As lavouras de trigo da região de Passo Fundo têm encontrado, neste inverno, um conjunto de condições climáticas consideradas ideais para o seu desenvolvimento inicial. O frio persistente, aliado à ocorrência de chuvas regulares e bem distribuídas, vem favorecendo o crescimento das plantas e a manutenção da sanidade da cultura, fator que pode reduzir a necessidade de aplicação de defensivos e, consequentemente, os custos de produção.
Segundo o supervisor regional da Emater, Oriberto Adami, que atua no acompanhamento técnico de 42 municípios do norte gaúcho, o trigo está, na maior parte das áreas, na fase de desenvolvimento vegetativo, com algumas lavouras já avançando para o alongamento de caule. “O clima está favorecendo muito. As temperaturas baixas e a chuva moderada ajudam a manter a sanidade da cultura, diminuindo a incidência de doenças fúngicas e, com isso, a necessidade de tratamentos químicos. Até o momento, está indo muito bem”, avaliou.
Neste ciclo, a área de cultivo do trigo apresentou redução de cerca de 7% em relação à safra anterior, totalizando aproximadamente 110 mil hectares. Apesar dessa diminuição, a cultura segue como importante componente do calendário agrícola da região, ao lado de outras lavouras de inverno como a aveia branca comercial, que ocupa cerca de 45 mil hectares.
Condições climáticas ideais
O cenário atual contrasta com o de anos anteriores, quando o excesso de chuva no momento do plantio prejudicou a germinação e atrasou o desenvolvimento inicial. Em 2025, as chuvas têm ocorrido de forma moderada e sem enxurradas, condição que favorece a emergência e o crescimento uniforme das plantas.
A baixa incidência de doenças como a ferrugem e o oídio, comum nesta fase, é outro ponto positivo. Isso acontece porque temperaturas mais baixas e umidade controlada reduzem o ambiente favorável à proliferação de fungos. “Quando se diminui a necessidade de aplicar fungicidas, o produtor tem dois ganhos: o econômico, pela redução dos custos, e o ambiental, pela menor utilização de defensivos”, destacou Adami.
O técnico também lembra que, apesar do bom desempenho até o momento, os meses de setembro e outubro serão decisivos para a definição da produtividade e da qualidade dos grãos. A fase de floração e enchimento é extremamente sensível à ocorrência de doenças como a giberela e a brusone, que comprometem a qualidade industrial e o valor de mercado do trigo.
Rentabilidade e custos de produção
O custo de produção atual do trigo exige, segundo estimativas da Emater, uma produtividade mínima de 40 a 45 sacas por hectare para cobrir os gastos com insumos, maquinário e mão de obra. A média regional fica em torno de 55 sacas por hectare, mas lavouras mais tecnificadas podem atingir até 70 sacas.
Entretanto, mesmo com boa produtividade, a rentabilidade pode ser limitada pela oscilação dos preços de mercado. “O desempenho da safra atual influencia diretamente a decisão de plantio para o próximo ano. Se tivermos grãos de qualidade e preços atrativos, o produtor será estimulado a investir novamente. É um ciclo em que o sucesso de uma safra ajuda a construir a próxima”, explicou o supervisor.
Outro aspecto ressaltado é que a redução do uso de defensivos e a manutenção da qualidade do grão têm impacto direto no valor recebido pelo produtor. Grãos com baixo índice de contaminação por fungos e boa aparência comercial conseguem preços mais competitivos, especialmente em mercados que exigem padrões de qualidade mais elevados.
Safra de verão no horizonte
Enquanto as lavouras de trigo seguem seu desenvolvimento, a Emater já iniciou os trabalhos de levantamento de dados para a safra de verão 2025/2026. O milho e a soja são as culturas de maior destaque, representando juntas 90% dos mais de 700 mil hectares cultivados nos municípios atendidos pela regional.
O milho deverá manter a área próxima dos 70 mil hectares, número que se repete nos últimos anos, enquanto a soja deve ocupar cerca de 630 mil hectares. Contudo, esses dados serão consolidados até o dia 25 de agosto, após o levantamento de intenção de plantio realizado entre os dias 11 e 20 em todos os municípios gaúchos. “O produtor já está planejado, muitos já adquiriram insumos e encaminharam projetos de crédito rural. Alguns financiamentos já foram liberados, o que ajuda a organizar o cronograma da lavoura. O milho começa a ser plantado no final de agosto e início de setembro, então já estamos em fase de dessecação das áreas para receber a cultura”, detalhou Adami.
Um dos pontos trabalhados pela Emater junto aos produtores é a diversificação de culturas e a rotação entre elas. Segundo Adami, apesar da predominância da soja na região, é importante que o produtor avalie alternativas para evitar o plantio contínuo da mesma cultura no verão.
Perspectivas para o restante do ano
A expectativa para os próximos meses é de que o clima continue colaborando com o desenvolvimento das culturas de inverno. Caso setembro e outubro mantenham equilíbrio entre chuva e temperatura, a região poderá registrar uma das melhores safras de trigo dos últimos anos, tanto em produtividade quanto em qualidade.
No entanto, Adami reforça que o agricultor deve permanecer atento à previsão do tempo e aos alertas fitossanitários, pois uma mudança brusca nas condições climáticas pode alterar rapidamente o cenário.



