Solidariedade a flor da pele

Atitudes solidárias aumentam nesta época do ano e existem vários motivos para que isso aconteça

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Atrás do balcão da recepção do Cais da Vila Luiza, Ana Paula dos Santos da Silva, passa o ano todo atendendo as pessoas que buscam o local para atendimentos médicos e na área de saúde. Da mesma forma, o DJ Marlon Rodrigues, se dedica ao trabalho e à faculdade na maior parte do ano. No entanto, o mês de dezembro é reservado por ambos para se dedicar ao próximo. Em diferentes regiões da cidade, os dois integram e lideram grupos que se empenham em organizar festas de Natal que proporcionem momentos de alegria e descontração a crianças em situação de vulnerabilidade.

Talvez não haja uma única justificativa para que isso aconteça. O fato é que muitas pessoas se sentem mais sensibilizadas e dispostas a olhar o outro nesse período do ano. A organização de festas de Natal, por exemplo, é só uma das manifestações perceptíveis desse espírito solidário que envolve as pessoas. Alguns estão dispostos a fazer doações, a dedicar tempo em benefício de alguma causa específica, a adoção das cartinhas da Campanha Papai Noel dos Correios, ou infinitas outras ações, maiores ou menores, mas nunca menos importantes.

Se essa solidariedade acentuada é perceptível nos diferentes ambientes, nas entidades e ONGs que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade é possível identificar a concretização desta situação. Conforme o diretor da Fundação Beneficente Lucas Araújo Luiz Costella o volume de contribuições que a entidade recebe nesse período do ano é muito maior do que em outras épocas. A entidade atende crianças, jovens e idosos em diversas áreas, desde educação infantil, atividades em turno inverso ao da escola e nas instituições de longa permanência para idosos.

Apesar da fundação contar com fontes de recursos permanentes por meio de convênios, eles não são suficientes para manter todo o trabalho. Por isso as doações da comunidade são tão importantes. “Se a comundiade deixar de apoiar teremos de deixar de realizar alguma atividade. E a Fundação tem tido várias parcerias e a colaboração e solidariedade da comunidade. Nos sentimos felizes em poder contar com a comunidade nessa parceria e nos sentimos comprometidos em levar adiante esse trabalho”, pontua Costella. Nesta época do ano a doações se ampliam em até 50% e muitas são suficientes para vários meses, como, por exemplo, alguns gêneros alimentícios que não são perecíveis. Da mesma forma, datas como Páscoa e Dia das Crianças também representam um aumento nas doações.

Necessidade o ano todo
O diretor da ONG Amor, Milton Menezes, confirma o aumento das doações nesta época do ano e o maior envolvimento das pessoas, em relação a outros períodos. Por outro lado, ele destaca a importância das pessoas entenderem que o trabalho das entidades é desenvolvido durante todo o ano e a colaboração é fundamental em todas as épocas. “Não adianta ficarmos reclamando da sociedade e das coisas e esperar que o governo faça algo. Podemos melhorar a sociedade se todo mundo colaborar um pouco”, opina. Por outro lado, da mesma forma que aumentam as contribuições, a entidade registra um aumento de pessoas que buscam apoio.

Nesse contato com as pessoas que colaboram com a ONG, Menezes destaca que há uma questão emocional envolvida em função de todo o clima que essa época proporciona. “As pessoas estão mais abertas a compartilhar e se solidarizar e se sensibilizam mais e acabam querendo dar uma contribuição para os outros. Durante o ano as pessoas estão muito focadas em si, em resolver os próprios problemas e agora acabam se abrindo um pouco mais”, enfatiza. Neste ano, a ONG realizou uma festa de Natal para mais de 600 crianças. Com colaboração de diversas pessoas, todas as crianças puderam brincar e se divertir durante a festa e ainda ganharam presentes.

 

O sentimento que move as pessoas
Ana Paula dos Santos da Silva trabalha como recepcionista no Cais da Vila Luiza. Desde 2002, ela e familiares organizam festas de Natal para as crianças do bairro. Neste ano foram mais de 200 participantes. O início dessa história de solidariedade, no entanto, é marcado por um momento triste. Naquele ano, ela perdeu o pai e, na tentativa de diminuir a dor da família, teve a ideia de começar a organizar a festa aos pequenos. “Para nossa família foi uma perda irreparável porque ele sempre foi muito presente e depois do falecimento dele surgiu a iniciativa da festa porque ficamos sem saber o que fazer. A minha mãe sentiu muito e ficamos pensando no que poderíamos fazer para suprir um pouco a dor que estávamos passando e a realização desta ação foi a única coisa que achamos que poderia amenizar a dor que estávamos passando”, conta.

Da ideia inicial organizada por alguns familiares, os festas de natal foram crescendo e ganharam novos apoiadores. Outras pessoas começaram a se envolver na organização a fim de buscar patrocínio e doações. “O sentimento que move isso é o amor às pessoas, o amor ao próximo e às crianças que necessitam. É um sentimento único e verdadeiro e se mais pessoas fizessem e tirassem um tempinho para pensar que essas crianças às vezes não recebem nenhum presente teríamos mais iniciativas assim”, acredita. A ideia é de que no próximo ano, além da festa de Natal, também seja realizada uma festa de Dia das Crianças.


Religiosidade e gratidão
Para o estudante do curso de Sistemas para Internet que atualmente trabalha como DJ, Marlon Rodrigues, a experiência religiosa no Espiritismo e na Umbanda o ensinou a fazer a caridade e o bem ao próximo. “Acredito que se mais pessoas aprendessem a fazer tais ações, o mundo seria bem diferente”, afirma. De uma ideia surgida em 2013 com amigos e familiares, ele e um grupo de pessoas começaram a pensar em formas de promover atividades especiais para crianças em situação de vulnerabilidade em diferentes locais.

Neste ano, o projeto Natal Solidário chegou à sua terceira edição e foi realizado no CTG Eduardo Muller. Cerca de 300 crianças foram beneficiadas com brinquedos, distribuição de doces, refrigerantes, cachorro quente e presentes durante a festa. “O sentimento que me faz ter vontade de continuar a realizar tais atividades, é ver o brilho no olhar de cada criança, e de ver aquele sorriso estampado em cada rostinho. Porém, nada seria possível se não tivesse o apoio de várias pessoas que abraçaram esta causa junto comigo. E também o que me deixa muito feliz, é ver que várias pessoas têm abraçado este projeto, e cada vez tem tomado proporções maiores que o esperado, e cada ano que passa conseguimos atender mais e mais crianças”, relata. De acordo com ele, o objetivo do grupo é ampliar cada vez mais as ações e, no futuro, criar uma ONG.

Uma construção cultural
Para o psiquiatra Jorge Salton a explicação para esta solidariedade aguçada é muito mais prática do que se imagina. Na análise dele, isso se tornou habitual pela divulgação. Parecido com o que aconteceu com a figura do Papai Noel, criado a partir da história de São Nicolau, que viveu na Turquia no século IV, e que todo final de ano pegava moedas de ouro e doava a desconhecidos com dificuldades financeiras. A partir de uma campanha publicitária da Coca-Cola a imagem do homem de vermelho e branco se popularizou.

Além disso, as motivações para que as pessoas tenham atitudes solidárias nesta época são variadas. Salton explica que alguns agem por altruísmo, outros visando algum ganho secundário. “Portanto, existem ‘Papais Noéis’ diferentes. Mas para quem está precisando e recebe algo que o ajude, não há necessidade de saber qual a motivação”, simplifica. O médico acrescenta que é difícil alguém conseguir realizar atos solidários durante todo o ano. Isso porque muitas vezes é preciso concentrar energias para cuidar da própria vida e dos dependentes. “Por isso, existem essas datas. O aniversário de alguém, por exemplo. É o momento de sermos solidários com determinada pessoa, já que não podemos todos os dias do ano ficar atentos e interessados em todas as pessoas que conhecemos”, compara.

Da mesma forma, Salton explica que a festa de Natal com a troca de presentes se tornou um momento de reforço dos laços familiares. “Acaba sendo também um momento em que somos levados a repensar estas relações. É um momento de "retorno" para a vida familiar. Há uma tentativa de reparar as desatenções ocorridas ao longo do ano. Mas, obviamente, esse fenômeno ocorre para quem se adaptou a esta cultura”, acrescenta destacando ainda que muitas pessoas não veem estes significados nestas datas, nem a necessidade de promover tais reencontros.

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