Na última quinta-feira, (29), foi celebrado o Dia da Visibilidade Trans, data que marca a luta histórica das pessoas transgênero e travestis por direitos sociais, dignidade e respeito. Em Passo Fundo, a data ganha relevância a partir da atuação do Centro de Referência de Saúde LGBTI+, serviço especializado do Sistema Único de Saúde (SUS), que acompanhou 103 pessoas trans em 2025 e se consolidou como política pública fundamental na garantia do direito à saúde integral.
Segundo a assistente social e coordenadora do serviço, Talissa Tondo, a visibilidade vai além do caráter simbólico. “Não se trata apenas de levantar uma bandeira, mas de agir de forma concreta para enfrentar o preconceito, erradicar a transfobia e garantir condições dignas de vida para pessoas que ainda permanecem à margem do acesso à educação, ao trabalho, à segurança pública e à saúde”, destaca.
Dez anos de atuação
Criado como um serviço público especializado, o Centro de Referência de Saúde LGBTI+ de Passo Fundo completou no ano passado, dez anos de atuação. O atendimento é destinado a pessoas a partir dos 12 anos de idade e oferece acolhimento e acompanhamento multiprofissional nas áreas da Sexualidade Humana, Orientação Sexual e Identidade de Gênero, com foco na atenção integral e humanizada.
O serviço conta com uma equipe formada por assistente social, enfermeira, psicóloga, nutricionista, psiquiatra, médica generalista, ginecologista e endocrinologista. Além das consultas especializadas, o Centro atua no matriciamento da rede pública municipal, apoiando outras unidades de saúde na construção de práticas qualificadas e no ordenamento do cuidado à população LGBTI+.
Serviços e demandas
Entre os principais atendimentos ofertados estão o acompanhamento psicossocial, a hormonização cruzada transgênero — com dispensação e aplicação de hormônios pelo SUS —, grupos de apoio, acolhimento de familiares, solicitação de cirurgias de afirmação de gênero pelo Processo Transexualizador do SUS, encaminhamentos para fonoterapia em parceria com a Universidade de Passo Fundo, realização de exames laboratoriais e ações de capacitação para diferentes setores da sociedade.
De acordo com Talissa Tondo, as demandas mais frequentes da população trans envolvem questões de saúde mental, violação de direitos sociais e busca pela hormonização, tratamento que contribui para a redução da disforia de gênero e a melhoria da qualidade de vida. Também são comuns as orientações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e os pedidos de acesso a cirurgias de afirmação de gênero.
Acolhimento, respeito e desafios no SUS
O acolhimento no Centro ocorre desde o primeiro contato, com atenção ao uso do nome social e dos pronomes adequados, considerados fundamentais para um atendimento respeitoso e livre de julgamentos. “Nossa missão é ser uma casa segura, um espaço protetivo, onde a pessoa trans possa ser escutada em sua totalidade”, afirma a coordenadora.
Apesar dos avanços no atendimento ambulatorial em nível municipal, o acesso a procedimentos de maior complexidade ainda representa um dos principais desafios. O tempo médio de espera para cirurgias de afirmação de gênero pelo SUS chega a cerca de dez anos no estado, que conta com apenas dois hospitais habilitados para esses procedimentos. “O maior desafio hoje está na atenção hospitalar e na necessidade urgente de maior interesse público para transformar esse cenário”, conclui Talissa.


