A segunda estimativa da safra de verão 2025/2026 no Rio Grande do Sul aponta uma redução de 7,1% na produção de grãos em relação à projeção inicial, divulgada em agosto do ano passado. Os dados foram apresentados na manhã de hoje (10) pela Emater/RS-Ascar, durante o tradicional Café da Manhã com a Imprensa, realizado na Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque.
A produção total de arroz, feijão, milho e soja deve chegar a 32,8 milhões de toneladas, número inferior às 35,3 milhões de toneladas estimadas inicialmente. A diferença representa uma perda de mais de 2,5 milhões de toneladas. Em relação à área cultivada, a redução é de cerca de 1,5%.
De acordo com o presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera, a revisão dos números reflete principalmente os efeitos do clima irregular durante o desenvolvimento das lavouras, marcado por períodos de calor intenso e falta de chuva.
Segundo ele, embora os números indiquem uma perda menor do que a registrada no ciclo anterior, os impactos econômicos seguem sendo significativos para o setor produtivo. “Não dá para comemorar porque não deixa de ser uma perda. O impacto econômico sempre existe para o produtor, especialmente em um momento em que muitos agricultores enfrentam dificuldades financeiras e endividamento acumulado”, destacou.
Baldissera também chamou atenção para a situação das regiões mais afetadas pela estiagem. “Se olharmos a região de Santa Rosa, por exemplo, a redução chega a 27%. Em alguns municípios e propriedades, as perdas são ainda maiores”, afirmou.
Soja concentra as maiores perdas
A cultura mais afetada pela revisão da estimativa foi a soja, principal grão produzido no Estado. A previsão atual indica produção de 19 milhões de toneladas, queda de 11,3% em relação às 21,4 milhões de toneladas projetadas inicialmente.
Além das chuvas insuficientes e irregulares durante períodos críticos do desenvolvimento das plantas, a cultura também foi impactada por outros fatores, como a redução de 1,7% na área plantada, dificuldades de emergência das lavouras por causa das baixas temperaturas e da umidade, e problemas no acesso ao crédito por parte dos produtores.
No feijão, a primeira safra teve redução de 11,6%, passando de 46 mil para 41 mil toneladas. Já a segunda safra apresentou queda ainda mais acentuada, de 28,6%, com estimativa atual de 11,6 mil toneladas. A diminuição está relacionada tanto ao risco de estiagem quanto ao preço pago ao produtor.
O arroz também teve leve redução na projeção. Com área estimada em 891,9 mil hectares pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), a produção deve chegar a 7,7 milhões de toneladas, cerca de 3,1% abaixo das 8 milhões de toneladas previstas inicialmente. A diminuição está ligada principalmente à redução da área cultivada, influenciada pelo cenário de mercado.
Milho apresenta crescimento
Entre as principais culturas de verão, o milho grão foi o único que apresentou crescimento na estimativa. A produção passou de 5,7 milhões para 5,9 milhões de toneladas, aumento de cerca de 3%.
A área cultivada também cresceu, passando de 785 mil hectares para 803 mil hectares, avanço de aproximadamente 2,3%.
De acordo com Baldissera, o resultado está relacionado ao posicionamento estratégico do cultivo e ao uso de tecnologia pelos produtores. “O produtor posiciona o milho em uma janela temporal de maior estabilidade climática e utiliza tecnologias que ajudam a garantir produtividade”, afirmou.
Programas públicos como o Irriga+RS e o Milho 100% também são apontados como fatores que contribuíram para a expansão da área e para o aumento da produção.
Impacto econômico e desafios
O secretário estadual de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim, ressaltou que as perdas sucessivas provocadas por estiagens nos últimos anos têm causado forte impacto econômico no Estado.
Segundo ele, apenas em arrecadação de ICMS, os efeitos das estiagens recentes representam prejuízos bilionários. “Nos últimos seis anos, tivemos quatro grandes estiagens. Só em ICMS, fala-se em algo na ordem de 30 bilhões de reais, mais de um terço do orçamento do Estado”, afirmou.
Paim destacou ainda que os impactos variam entre as regiões, o que explica a diferença entre os números estaduais e a realidade enfrentada por muitos produtores. “Há uma grande disparidade. Algumas regiões tiveram perdas muito maiores, enquanto outras registraram produtividade melhor”, explicou.
Para o secretário, apesar das dificuldades, o momento também deve ser encarado como oportunidade para fortalecer políticas públicas voltadas à resiliência climática no campo. “A gente sabe que o copo no campo está meio vazio pelas dificuldades de endividamento e pelos problemas climáticos. Mas também podemos olhar essa safra como uma perspectiva de retomada”, disse.
Irrigação e manejo do solo
Diante do cenário de instabilidade climática, tanto a Emater quanto o governo do Estado defendem a ampliação de estratégias para garantir maior estabilidade na produção agrícola.
Entre as principais medidas apontadas estão programas de manejo e conservação do solo, como a Operação Terra Forte, e o incentivo à irrigação.
Baldissera destaca que o avanço dessas práticas pode reduzir os efeitos das estiagens e garantir maior segurança produtiva. “O Rio Grande do Sul precisa avançar para ter mais estabilidade de produção e maior resiliência climática”, afirmou.
Na mesma linha, o secretário Gustavo Paim reforçou que a irrigação deve se tornar uma política permanente no Estado. “Precisamos tratar a irrigação como um plano de Estado. Sem isso, o Rio Grande do Sul continuará sofrendo com perdas causadas pelas estiagens”, concluiu.


