Passo Fundo é a 5ª cidade gaúcha que mais acolhe refugiados venezuelanos

Interiorização é realizada pelo Exército Brasileiro em parceria com organismos humanitários internacionais

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Antes de cruzar o marco que delimita os domínios territoriais brasileiros e venezuelanos, na faixa fronteiriça de Pacaraima com o município de Gran Sabana, o autônomo Hector Jesus Hernandez Cedeños subiu no ônibus com algumas peças de roupa e dinheiro suficiente para uma passagem e alguns pães. Ao lado de um amigo, ele passou pelo controle migratório e, durante um mês, a imagem do Brasil para os dois era o vaivém do terminal rodoviário de Boa Vista, em Roraima, onde dormiram em bancos de espera até embarcarem para o Rio Grande do Sul em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). 

Os voos regulares, coordenados pelo governo federal e apoiados por organismos humanitários internacionais, ajudaram o estado nortista a desafogar a pressão exercida nos municípios limítrofes pelo êxodo venezuelano. A interiorização, que começou meses depois da chegada de Hector ao país em 2018, já trouxe 209 refugiados do regime bolivariano a Passo Fundo, convertendo a cidade na 5ª rota gaúcha que mais acolhe os cidadãos vindos da Venezuela, segundo ilustra o painel de monitoramento da Operação Acolhida atualizado na terça-feira (20). “Por um ano, tive de reunir 180 dólares [cerca de mil reais na conversão cambiária do dia] para poder chegar ao Brasil”, lembra Cedeños em um diálogo com o jornal O Nacional. “A Venezuela era questão de encomendar a Deus”, complementa.  

Grávida da primeira filha do casal, a esposa de Hector ficou em El Tigre, a quase 460 quilômetros da capital, Caracas, e distante 1.035 quilômetros do marido, no Brasil. “Comíamos o almoço e não sabíamos se teríamos o jantar”, descreve o refugiado. “Mas, quando chegamos a Roraima, vivemos como indigentes”, pondera. O abuso de poder, a hiperinflação e a redução no poder de compra, cujo salário mínimo minguado pago aos trabalhadores era insuficiente para o básico, foram decisivos para que ele percorresse a mesma rota feita por 50 mil venezuelanos interiorizados em 675 localidades brasileiras.  

Do total de refugiados venezuelanos, 30,44% chegam ao Estado com alguma necessidade de proteção legal e física. Fonte: Painel de Monitoramento/Operação Acolhida


O caminho das maçãs 

De mercador, Hector se converteu em coletor de maçãs em Bom Jesus, cidade que o abrigou por um curto período até tomar conhecimento sobre Passo Fundo. “O primo de um amigo meu morava aqui e me falou sobre as oportunidades da cidade”, contou o venezuelano.  

Há dois meses, ele e a esposa, à espera do segundo filho que deve nascer passo-fundense, cedem a força de trabalho à JBS para, enfim, iniciar a estruturação familiar desejada pelo casal. “A cidade tem condições para dar uma boa vida aos meus filhos”, ressalta Cedeños. “A Venezuela é um país que já está no chão, não vai mudar de um dia para outro ou em uma década”, lamenta. 

Desde o início da Operação Acolhida, em 2018, 50 mil venezuelanos foram interiorizados no país.


Operação Acolhida 

Assim como Hector, 7.050 venezuelanos desembarcaram no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, em três anos de Operação Acolhida. Figurando no ranking das localidades que mais absorvem a necessidade de proteção humanitária aos refugiados que chegam ao Rio Grande do Sul, Passo Fundo fica atrás apenas de Porto Alegre, Canoas, Caxias do Sul e Esteio, como detalha a interface do programa federal.  

Com o fechamento das fronteiras em março de 2020, ordenado para conter o avanço da pandemia no país, a interiorização dos venezuelanos no Estado diminuiu 31,5% em um ano, segundo os cálculos feitos com base nos registros migratórios. Dos 3.409 refugiados adultos em solo gaúcho, mais da metade têm ensino médio completo. A formação permitiu que eles chegassem às cidades com experiência, sobretudo, em ofícios como vendedores, cuidadores de lares e trabalhadores da construção civil que, como desenha o gráfico do Governo Federal, são as principais ocupações desempenhadas por essa nova força de trabalho nas regiões.  


 

 


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