas, enquanto 46,03% permanecem em áreas rurais.

A língua Nheengatu se destaca como a mais falada em áreas urbanas, com mais de 13 mil falantes, quase metade vivendo em cidades.

Segundo o IBGE, a ampliação do número de etnias e idiomas registrados reflete tanto mudanças metodológicas quanto o resgate linguístico promovido pelos próprios povos indígenas, que vêm revitalizando suas tradições. “Agora é possível olhar para cada povo de forma individualizada e compreender onde ele se situa — se em terra indígena, em área urbana ou rural —, permitindo que as políticas públicas levem em conta a etnia e o território”, explicou Marta Antunes, gerente de Povos e Comunidades Tradicionais do IBGE.

A cidade de São Paulo é a que concentra o maior número de etnias, com 194 grupos indígenas, seguida por Manaus (186), Rio de Janeiro (176), Brasília (167) e Salvador (142). Fora das capitais, destacam-se Campinas (SP), Santarém (PA) e Iranduba (AM).

Línguas e povos no Brasil (Censo 2022/IBGE)

391 etnias indígenas reconhecidas

295 línguas faladas

1,69 milhão de pessoas se autodeclararam indígenas

53,97% vivem em áreas urbanas

Presentes em 4.833 municípios

Línguas mais faladas: Tikúna, Guarani Kaiowá e Guajajara

Etnias mais populosas: Tikuna, Kokama e Makuxí

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