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A magia da consulta médica

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Hugo Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo FundoHugo Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo
Hugo Lisboa, MD, PhD, é professor de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo
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Por Hugo Roberto Kurtz Lisbôa
 
Há bons anos trabalho, todos os dias, no meu consultório médico. No fichário constam quase 12 mil pacientes. Isso sem contar aqueles que atendi internados nos hospitais e nos ambulatórios.  Cada um desses tem uma história individual e para cada qual teve um envolvimento meu particular. É isso que me encanta nesse trabalho. O contato inicial se estabelece assim que o paciente entra no consultório. Há certo grau de ansiedade em todos eles, porque consultar médico não é como ir a uma festa. A mão fria, o sobrecenho franzido, as pernas encolhidas para embaixo da cadeira denotam preocupação. Deve passar pela cabeça: O que este médico vai descobrir em mim? Será que tenho uma doença grave? Será que ele vai acertar comigo? Assim vão sucedendo os pensamentos pela mente e passaram pela minha nas vezes em que consultei. É importante que o médico desfaça essa aflição falando coisas mundanas inteligíveis como: De onde você é? Como estava o clima por lá hoje? Com quem o senhor (a) mora? O famoso clínico canadense Sir William Osler disse: “É tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem, é conhecer o homem que tem a doença”.
 
Entendimento e cumplicidade
Após esse período introdutório é bom deixar o paciente falar livremente. A atenção do médico deve ser total, pois ao discorrer ele estará dizendo o diagnóstico. A partir desse relato, 70% da hipótese diagnóstica vai se estabelecer. O exame físico, exames laboratoriais e de imagem geralmente resolvem os outros 30%. Uma história bem obtida diminui muito a necessidade de exames. Após as etapas iniciais é importante fazer um resumo para o paciente daquilo que ele disse e o que você pretende fazer. Desenvolve-se assim um entendimento e uma cumplicidade. Outras vezes, entretanto, em casos mais difíceis, pode não se obter uma pista num primeiro momento. Porém pode ser identificado qual o sistema que está comprometido: digestivo, urinário, pulmonar etc. Nessas circunstâncias é preciso rever o paciente algumas outras vezes e isso deve ser comunicado e organizado.

Relação e transferência
Ao iniciarmos trabalho no consultório precisamos deixar as nossas questões pessoais em segundo plano, pois naquele momento a atenção deve ser para o paciente. Isso não é fácil, pois os eventos da nossa vida estão se passando. Nessa relação terapêutica podem aparecer os fenômenos de transferência e contra transferência. Isso significa que o médico pode identificar com alguma coisa do paciente e esse com alguma peculiaridade do médico. Isso pode acontecer, por exemplo, quando um paciente não faz aquilo que lhe foi pedido e colocando no médico a responsabilidade por não ter sido feito. Pode, nessa hora, se o médico não esta ciente dessas situações, se sentir desrespeitado e ameaçar o paciente com más notícias sobre a sua doença, pedir exames mais difíceis e prescrever tratamentos dispendiosos. Aí começa a se desfazer a relação terapêutica e começam os riscos de uma contenda judicial.
 
Ouvir e aliviar
Há muitas doenças psiquiátricas entre os pacientes. Ansiedade e depressão são bem comuns na clínica e são enfermidades muito ruins. Não é boa prática dizer: “Todos teus exames estão normais. Isso é tudo da tua cabeça”. Seria como dizer; você não pode estar triste porque teus exames estão bons. Na prática diária, as situações mais leves podem ser tratadas pelo médico clínico. Somente ouvir o paciente já alivia muito. O médico pode errar o que é diferente de má prática. Qualquer médico pode ser enganado por uma doença se apresentando de maneira inusitada. Isso sempre aconteceu e sempre acontecerá. Não pode, entretanto, ser muito frequente, pois, se assim o for, médico estará precisando de treinamento naquele ponto específico onde está se equivocando de maneira sistemática.
 
Modismos e experiências
É importante também o médico não deixar se contaminar por modismos. Há, nos nossos tempos, a moda nefasta de solicitação exagerada de exames. Já vi serem pedidos 90 exames os quais não serviram para nada. Muitas vezes levaram a uma grande confusão. Nessa mesma linha, deve ser evitado receitar remédios porque se ouve falar na mídia ou muitos remédios. O médico deve se basear no método científico. É do mister repetir para todos os pacientes que devem adotar hábitos saudáveis de vida pois, ao fazer isso, eles se livrarão da maioria das doenças. Dizer que fumar é um risco enorme e que as vacinas são necessárias, mesmo que não seja algo glamoroso, é fundamental. É um dos trabalhos do médico. Assim, que continuo nessa atividade que tanto me agrada. Nos invernos, verões, primaveras e outonos entro no consultório com a alma limpa e pronto para viver experiências novas e surpreendentes. No final de tudo resta o prazer de ter tentado, e algumas vezes conseguido, tornar a vida dos meus pacientes mais longa e feliz.


(Foto – Divulgação – HSVP)
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