A música trajando luto

Aldir Blanc não resistiu à 'gripezinha' e morreu aos 73 anos de idade

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Aldir Blanc – 1946 – 2020 Foto – PinterestAldir Blanc – 1946 – 2020 Foto – Pinterest
Aldir Blanc – 1946 – 2020 Foto – Pinterest
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O compositor e escritor Aldir Blanc fechou sua obra na segunda-feira, 04, aos 73 anos, vítima da Covid-19, também conhecida como “gripezinha”. Estava por mais de duas semanas na UTI do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio. Dentre as comorbidades que calaram o poeta, certamente uma delas foi o atual cenário político do país, retrocesso equivalente a uma facada na alma para quem escreveu o Hino da Anistia, que se transformou em voz forte pelo fim da ditadura. Era 1979, quando a consagrada parceria com João Bosco ecoava pelo país na voz de Elis Regina. Lembro-me muito bem. Quando despencava a tarde, rodávamos na rádio O Bêbado e a Equilibrista. Nossas dores pungentes se transformavam em esperança. Hoje, dentre tantas dores, a arte acompanha Carlitos e também traja luto.

Crônica musicada e sempre atual

Aldir Blanc Mendes nasceu no Estácio, Rio de Janeiro, em 02 de setembro de 1946. Letrista, poeta e cronista, era médico especializado em psiquiatria. Depois de 1973 abandonou a medicina e dedicou-se à música. Festivais, sucessos e muitas parcerias. Mas foi ao lado de João Bosco que fluiu uma das mais importantes páginas da música brasileira. Um estilo próprio, irreverente, crítico, satírico, verdadeiro, romântico, ritmado e com o peso de uma crônica do cotidiano. Mais do que belas músicas, fragmentos da realidade. Dura, como em O Rancho da Goiabada, onde os boias-frias sonham com goiabada e queijo. Fria, como em De Frente Pro Crime, que popularizou a expressão ‘tá lá o corpo estendido no chão’. Romântica, sentindo um frio na alma, ou comportamental com o Band-Aid no calcanhar, no bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá. Paixão, com a voz mais rouca em Latin Lover. Futebol e lar, com o Flamengo e a Incompatibilidade de Gênios. Brasilidade, como a força da música em Kid Cavaquinho.

E... muito mais. De acordo com o Dicionário Cravo Albin da MPB, Aldir Blanc tem 297 composições catalogadas. Começou a compor com 16 anos. Além do parceiro Bosco como intérprete, compôs para Elis Regina, Elizeth Cardoso, Maria Alcina, Clara Nunes, Taiguara, Maria Creuza e tantos outros. Publicou livros de crônicas. Dentre outros, escreveu para O Pasquim, revista Bundas e para o Jornal do Brasil. Mesmo deixando magnífico acervo, pelo andar da carruagem, Aldir fará muita falta na montagem de uma nova esperança equilibrista.


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