O Rio Grande do Sul está em situação de emergência em saúde animal após a confirmação de um caso de gripe aviária em uma granja no município de Montenegro. A notícia repercutiu rapidamente e levou diversos países a suspenderem temporariamente a importação de produtos avícolas do estado. O professor e doutor em Economia Julcemar Zilli, da Universidade de Passo Fundo (UPF), em entrevista à Rádio UPF, exlicous os impactos econômicos dessa situação, especialmente na região Norte do estado.
Repercussão na região
Segundo Julcemar Zilli, o impacto já pode ser estimado, embora ainda de forma preliminar. "O complexo de frangos e ovos representa de 5% a 6% de tudo que é exportado pelo Rio Grande do Sul. Se ficarmos um mês sem exportar, o impacto pode ser de aproximadamente 0,5% no volume total exportado pelo estado em 2025", afirma. O economista explica que, convertido em valores, isso pode representar entre US$ 70 e US$ 100 milhões — ou até R$ 400 a R$ 600 milhões — que deixariam de circular na economia das empresas do setor. “Claro que parte dessa produção que não será exportada vai ser absorvida pelo mercado interno, com preços mais baixos, o que deve aliviar um pouco esse impacto”, ressalta.
Deixa de exportar não é deixar de vender
O professor explica que o impacto mais imediato é no equilíbrio entre oferta e demanda. “Há uma quantidade significativa de aves prontas para o abate, que seriam destinadas à exportação. Com a suspensão, essas aves vão para o mercado interno, o que aumenta a oferta e tende a pressionar os preços para baixo”, detalha. Isso significa que o consumidor deve sentir uma redução nos preços do frango e dos ovos nos próximos dias. “Isso pode, inclusive, gerar um efeito positivo no valor da cesta básica, especialmente para as famílias de baixa renda, durante os meses de maio e junho”, destaca Zilli.
Região de Passo Fundo
O economista esclarece que, no caso específico de Passo Fundo, o impacto direto é praticamente nulo. “A cidade tem 96% a 97% do volume exportado concentrado no complexo de grãos”, explica.
Por outro lado, municípios vizinhos que possuem plantas frigoríficas e agroindústrias, como Marau, Tapejara e Serafina Corrêa, podem sentir um efeito maior. “Estamos na maior região produtora de frango do estado. Esse impacto dos 5% a 6% de redução nas exportações vem, em grande parte, dessa região”, ressalta.
Consequências para o produtor
De acordo com Julcemar Zilli, o modelo de produção no setor avícola é, na maioria dos casos, baseado no sistema de integração. Nele, o produtor fornece mão de obra, energia, água e infraestrutura, enquanto a agroindústria disponibiliza os insumos e garante a compra dos animais. “O que pode acontecer é uma pequena redução no valor pago ao produtor, afetando sua rentabilidade. Mas, mais do que isso, pode haver um aumento no chamado vazio sanitário, o período entre a retirada de um lote e a entrada de um novo. Esse tempo pode aumentar para que o mercado consiga absorver o excesso de frango resfriado ou congelado que não será exportado”, explica.
O Brasil no mercado internacional
Zilli avalia que, a princípio, não há risco de perda permanente de mercado no exterior. “O impacto é momentâneo. O Brasil já adotou praticamente todas as medidas necessárias para conter o problema. Se não surgirem novos casos, como parece ser o cenário, em cerca de 28 a 30 dias a situação se normaliza e o país retoma as exportações”, afirma.
O economista ainda ressalta que o Brasil é visto como um fornecedor seguro de proteína animal e que o episódio não deve comprometer a imagem do país no mercado internacional. “A preocupação é apenas de curto prazo”, conclui.



